Brasileiros conseguem 1ª prova de que zika causa microcefalia em ratos

Tatiana Pronin

Colaboração para o UOL, em Nova York

  • Ueslei Marcelino/ Reuters

Cientistas brasileiros conseguiram demonstrar pela primeira vez que o vírus zika é capaz de atravessar a placenta e causar microcefalia e outras alterações no sistema nervoso de camundongos. Os resultados, publicados na revista Nature desta semana, são considerados a primeira prova experimental em animais de que o vírus é o responsável pelas malformações congênitas observadas no Brasil e em outros países. Até então, só havia essa comprovação de causa e efeito em células humanas cultivadas em laboratório.

Patricia Beltrão Braga e Jean Pierre Peron, da Universidade de São Paulo, e Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia, também realizaram experimentos em culturas de células, mas o grande diferencial da equipe foi a simulação em roedores. Eles utilizaram duas linhagens diferentes de camundongos -- uma chamada SJL e a outra, C57BL / 6. As fêmeas, prenhas, foram infectadas com a linhagem do vírus que circula no Brasil, isolado de um recém-nascido com microcefalia da região Nordeste.

A equipe esperava que os filhotes de ambas as linhagens de camundongos fossem afetados igualmente, mas os resultados surpreenderam os pesquisadores: os filhotes das fêmeas SJL apresentaram clara evidência de restrições de crescimento intrauterino, além de sinais de microcefalia e alterações no tecido cerebral. Em contraste, nos camundongos C57BL / 6 o vírus nem chegou a atravessar a placenta.

O resultado deve servir de base para estudos futuros: "Isso pode ajudar a pensar nas infecções nas grávidas, umas com bebês com microcefalia e outras não", comenta Braga. "Os vírus causam sintomas mais ou menos graves dependendo do tipo de resposta imune que o organismo é capaz de fazer. A genética e a forma de responder imunologicamente certamente estão relacionadas", diz a cientista.

Vale dizer que os pesquisadores inocularam o zika nas fêmeas de camundongos no período que equivale ao segundo trimestre de gestação em humanos, pois, em muitas grávidas que tiveram filhos com microcefalia no Nordeste, a infecção ocorreu nessa fase. Apesar disso, autoridades de saúde têm ressaltado que as consequências podem ser mais dramáticas quando a mulher contrai a doença no primeiro trimestre. Jean Pierre Peron afirma que algumas fêmeas C57BL / 6 chegaram a ser infectadas nos primeiros dias de gestação, mas nem assim os fetos dessa linhagem sofreram alterações.

Outras conclusões

Os pesquisadores também constataram que o zika vírus é capaz de infectar organoides cerebrais, ou seja, "minicérebros" desenvolvidos em laboratório a partir de células humanas. Nesse modelo, o vírus induziu a morte celular e alterou partes do tecido neural chamadas de camadas corticais.  Por isso, a equipe reforça o coro dos cientistas que defendem o uso do termo "síndrome congênita do vírus zika" e também a tese de que o vírus tem um tropismo, ou seja, uma afinidade pelas células do cérebro.

Além de utilizar a linhagem que circula no Brasil, a equipe também trabalhou com a cepa africana identificada em 1947. A conclusão do grupo é que o vírus atual é bem mais agressivo. "Não podemos dizer que a linhagem africana não cause alterações, mas isso não foi observado no nosso modelo ", diz Alysson Muotri. Ele afirma que o vírus antigo e o que circula hoje no país são 90% idênticos, e que 10% é algo expressivo no universo da genética -- basta lembrar que entre o homem e o macaco a diferença é de pouco mais de 1%. 

Evidências crescentes

Desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou o alerta global sobre o zika, no ano passado, cientistas do mundo inteiro têm trabalhado intensamente para esclarecer se o vírus é mesmo o responsável pelo número alarmante de casos de microcefalia no Brasil e, posteriormente, em outros países, ou se existiriam outros fatores capazes de explicar os danos ao sistema nervoso.

Apesar de o Ministério da Saúde ter logo divulgado que não havia dúvidas sobre a relação entre a doença e as malformações congênitas, a fim de estimular medidas de prevenção, a OMS foi mais cautelosa e só oficializou a associação no último dia 14.

O anúncio foi feito após a publicação de diversos estudos epidemiológicos, que levam em conta o aumento dos casos de zika e de recém-nascidos com microcefalia em diferentes países, e também de evidências biológicas -- provas de que esse vírus é capaz de atravessar a placenta e infectar o líquido amniótico, por exemplo. Ainda assim não era possível determinar que o zika era, sem dúvida, o causador das malformações, apenas que o agente estava lá, "na cena do crime", como mencionaram alguns especialistas.

Um importante avanço foi obtido por um grupo de neurocientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto D`Or de Pesquisa e Ensino, ao comprovar o efeito destruidor do zika vírus em organoides cerebrais. O estudo, publicado na revista Science, também mostrou que o vírus da dengue não é capaz de gerar o mesmo dano.

Na ocasião, a linhagem testada foi a do zika identificado em 1947, na África. Mas a mesma equipe, coordenada por Stevens Rehen e Patrícia Garcez, obteve resultados semelhantes com a linhagem que circula no Brasil. Os dados foram publicados preliminarmente nessa segunda-feira (9), seguindo a recomendação da OMS para que, em casos de alertas globais, como o atual, os cientistas submetam seus achados à comunidade científica antes da publicação, a fim de acelerar novas descobertas.

Além de observar o comportamento do zika brasileiro nas estruturas que reproduzem o cérebro em formação, os pesquisadores também identificaram mais de 500 genes/proteínas alterados pela infecção nas células-tronco neurais humanas, o que pode abrir caminho para medicamentos que ajudem a inibir os danos do vírus ao sistema nervoso. Com o estudo publicado hoje na Nature, os cientistas agora também contam com um modelo animal para ser utilizado em pesquisas futuras com potenciais tratamentos ou vacinas contra o zika.

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