De nanotecnologia a clima: 5 cientistas nacionais que você deveria conhecer

Gabriel Francisco Ribeiro

Do UOL, em São Paulo

  • Arte/UOL

    Você deveria conhecer estes cinco cientistas brasileiros

    Você deveria conhecer estes cinco cientistas brasileiros

É normal que as pessoas louvem celebridades nacionais do esporte e do cinema que se destacam mundialmente – isto, claro, ocorre em todos os lugares do mundo. Mas você sabia que há também cientistas brasileiros que têm fama internacional? Se não, talvez seja hora de dar atenção a alguns dos principais cérebros nacionais.

O UOL foi atrás de cinco pesquisadores brasileiros que foram tão citados mundialmente por seus trabalhos que entraram em recentes listas das mentes mais influentes do mundo – quatro deles estão no ranking de 2015 e um é uma novidade na pré-lista para o próximo ano. Vale notar que o ranking foca na quantidade de citações, não na qualidade dos trabalhos.

E qual a dica destes profissionais para figurarem nesta lista? O segredo pode estar em fazer trabalhos inovadores - muitas vezes inéditos - e relevantes em suas áreas. Um fator que parece ligar todos os cientistas também é a colaboração internacional. A parceria e ajuda de pesquisadores estrangeiros mostram-se fundamentais em muitos estudos.

Primeira coisa é trabalhar em rede. A segunda coisa é trabalhar em questões relevantes. Quando junta as duas coisas, você participa de projetos que podem ser publicados em revista de alto impacto" Pesquisador e cardiologista Álvaro Avezum

De fato, a relação dos principais cientistas brasileiros com os pesquisadores internacionais é intensa. Ao tentar conversar com os especialistas, a reportagem notou uma coincidência que ao fim virou tendência: dos cinco entrevistados, dois estavam trabalhando fora do Brasil, um estava em viagem a convite de um congresso internacional e outro iria viajar a trabalho na semana seguinte.

Conheça um pouco mais sobre cinco grandes pesquisadores brasileiros:

Álvaro Avezum - diretor da divisão de pesquisa do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia

Raquel Cunha/Folhapress
Álvaro Avezum participou de rede mundial que fez descobertas relacionadas ao infarto

Por que você deveria conhecê-lo?

As pesquisas dele envolvem doenças cardiovasculares, que são a principal causa de mortes no mundo. Os estudos produzidos pelo pesquisador influenciam diretamente o tratamento para a doença e podem salvar sua vida no futuro.

O que fez?

Um dos principais estudos de Avezum envolveu uma pesquisa mundial sobre doenças cardiovasculares. No Brasil, ele foi o coordenador da pesquisa. 

"Um grupo de pesquisadores, do qual participo, fez um estudo para entender os fatores que influenciam o infarto do miocárdio. A pesquisa identificou nove fatores de risco simples de identificação e passiveis de modificação que se responsabilizam por 90% dos casos no mundo, incluindo o Brasil. Este estudo mostra inclusive no Brasil que estes fatores previnem 90% dos casos de infarto", afirma o pesquisador.

No que trabalha agora?

Avezum continua envolvido em projetos mundiais com rede de colaboradores. O cientista cita que em julho foi publicado no periódico Lancet um estudo semelhante ao de doenças cardiovasculares, mas que envolve acidentes vasculares cerebrais. O brasileiro faz parte de uma rede de colaboradores que conta com pessoas de 85 países e está envolvido no estudo PURE, que conta com o monitoramento de 200 mil indivíduos de 20 países para entender mais sobre fatores biológicos e ambientais causadores de adoecimentos.

Paralelo a isso, Avezum participa de um grupo montado na Sociedade Brasileira de Cardiologia que busca perceber como fatores ligados à espiritualidade poderiam explicar adoecimentos.

"Começamos a avaliar o binômio espiritualidade e adoecimento. Queremos aprender se a maneira como o indivíduo enfrenta o cotidiano, os sentimentos que utiliza no dia a dia (perdão, altruísmo, gratidão, otimismo, raiva, mágoa, ressentimento, etc). se associam ao nosso adoecimento. A percepção é que estão associados, mas a ciência precisa de confirmação", conta o brasileiro.

O que acha da ciência brasileira atualmente?

O pesquisador avalia que o Brasil precisa ter uma confluência de saberes e buscar trabalhos colaborativos para ter "projetos mais consistentes, robustos e relevantes". Avezum cita exemplos de que é fundamental ter em pesquisas pessoas da área da filosofia e antropólogos. "Que tal pensarmos em uma plataforma nacional onde questões relevantes no Brasil sejam respondidas neste grupo e daí ir para outros países?", sugere.

Outra coisa citada pelo cientista é trabalhar de forma horizontal com o resto do mundo. "Algumas pessoas vão dizer que o importante é produzir conhecimento 100% nacional. Temos sim é que produzir respostas para nossos problemas, mas também outras questões geográficas. Nosso pensamento tem que ser para a sociedade global", opina.

Ado Jorio - professor do Departamento de Física da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)

Reprodução/Facebook
Ado Jorio fez avanços na nanotecnologia

Por que você deveria conhecê-lo?

A nanotecnologia, que envolve manipulação de matéria em escala atômica e molecular, é considerada já há algum tempo a "ciência do futuro", com implicações em todas as frentes do nosso dia a dia - de tratamento contra o Alzheimer a até mesmo tatuagens. O cientista nacional está envolvido com técnicas que possibilitaram a pesquisadores do mundo inteiro avanços nesta área e também entrou no ramo da biomedicina, em busca de equipamentos que facilitem o diagnósticos de doenças.

O que fez?

Ado Jorio tem publicado mais de 180 artigos e quatro livros, segundo suas próprias contas. O cientista diz que entrou na lista pelo conjunto de artigos. A área em que ganhou destaque mundial é "do desenvolvimento de uma técnica que pode ser usada para testar propriedade de qualidades de nanoestruturas".

"Hoje a nanociência e a nanotecnologia estão em pauta. Para analisar e testar, você precisa de técnicas. Meu trabalho é do desenvolvimento de uma técnica por ótica para esta análise. Este é o trabalho mais conhecido, gerou mais impacto", diz Ado.

No que trabalha agora?

O cientista segue na área, mas agora diz ter ampliado os horizontes. Além de técnicas, agora o brasileiro busca desenvolver equipamentos. Ado conta que trabalha com instrumentação científica para gerar equipamentos ligados à biomedicina, desde caracterização de processos biológicos até a geração de diagnósticos clínicos.

O que acha da ciência brasileira atualmente?

Na opinião de Ado, a ciência nacional tem "evoluído de forma fantástica". O cientista diz que o Brasil passou de uma ciência amadora para de altíssimo nível em um período curto. O físico, contudo, lembra que o país ainda está muito atrás dos países desenvolvidos em termos de pesquisadores por habitantes e cita o que pode ser melhorado.

"Precisa de investimento continuado. Você não faz ciência do dia para a noite, constrói por décadas. Uma deficiência é uma necessidade muito grande de importar equipamentos. Depende de assistência técnica no exterior, está em uma situação competitiva inferior aos outros países. Para o Brasil chegar no nível dos países desenvolvidos, além da questão do número de pesquisadores per capita, tem que ter um parque industrial adequado", opina.

Adriano Nunes Nesi - professor no departamento de biologia vegetal da UFV (Universidade Federal de Viçosa)

Reprodução
Adriano Nunes-Nesi está envolvido na área de agronomia

Por que você deveria conhecê-lo?

Descobertas envolvendo a produtividade de plantas podem transformar a agricultura e a alimentação mundial no futuro. É neste tema que Adriano está envolvido: seu principal projeto propiciou a cientistas entenderem melhor como algumas plantas produzem mais do que outras. Em um mundo com cada vez mais dificuldades de abastecimento, isto é vital.

O que fez?

O principal trabalho do brasileiro saiu em 2005, com sua tese de doutorado feita com ajuda de pesquisa na Alemanha que culminou em uma descoberta. O brasileiro conseguiu identificar uma relação de uma enzima que fazia a planta produzir mais frutos e com mais qualidade, além de ter uma fotossíntese mais eficaz. Esta relação ainda tem a ver com a produção de vitamina C na planta.

"Demonstramos que plantas que produziam mais vitamina C tinham fotossíntese mais elevada. Por isso, produziam mais. Foi bastante interessante, demonstramos a relação da atividade de enzimas na mitocôndria com o cloroplasto, que é onde ocorre a fotossíntese. Foi a primeira vez que alguém notou isso. Interessou vários pesquisadores da área porque até então não se sabia como funcionava", afirma Adriano.

No que trabalha agora?

O pesquisador nacional continua a trabalhar na mesma área que lhe rendeu tantas citações mundo afora. Nunes investiga atualmente a variabilidade natural em fotossíntese, respiração e produção de frutos em tomates e pimentas. Além disso, outra parte de seu trabalho envolve pesquisa na mitocôndria de plantas, parecido com seu estudo mais famoso.

O que acha da ciência brasileira atualmente?

Adriano Nunes é pessimista quanto ao futuro da ciência do Brasil. Com as informações recentes de redução de recursos para pesquisas, o brasileiro teme uma perda de "cérebros" para países do exterior. A tendência para a ciência nos próximos anos não é nada animadora na visão do brasileiro.

"Tenho uma grande preocupação com os cortes que estão ocorrendo. Receio que os recursos para pesquisa sejam reduzidos a um nível que realmente impossibilite a pesquisa científica no país. É preocupante a situação, se os cortes forem maiores do que os já previstos vai ficar muito difícil", conta o pesquisador.

Flávio Kapczinski - professor do departamento de psiquiatria e de medicina forense da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Divulgação
Flávio Kapczinski realizou pesquisas pioneiras sobre doenças mentais

Por que você precisa conhecê-lo?

A doença mental é cada vez mais investigada na modernidade. Em parceria com pesquisadores internacionais, o cientista brasileiro fez descobertas que justificam por que a doença mental pode se tornar crônica e causar danos físicos à saúde. O conceito que criou com colegas é aplicado em várias áreas, como esquizofrenia, uso de drogas e álcool, além de doenças mentais corriqueiras.

O que fez?

Kapczinski diz que tem publicado cerca de 400 artigos envolvendo investigações sobre doenças mentais. Há um ano publicou um livro pela editora da britânica Universidade de Oxford em que resume o que chama como "seu trabalho de vida" – com 53 anos, está nesta área desde os 30. Em suas pesquisas com um colega australiano, ajudou a criar o termo "neuroprogressão", que explica por que pessoas com doenças mentais crônicas vivem até menos que outras.

"O termo descreve as mudanças que ocorrem no cérebro quando se tem uma doença mental crônica. O meu grupo ficou focado nisto e foi um dos estudos pioneiros nesta área. Falamos como uma doença mental se torna crônica e porque se torna uma doença física. Tem várias explicações: entre incidência de inflamação pelo corpo, estresse oxidativo, nível baixo de neurotofinas, que atuam em neurônios. É uma longa elaboração neste sentido", conta.

No que trabalha agora?

Seu foco continua em entender os detalhes da mente humana. No momento, o pesquisador está no Canadá e investiga com um pesquisador canadense se a doença mental crônica pode ocorrer por causa de um problema na mielina no cérebro das pessoas.

O que acha da ciência brasileira atualmente?

O pesquisador nacional diz que a ciência do país deu "um salto enorme" nos últimos 10 anos e cita um período de ouro entre 2010 e 2013, até os recursos passarem a diminuir por causa da crise econômica. A preocupação de Kapczinski é a de tudo ser perdido nos próximos anos.

"Este momento é de uma certa expectativa e um grau de ansiedade no setor para ver se vamos conseguir manter o afluxo de recursos para fazer pesquisa. É uma área vulnerável, quando a gente tem a saúde e a educação básica sofrendo, é difícil imaginar que a ciência não vá sofrer. Entendemos que tem que ter muito cuidado para não matar completamente", afirma.

Paulo Artaxo - professor do departamento de física da USP (Universidade de São Paulo) e membro do painel climático da ONU (Organização das Nações Unidas)

Divulgação/Arquivo Pessoal
Paulo Artaxo é membro do painel climático da ONU

Por que você deveria conhecê-lo?

As mudanças climáticas e o aquecimento global já são uma realidade no mundo. Paulo Artaxo é um dos cientistas mais respeitados da área e tem como trabalho diversos estudos neste ramo.

O que fez?

No tema da mudança climática, Artaxo busca entender os processos climáticos que ocorrem na Amazônia com a ocupação da floresta. Há 25 anos com este foco, o físico cita como um dos expoentes de sua carreira os estudos da Amazônia na década de 90, quando ainda não se conhecia o funcionamento básico do ecossistema, e os ligados ao IPCC, o painel climático da ONU.

No que trabalha agora?

Artaxo segue com a modelagem de dados colhidos na Amazônia. Atualmente, realiza esta análise de dados na Suécia. Recentemente, o brasileiro teve um artigo, em parceria com outros cientistas, publicado na conceituosa revista Nature em que se descobriu porque a região amazônica tem tanta chuva.

"Estamos realizando um grande estudo na Amazônia que se chama Go Amazon. Ele tenta estudar o impacto do processo de urbanização de Manaus na química atmosférica da região central amazônica e entender o impacto da poluição urbana no funcionamento básico do ecossistema. Agora estou trabalhando na modelagem destes dados para entender quais são os processos que controlam o impacto das emissões urbanas no ecossistema", conta Artaxo.

O que acha da ciência brasileira atualmente?

Artaxo aponta que "em muitas áreas o Brasil tem uma posição de liderança no cenário mundial graças aos contínuos investimentos que foram feitos em ciência, tecnologia e nas universidades ao longo dos últimos 15 anos". Contudo, cita uma diminuição de recursos nos últimos três anos e vê como uma calamidade a PEC 241, que limita os gastos públicos em áreas como saúde e educação.

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