Aedes aegypti infectados com bactéria não transmitem zika, aponta estudo

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

  • Nelson Almeida/AFP

Mosquitos Aedes aegypti quando infectados com a bactéria Wolbachia não conseguem transmitir o vírus da zika. É o que aponta cientistas da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em estudo publicado na revista científica "Cell Host & Microbe", nesta quarta-feira (4). Segundo a pesquisa, a bactéria ainda é capaz de reduzir a replicação do vírus no organismo do mosquito.

O estudo faz parte do projeto "Eliminar a Dengue: Desafio Brasil", que investiga o papel da bactéria Wolbachia como uma alternativa natural, segura e autossustentável para diminuição da incidência da dengue, chikungunya e zika no país.

Cientistas usaram quatro grupos de mosquitos Aedes aegypti. Em duas gaiolas colocaram Aedes aegypti com Wolbachia, criados em laboratório, e em outras duas, mosquitos sem a bactéria, coletados no Rio de Janeiro. Os insetos foram alimentados com sangue humano de pessoas que contraíram o vírus da zika em São Paulo e em Pernambuco.

Depois de 14 dias que os mosquitos tiveram contato com o vírus, foram coletadas amostras de saliva de dez Aedes aegypti com a bactéria e de dez insetos sem a Wolbachia. Os pesquisadores pretendiam infectar 160 insetos e ainda analisar se eles seriam infectados pelo vírus presente nas salivas dos outros mosquitos. Porém, nenhum dos mosquitos que recebeu saliva de Aedes com Wolbachia se infectou com o vírus da zika. Por outro lado, 85% dos Aedes aegypti que receberam saliva do mosquito sem Wolbachia ficaram altamente infectados.

"Por mais que a saliva dos Aedes aegypti com Wolbachia apresentasse partículas virais de zika, em nenhum caso a saliva foi capaz de infectar outros mosquitos. Esses dados são similares ao efeito anteriormente observado sobre o potencial de transmissão do vírus dengue por Aedes aegypti com Wolbachia. Isso nos mostra que o uso de mosquitos Aedes aegypti com Wolbachia também tem potencial para ser utilizado para controle da transmissão do vírus da zika", afirma o pesquisador Luciano Moreira, coordenador do estudo e líder do projeto.

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Outros experimentos

Amostras de abdômen e cabeça/tórax dos mosquitos foram analisadas para saber se os tecidos dos insetos estudados restavam contaminados pelo vírus. Foram divididos quatro grupos de 20 insetos com e sem Wolbachia, em dois momentos. Sete dias após a ingestão do sangue infectado com a cepa de Pernambuco, houve uma redução de 35% na replicação do vírus da zika no abdômen e de 100% na cabeça/tórax no grupo de insetos com a Wolbachia quando comparados ao grupo sem a bactéria.

O estudo mostrou ainda que após 14 dias da infecção inicial, as reduções foram de 65% e 90%, respectivamente. No grupo que recebeu sangue infectado com a cepa de São Paulo, após sete dias, as reduções atingiram os índices de 67% e 95%, no abdômen e na cabeça/tórax, e 68% e 74%, nos mesmos tecidos, após 14 dias.

"Ainda não se sabe o que acontece no organismo do mosquito com Wolbachia quando ele é infectado com o vírus da zika, por exemplo. No entanto, percebemos que nesta competição a bactéria leva a melhor. Ela consegue reduzir a replicação do vírus", diz o pesquisador.

Sem zika

Cientistas também estudaram amostras de saliva de 20 mosquitos Aedes aegypti com Wolbachia e de 20 Aedes aegypti sem a bactéria, que receberam sangue infectado com a cepa isolada de Pernambuco. O material foi coletado 14 dias após o recebimento do vírus no mosquito. Neste período, o patógeno já teria se espalhado pelo organismo do mosquito e chegado à glândula salivar. Pesquisadores queriam descobrir o percentual de vírus que chegaria até este estágio, que é quando o mosquito fica capaz de transmitir o zika. O resultado apontou que 55% dos mosquitos com Wolbachia não apresentava o vírus.

"Na natureza, ao picar um indivíduo infectado, o mosquito também se infecta. O vírus, então, irá percorrer um longo caminho por todo o corpo do inseto até chegar à glândula salivar. Alcançar um resultado que demonstra que mais da metade dos Aedes com Wolbachia sequer apresentarão zika na saliva, caso sejam infectados, reforça ainda mais o potencial de utilização em larga escala que esta estratégia apresenta", diz Moreira.

O projeto "Eliminar a Dengue: Desafio Brasil" começou em 2012 e faz estudos de campo no Rio de Janeiro, nos bairros de Tubiacanga e Ilha do Governador, e em Niterói, no bairro de Jurujuba. Um dos resultados do estudo científico mostrou que 80% dos mosquitos Aedes aegypti das áreas pesquisadas possuíam a bactéria Wolbachia. A pesquisa ocorreu entre agosto de 2015 e janeiro de 2016.

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