Capes segura desde junho divulgação de pesquisas ganhadoras de prêmio

Maurício Tuffani

Colaboração para o UOL, de São Paulo

  • Reprodução/Facebook

Escolhidos em maio pela comissão julgadora, os dois estudos ganhadores do Prêmio Capes-Natura Campus de Excelência na Pesquisa, que deveriam ter sido anunciados em junho, só serão divulgados em novembro, afirmou a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do Ministério da Educação e parceiro da indústria de cosméticos Natura na iniciativa.

A agência federal afirmou que a cerimônia de premiação foi adiada em função da transição de sua gestão e que a nova diretoria, ao assumir em junho, "analisou as ações previstas e orçamento disponível para executá-las". Apesar de o órgão apontar razões financeiras para o atraso, o valor de R$ 50 mil para os dois prêmios é custeado pela Natura.

O atraso foi considerado prejudicial para a finalidade de estímulo à pesquisa por todos os oito cientistas ouvidos pela reportagem. O objetivo definido no edital do prêmio, publicado em novembro do ano passado, é "estimular a produção de artigos de alto impacto acadêmico ou científico voltados para a sustentabilidade e a diversidade".

Tempo perdido

"Serão cinco meses perdidos, sem repercussão de uma ação relevante para o estímulo à pesquisa", disse um dos pesquisadores ouvidos pela reportagem. Assim como quase todos os demais, ele pediu para não ser identificado, alegando não querer se indispor com a Capes. O órgão avalia a pós-graduação brasileira e concede bolsas de mestrado, doutorado e de outras modalidades.

Exceção a esse anonimato foi Newton Carneiro Affonso da Costa, professor aposentado da USP e um dos nomes mais expressivos da lógica matemática internacional desde os anos 1960. "Isso é péssimo", afirmou ele referindo-se ao atraso na premiação. "Além de dar a impressão de que uma ótima iniciativa não é coisa séria, essa demora por si só prejudica o objetivo de estimular a pesquisa".

Em nota, a Capes afirmou que o adiamento da premiação não prejudica o cumprimento do objetivo de estímulo indicado no edital, "pois os artigos que concorrem ao prêmio são artigos já publicados e não artigos a serem submetidos para publicação". A agência acrescentou que o adiamento foi decidido em acordo com a Natura.

A reportagem enviou questionamento ao vice-presidente de Inovação da Natura, Gerson Valença Pinto. Em resposta, recebeu o posicionamento em nota por meio da assessoria de comunicação da empresa, que mantém o programa de pesquisas Natura Campus, que faz parte do nome do prêmio instituído em parceria com a Capes.

Na nota, a empresa afirmou que o adiamento não prejudica o objetivo do prêmio. E acrescentou: "A Natura se mantém comprometida com o prêmio e é responsável pela verba total do reconhecimento (R$ 50 mil mais impostos e taxas), além de apoio à realização do evento de premiação, que é organizado e promovido pela Capes".

Em contato por telefone posterior ao envio da nota, a assessoria da Natura destacou que um dos objetivos da parceria com a Capes ao apoiar o prêmio foi incentivar outras empresas a participarem de iniciativas semelhantes de estímulo à pesquisa.

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Mudança de gestão

A agência do MEC afirmou ainda que "o adiamento da solenidade fez-se necessário pela atual gestão, pois, na data em que estava prevista inicialmente, 5 de junho, a Capes ainda estava sob a direção antiga e a atual diretoria não responde pelos atos da gestão passada. A atual diretoria da Capes garante, apenas, que a premiação ocorrerá em novembro deste ano".

Cerca de 300 estudos foram inscritos para o prêmio. Em maio foi divulgada a relação dos três trabalhos finalistas do prêmio nas duas modalidades, a de "Sustentabilidade: Novos Materiais e Tecnologias" e a de "Sociobiodiversidade e Conservação Biológica". O edital do prêmio estabeleceu a data da premiação para 5 de junho.

A reportagem apurou que o presidente anterior da Capes, o climatologista Carlos Nobre, que estava prestes a pedir sua exoneração para o MEC, optou por deixar a escolha da data da premiação para seu sucessor, que ainda não havia sido escolhido. Ele foi exonerado no dia 6 retroativamente ao dia 3.

O sucessor de Nobre, o sociólogo Abílio Baeta Neves, foi nomeado em 10 de junho por Michel Temer (PMDB). Ele já havia dirigido a agência de 1995 a 2002, no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

No mesmo mês em que assumiu o cargo, Baeta Neves anulou uma alteração de seu antecessor em outra distinção da agência. Nobre havia alterado as normas do Prêmio Capes de Tese, introduzindo para os trabalhos inscritos a exigência de eles terem resultado em publicação de artigo em periódicos científicos.

Procurado pela reportagem por e-mail, Nobre, que está em viagem fora do Brasil, disse preferir não comentar o atraso no Prêmio Capes-Natura Campus alegando ainda estar "sob quarentena" de seu exercício na presidência da Capes.

* Maurício Tuffani é editor do blog Direto da Ciência.

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