Conheça a trajetória misteriosa do cientista executado pelo Irã

Jean-Philip Struck

  • Raheb Homavandi/ Reuters

Personagem de um intrincado drama internacional de espionagem, Shahram Amiri era acusado de ajudar o governo dos EUA e teria desempenhado papel-chave em expor o funcionamento do programa nuclear iraniano.

"Shahram Amiri tinha acesso a importantes segredos do sistema e entrou em contato com o nosso inimigo número um, o Grande Satã." Foi assim que um porta-voz do Judiciário iraniano anunciou no último domingo (07/08) a execução do cientista nuclear de 38 anos. Preso desde 2010, ele era acusado de espionar para o governo dos EUA. Segundo parentes do cientista, seu corpo foi entregue à família com uma marca de forca no pescoço.

A divulgação da execução voltou a lançar luz sobre a misteriosa trajetória do cientista e o papel que ele teria desempenhado em expor o funcionamento do programa nuclear iraniano.

Pesquisador de isótopos radioativos da universidade de Malek Ashtar, em Teerã, Amiri se tornou publicamente conhecido em 2009, quando o governo iraniano acusou os EUA de sequestrá-lo.

À época, Amiri tinha saído do país para realizar uma peregrinação a Meca, na Arábia Saudita, e desapareceu no meio da viagem. Os EUA negaram qualquer envolvimento, mas parte da imprensa americana afirmou que o desaparecimento fazia parte de uma operação que tinha objetivo de aliciar o cientista e convencê-lo a desertar para os EUA.

À época, as relações entre os dois países permaneciam tensas por causa do programa nuclear iraniano, apesar de algumas iniciativas de aproximação.

Vídeos e versões contraditórias

Para adicionar mais mistério ao caso, no ano seguinte, a imprensa iraniana divulgou um vídeo de baixa resolução em que Amiri aparecia vivo e afirmava ter sido sequestrado pelos americanos. No entanto, horas depois, um novo vídeo apareceu na internet. Neste, Amiri afirmava que permanecia nos EUA por vontade própria e estava feliz.

Segundo a rede ABC News, agentes da CIA (a agência de inteligência dos EUA) afirmaram que os iranianos obrigaram Amiri a gravar a vídeo após ameaçarem sua esposa e filho, que permaneceram no Irã. Já o segundo vídeo havia sido gravado semanas antes, mas ainda não havia sido publicado. Ele só foi ao ar como reação à iniciativa dos iranianos.

Outras versões que creditam fontes na CIA apontam que Amiri era um informante de longa data do governo americano, e que resolveu fugir do Irã por temer pela sua segurança. Ou apontam ainda que ele começou a mudar de ideia sobre ficar nos EUA ao sentir falta da família ou em resposta às ameaças que ela passou a sofrer.

Retorno a Teerã

Vítima de sequestro ou desertor, o fato é que Amiri procurou poucas semanas depois o escritório de interesses iranianos na embaixada do Paquistão em Washington e pediu ajuda para voltar ao seu país de origem. À época, a então secretaria de Estado Hillary Clinton disse que Amiri estava nos EUA por "livre iniciativa" e era livre para ir embora se assim desejasse.

Ao chegar a Teerã em julho de 2010, ele foi recepcionado como um herói por membros do governo e concedeu coletiva de imprensa em que voltou a acusar os americanos de sequestrá-lo.

Ele também afirmou que não revelou nenhum segredo. A propaganda iraniana chegou a divulgar que ele atuou como um "agente duplo" durante sua estada nos EUA, reunindo informações sobre os métodos da CIA.

Prisão e tortura

Poucos dias depois da sua chegada, no entanto, o governo iraniano resolveu prender Amiri. Pouco se sabe sobre esse período. Sites iranianos de oposição divulgaram que ele foi torturado em diversas prisões. Em maio de 2011, ele foi oficialmente acusado de espionagem. Em 2012, alguns veículos de imprensa afirmaram que ele havia sido condenado a dez anos de prisão. No último domingo, o Judiciário iraniano disse que essas versões estavam erradas, e que a pena de morte era de fato a sentença original.

Não está claro quais segredos Amiri revelou. Segundos agentes da CIA citados pela imprensa americana, ele teria ajudado a confirmar a existência de uma instalação secreta na região de Qom e informações sobre o processo iraniano de enriquecimento de urânio.

No ano passado, o papel de Amiri como desertor ficou mais claro graças à divulgação de emails de Hillary Clinton. Em algumas mensagens, membros do Departamento de Estado afirmam que Amiri voltou porque estava com saudades de casa. "Só que ele escolheu um jeito estúpido de fazer e mentindo sobre o que aconteceu", diz um dos emails enviados a Hillary.

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