Viver em outro planeta será um passo natural, diz astronauta brasileiro

Bia Souza

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo Pessoal

Se o século 20 foi marcado pela disputa para chegar à Lua, a corrida do início deste século é por planetas habitáveis. Para o astronauta e coronel da reserva Marcos Pontes, único brasileiro que já esteve no espaço, viver em outro planeta pode ser um passo natural do ser humano.

Em 2006, Pontes passou dez dias no Espaço, como especialista em missão, responsável pela manutenção e montagem de sistemas.

Leia os principais trechos da entrevista que Pontes concedeu ao UOL:

UOL - O que você acha do projeto de salvar a vida humana indo para outros planetas?

Marcos Pontes - Um passo natural que será feito com o aumento da nossa capacidade científico-tecnológica.

Você acredita que em quanto tempo poderemos descobrir novos planetas habitáveis?

Acredito que teremos boas indicações e até capacidade de visitá-los via sondas. Contudo, a colonização de um outro planeta habitável ainda não será no nosso tempo de vida. Podemos, sem dúvida, chegar a Marte, mas ele não pode ser considerado "habitável".

Como foi a preparação para se tornar astronauta?

São necessários dois anos de curso na Nasa (Agência Espacial Norte-Americana) para se tornar astronauta profissional. Sou especialista de missão, responsável pela manutenção e montagem de sistemas no espaço. O curso é composto 70% de parte técnica, 15% de preparação emocional, 10% de preparação fisiológica, 5% de preparação física.

Como é a viagem até a Estação Espacial Internacional?

São nove minutos da decolagem até o apogeu da primeira órbita, depois, uma série de manobras (de seis horas a dois dias) para aproximar e conectar com a Estação Espacial (ISS, na sigla em inglês)

Na estação são quantas horas de trabalho por dia? O que você fazia no período de lazer?

Geralmente temos três horas para café, almoço e jantar, 13 a 15 horas de trabalho, seis a oito horas de sono. No lazer (durante o período dedicado ao sono), eu tirava fotos da Terra.

Como se define o que é "dia" ou "noite" no Espaço?

Como o período de órbita é de 90 minutos, passamos cerca de 45 minutos no dia e 45 minutos na noite. Para controlar as atividades diárias, usamos o horário GMT (Horário do Meridiano de Greenwich).

Qual o tempo máximo que um astronauta pode passar no Espaço?

Isso ainda não é estabelecido. O Scott [Kelly] acabou de passar praticamente um ano.

Quais sequelas você tem da viagem?

É comum astronautas terem excesso de radiação, envelhecimento precoce, perda de densidade óssea, perda de tonicidade muscular, alterações cardiovasculares, alterações nos sistemas imunológico e hormonal. Todos sentimos ou temos um tanto dessas sequelas para o resto da vida. Por isso temos acompanhamento médico vitalício.

Como foi voltar? A viagem incomodou? A adaptação levou tempo?

Foi uma mistura de tristeza e alegria. A viagem é perigosa, mas treinamos para isso e encaramos a possibilidade de morte. A adaptação no espaço dura cerca de três dias. No regresso cerca de dez dias.

Você acha que o Brasil precisa investir em um programa espacial? Quais as dificuldades desta área por aqui?

Sem dúvida. Um país como o nosso precisa ter um forte programa espacial para auxiliar o desenvolvimento de tecnologias para agricultura, produção de alimentos, segurança, comunicações etc. Nossa dificuldade é a falta de competência técnica dos nossos representantes eleitos.

O que seria necessário para melhorar as pesquisas?

Colocar requisitos mínimos de formação e experiência profissional para candidatos a cargos políticos, como é exigido para qualquer outro cargo de importância em qualquer instituição.

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