Você sabe como grilos paqueram? Eles precisam ouvir mesmo som várias vezes

Do UOL, em São Paulo

  • Divulgação

    O grilo Copiphora gorgonensis é nativo da América do Sul

    O grilo Copiphora gorgonensis é nativo da América do Sul

Um jardim sob o silêncio da noite parece ser um lugar ideal para o amor rolar, mas paquerar não é tão fácil quando se é um inseto. Para conseguirem escutar as "cantadas" uns dos outros, grilos ouvem o mesmo som quatro vezes, duas em cada ouvido --que ficam nos joelhos. A repetição ajuda as fêmeas a encontrarem os melhores machos cantores para o acasalamento no escurinho da moita.

A descoberta foi feita por cientistas da Universidade de Lincoln, no Reino Unido. Eles analisaram o sistema de audição da Copiphora gorgonensis, uma espécie de grilo encontrada na Colômbia, e descobriram um mecanismo extremamente avançado, que lembra o de um trompete. O trabalho foi publicado no jornal da "Royal Society".

Diferentemente de humanos ou dos demais animais vertebrados, insetos como os grilos possuem os ouvidos localizados nas patas dianteiras, na altura do joelho. Cada ouvido possui duas membranas que vibram com a passagem dos sons, como o nosso tímpano. Elas estão ligadas a um tubo cilíndrico, chamado de traqueia acústica, que fica acoplado à perna e aberto para o exterior.

Na recente descoberta, os pesquisadores observaram que um único som, ao chegar aos ouvidos do grilo, é percebido duas vezes, em diferentes momentos e com amplitudes distintas. Isso porque ele é primeiro percebido externamente, no momento em que chega ao ouvido do inseto. Logo após, é ouvido internamente, depois de reverberar dentro da traqueia acústica.

"Curiosamente, a propagação do som no interior dos tubos traqueais é amplificada, pois o tubo tem o efeito de uma corneta acústica, como um trompete", diz Fernando Montealegre, um dos autores do estudo. "A membrana timpânica recebe o sinal duas vezes. A primeira vez, na velocidade normal do som. E a segunda, com o som mais lento [com maior amplitude] e mais alto", completa.

Como grilos são pequenos demais para terem ouvidos na cabeça, a existência dos tubos auditivos e dos ouvidos nas pernas foi a forma que a natureza encontrou para potencializar os sons e ajudar a vida desses bichinhos. "As fêmeas são boas em encontrar os machos cantando no escuro", diz Montealegre.

Até então, a traqueia acústica de insetos fora pouco estudada. A descrição do mecanismo sensível e delicado da audição dos grilos fornece explicações sobre como os insetos usam seus ouvidos para localizar parceiros em potencial e pode inspirar pesquisas em outras áreas, como a engenharia ou a microrobótica".

O amor está no ar

Um outro estudo, publicado em setembro na revista Science, traz mais uma curiosidade surpreendente sobre o universo dos insetos. Biólogos da Universidade de Londres mostraram que abelhas possuem as estruturas cognitivas e comportamentais suficientes para fazerem brotar fenômenos como emoções.

Em um experimento, foi oferecido a grupos de abelhas quantidades distintas de soluções de açúcar em flores de cores diferentes. Num segundo momento, as flores e as soluções foram misturadas. Ao fim, verificou-se que a expectativa de encontrar um pouco mais de açúcar levava as abelhas a um estado emocional positivo, tornando-os mais otimistas de que a flor conteria uma maior recompensa.

Ainda não é possível dizer que elas sentiram emoção. Mas com grilos que ouvem tão bem seus pretendentes e abelhas que se animam, podemos pensar que os ruídos ouvidos quando estamos perto de um jardim são muito mais do que monótonos insetos. 

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