Leitores questionam veracidade de moto movida a água

Eduardo Schiavoni

Do UOL, em Ribeirão Preto (SP)

A reportagem "Moto que anda até com água do Tietê faz 500 km por litro", publicada pelo UOL nesta quinta-feira, gerou uma grande repercussão entre os leitores do portal. Muitos deles, inclusive, questionaram a veracidade da história e outros indicaram, através de comentários, a impossibilidade científica de o invento ser real.

Entre as contestações dos leitores, a mais frequente foi em relação à energia necessária para realizar a eletrólise. Os leitores argumentaram que o sistema não poderia funcionar sem a alimentação de uma fonte de energia externa, já que o consumo de energia para realizar o procedimento é maior que a energia liberada na combustão do hidrogênio.

Gabriel Azevedo, que é químico e participou da construção do sistema, informa que, exatamente por isso, houve a opção por instalar uma bateria de carro, que provém a energia necessária para realizar a eletrólise. "O sistema não é interligado na bateria da moto, é uma bateria independente", disse.

Ricardo Azevedo, pai de Gabriel e que desenvolveu com ele o sistema, informa ainda que existe um reaproveitamento da energia de outros sistemas da moto, como freios, que recarregam parcialmente a bateria. "Não conseguimos eliminar a necessidade da recarga, mas conseguimos uma autonomia de uso de aproximadamente dez horas antes que a recarga completa seja necessária", afirma.

Segundo ele, a energia da frenagem da moto é captada e utilizada para recargas parciais da bateria e ele estuda, ainda, um novo melhoramento capaz de captar também energia cinética do movimento da roda para ampliar a recarga. "É um sistema parecido com o KERS utilizado na Fórmula 1. Armazenamos essa energia, que abastece a bateria. Mas não posso revelar mais do que isso sem expor os segredos do sistema que criamos", disse. "Certamente não iremos conseguir impedir que seja necessária a recarga da bateria na rede elétrica, mas pensamos que podemos aumentar o tempo até que a recarga seja necessária", disse.

A reportagem ouviu o professor Ennio Peres da Silva, coordenador do Laboratório de Hidrogênio da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), um dos pioneiros na pesquisa de veículos híbridos movidos a hidrogênio no Brasil. O especialista ressaltou que o sistema proposto, com alimentação através de bateria externa, pode efetivamente gerar energia para mover a motocicleta.

"Ele seria inviável se não tivesse essa alimentação externa. Mas inevitavelmente, independente dos recursos que se usem, essa bateria terá que ser reabastecida. Um sistema de reaproveitamento de energia, como proposto, pode adiar a recarga, mas não há, de acordo com as leis da termodinâmica, como criar um mecanismo de reaproveitamento de energia que seja capaz de sustentar o sistema de forma autônoma", disse.

Eletrólise e movimento

Outra crítica foi que a quantidade de hidrogênio conseguida através da eletrólise não seria suficiente para gerar energia a ponto de manter uma moto em movimento.

"A eletrólise é feita com aditivos e por isso conseguimos um rendimento até 350% superior ao da eletrólise comum", afirmou o químico Gabriel Azevedo, que ajudou o pai, Ricardo Azevedo, na adaptação da moto. "Achamos que podemos chegar a resultados ainda mais expressivos, porque o projeto não está finalizado. Ao longo de seis meses, testamos uma série de componentes químicos e chegamos a um sistema que é viável financeiramente e que apresenta efetiva economia", disse. Gabriel não quis revelar quais produtos utilizou para fazer a eletrólise, pois disse se tratar de um projeto que pode ser vendido ou patenteado.

Embora ressalte que não seja capaz de avaliar o sistema desenvolvido por Azevedo, o professor de Química Ernesto Gonzalez, que atua desde a década de 1970 na USP (Universidade de São Paulo) em São Carlos, confirma que o cenário descrito por Gabriel é possível. "Existe uma série de aditivos químicos que podem amplicar o processo da eletrólise". O cientista está na lista dos mais citados do mundo em sua área e pesquisa o desenvolvimento de novos combustíveis.

Gabriel ressaltou que, embora a adição dos aditivos torne o sistema desenvolvido por ele mais caro do que se houvesse a realização de eletrólise simples, o custo-benefício da utilização deles ainda é compensador. "Por isso buscamos um investidor, justamente para aprimorar o que já desenvolvemos", contou.

Armazenamento do hidrogênio

Muitos leitores também também contestaram o fato de o hidrogênio não ser armazenado no tanque de combustível original da moto. Segundo Ricardo Azevedo, isso não foi proposto no sistema porque a ideia original era permitir que a motocicleta também andasse com gasolina.

"Não trabalhamos com armazenamento do hidrogênio, apenas com o consumo imediato. Além disso, a adaptação permite que ela rode tanto com gasolina quanto com hidrogênio", explica.

Outra suposta incoerência apontada pelos leitores foi o fato de o hidrogênio passar pela combustão no mesmo motor que equipa as motos originais, sem adaptações. De acordo com o professor Gonzalez, entretanto, o sistema de combustão original da moto pode ser utilizado para a queima do hidrogênio sem nenhum problema.

Segundo o especialista, acontece com o hidrogênio a mesma forma de combustão utilizada parra carros convertidos funcionarem com gás de cozinha nos anos 1980 e 1990. "O modelo de combustão desses combustíveis é bem similar. A forma de o motor trabalhar é praticamente a mesma, por isso não existe a necessidade de modificar o motor", disse.

Fonte de energia

Outro ponto de contestação dos leitores diz respeito à utilização da água como combustível. Gabriel faz questão de ressaltar que existe a utilização de uma série de componentes para a realização da eletrólise, incluídos, além da água, energia elétrica, provida pela bateria, e aditivos acrescidos para ampliarem a obtenção de hidrogênio na eletrólise. 

Questionado sobre o assunto, o professor Ennio Peres afirmou que, por utilizar uma bateria como fonte de alimentação, a moto de Azevedo se enquadra mais como uma moto elétrica do que como uma moto movida a água. "Não se trata de um veículo no qual a água é o combustível, mas sim uma moto elétrica, já que o que a movimenta é a carga da bateria, utilizada para a eletrólise", disse.

Houve ainda questionamentos sobre o uso da água do rio Tietê como fonte de combustível. Azevedo reconhece que ela não é ideal para o uso, mas ressalta que tentou mostrar que é possível que ela seja utilizada, embora com perdas de eficiência. "Evidente que é melhor utilizar uma água destilada, enriquecida. Isso altera os resultados, evidentemente. Mas foi uma forma de destacar que é possível", conta.

Autonomia e economia

Houve ainda comentários sobre a autonomia da motocicleta, bem como questões de desempenho e economia.

Embora os testes realizados pelos criadores do sistema não estejam completos, Ricardo Azevedo ressaltou que, levando em conta todos os fatores envolvidos no processo (energia elétrica, custo dos aditivos e custos dos equipamentos), chegou a um custo de operação de R$ 0,02 centavos por quilômetro rodado com o equipamento. Nas motos mais econômicas do mercado, que rodam a gasolina, o custo se aproxima dos R$ 0,07.

De acordo com o professor Ennio Peres, a depender dos aditivos utilizados no processo, esse número é possível de ser alcançado. "Pode, efetivamente, ser um sistema vantajoso em relação aos custos de uma moto que roda com a gasolina", disse.

Sobre desempenho, Ricardo Azevedo informa que consegue manter uma velocidade de até 100 quilômetros por hora em rodovias e que não encontra problemas de desempenho do veículo em circuitos urbanos. "A moto sente quando há subidas muito íngremes, mas consegue superar os obstáculos. Não muda muito, em termos de desempenho, na comparação com uma moto que roda com gasolina", disse.

Ele esclarece ainda que a quilometragem por litro, apontada na matéria como 500 quilômetros, trata-se de uma estimativa feita baseada no uso que ele fez do equipamento. "Fiz uma estimativa, baseado no que andava nos meus deslocamentos. Não é um número exato, mas posso dizer que o desempenho supera bastante o da gasolina", disse.

Ricardo Azevedo esclarece que ainda não fez todos os testes para mensurar as questões, mas informou que está disposto a levar sua motocicleta a uma concessionária oficial da Honda para que as mensurações sejam realizadas. "Já fiz contato com a concessionária e um mecânico qualificado irá realizar e aferir os testes. Também estou disposto a explicar e demonstrar o sistema para quem estiver interessado", disse,

Comparação com veículos elétricos

A grande maioria dos leitores apontou também o uso de veículos elétricos como alternativas mais viáveis para utilização no transporte. E os especialistas ouvidos pelo UOL concordam que, na comparação de resultados, os elétricos levam vantagem.

O professor Ernesto Gonzalez informa que, por ser uma tecnologia que utiliza a alimentação por energia elétrica, o sistema de Azevedo é menos eficiente do que seria uma moto elétrica, entre outras opções. "Ele utiliza a energia elétrica para fazer a eletrólise, e o hidrogênio para fazer a combustão. No sistema elétrico, a energia seria utilizada diretamente para mover o veículo, o que diminui muito os custos e aumenta a eficiência", disse ele, ressaltando que motores elétricos podem ter eficiência de até 90%, contra 20% dos motores à combustão.

Isso se traduz, segundo Ennio Peres, em economia. "Supondo que o criador do sistema tenha efetivamente conseguido o custo que afirmar, de R$ 0,02, ele ainda seria o dobro do custo para andar com uma moto elétrica pura, que é de R$ 0,01. Pode ser um sistema vantajoso em relação à gasolina, mas certamente não é se comparado a uma moto elétrica", disse.

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