Você sabia que brasileiro chefia missão de Marte na Nasa? Confira histórias

Gabriel Francisco Ribeiro

Do UOL, em São Paulo

  • Arte/UOL

Esqueça o imaginário de que o legal da Nasa (Agência Espacial Norte-Americana) é ser um astronautas como o brasileiro Marcos Pontes e outros tantos estrangeiros que já foram ao espaço: a agência é composta por inúmeras pessoas "comuns" -- que na verdade, não tem nada de comuns. O UOL Ciência e Saúde foi atrás de brasileiros que contribuem para a ciência terrestre e espacial - e um deles é chefe em missões relativas a Marte, sabia?

De um dos entrevistados, recebemos uma lista com 17 nomes nacionais que atuam na Nasa, sendo dez homens e sete mulheres em diversas áreas. O número, contudo, pode ser ainda maior pela alta rotatividade de pesquisadores na agência espacial. E não pense que o trabalho por lá é só maravilhas.

"Nosso trabalho é uma vida, mas é uma vida que a gente gosta. Chega no fim e você vê uma contribuição para a humanidade. Tem que ter comprometimento. Tem um impacto na vida pessoal. Conheço muitas famílias que foram afetadas" , diz  Ramon de Paula, que trabalha na sede principal da Nasa.

Confira a história de pesquisadores brasileiros na Nasa:

Ramon Perez de Paula - chefão em missões de Marte

Arquivo Pessoal
Ramon está na Nasa desde a década de 80 e atualmente trabalha no quartel-general da agência

Ramon de Paula, se você nunca tinha ouvido falar nesse nome, guarde-o. Ele é um dos brasileiros que está há mais tempo na Nasa: começou na agência em 1985. Natural de Guaratinguetá (SP), o cientista de 64 anos foi para os Estados Unidos com a família aos 17 anos por causa do pai, que trabalhava na Força Aérea Brasileira e foi deslocado para o território norte-americano. Nos Estados Unidos, terminou o colegial e seguiu no país mesmo após o retorno do pai.

Paula cursou duas faculdades de engenharia (elétrica e nuclear), um doutorado e chegou à Nasa após fazer uma palestra no laboratório JPL (Jet Propulsion Lab) da agência. Anos depois, já estava no quartel-general da empresa. Na Nasa, chefiou missões importantes relativas a Marte como a Mars Reconnaissance Orbiter e a Odyssey. E já está envolvido com projetos futuros como a missão InSight, que vai ser lançada em 2018.

"Agora sou o que chamam de program executive. A gente é responsável pelos projetos, mas os projetos não são feitos aqui no quartel-general. Resolvo problemas, ajudo o projeto em direções técnicas e em aspectos financeiros. Sou responsável tanto por tocar o projeto quanto por passar esta informação do andamento para os diretores da Nasa", explica o brasileiro, em uma mistura do sotaque "caipira" paulista com o inglês.

Paula participou de quase todos os projetos da Nasa que envolvem Marte – até dos robôs Curiosity e Oportunitty. A sua área é fazer o "reconhecimento do planeta", o que é vital para a futura viagem de humanos em solo marciano. Por meio de seu trabalho – e de outros cientistas -, a Nasa entende cada vez mais sobre o nosso vizinho.

Já veterano na agência, Ramon acredita que os brasileiros são respeitados tanto quanto os outros inúmeros cientistas internacionais na Nasa. Mas qual o caminho para um brasileiro que quer trabalhar na Nasa?

"O que eu recomento para o jovem é que estude bastante e tenha bastante perseverança. E se não conseguir aqui ou na Europa, no Brasil tem muitos cientistas trabalhando na área espacial. Pode também trabalhar na Nasa estando fisicamente no Brasil", relata Paula.

Ivan Paulino - mandando micro-organismos para o espaço

Facebook/Reprodução
Ivan Paulino é biólogo e trabalha no centro de pesquisa Ames, da Nasa

O biólogo Ivan Paulino trabalha no centro Ames, dentro da Nasa – mesmo que seja contratado pela USRA (Universities Space Research Association), entidade que tem cooperação com a agência desde 1969. Há cinco anos na Nasa, o brasileiro conseguiu trabalhar na agência após ir fazer o pós-doutorado nos Estados Unidos e ser contratado como cientista visitante pela USRA.

A trajetória de Ivan contou primeiro com uma bolsa da Capes, depois uma bolsa da Nasa de pós-doutorado. Isso tudo depois de se formar em biologia na Universidade Estadual de Londrina, fazer o mestrado na mesma instituição e realizar doutorado na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Sua ida para os Estados Unidos envolve uma ajuda de uma pessoa de dentro da Nasa.

Durante a minha tese de doutorado fiz contato com a minha atual supervisora aqui. Ela esteve no Brasil em 2010 e fiz coincidir com minha tese de doutorado. Ela é uma referência na área de microrganismos que vivem em condições extremas. Entrei em contato e cinco minutos depois ela respondeu aceitando o convite para minha banca" Ivan Paulino

O brasileiro vê como crucial ao pesquisador interessado ter ao menos um contato na Nasa que facilite seu caminho até a agência. Nos Estados Unidos, considera "fantástica" a integração com outros pesquisadores de todo o mundo e o aprendizado que tem na Nasa, como palestras com astronautas. Ele via trabalhar na agência como algo utópico e inimaginável, mas agora se prepara para enviar micro-organismos para o espaço.

"Sou responsável por preparar amostras biológicas de um satélite que vai ser lançado ano que vem e vai ficar em órbita da Terra para testar diferentes níveis de gravidade. Vamos simular a gravidade de Marte, da Lua e a microgravidade do espaço. Queremos saber se diferentes níveis de gravidade influenciam em projetos básicos que a gente usa em laboratório. Estamos finalizando as construções das cápsulas agora. É um projeto da Nasa em parceria com a agência espacial alemã", conta.

Gabriel Militão - a Nasa também tem estagiários brasileiros

Arquivo Pessoal
Estudante da Unicamp, Gabriel Militão conseguiu estágio na Nasa

Não são só cientistas brasileiros já com grande bagagem que pisaram na Nasa: a agência também é local de aprendizado. Que o diga o jovem Gabriel Militão, aluno do instituto de computação da Unicamp (Universidade de Campinas). O jovem estudante conseguiu, enquanto fazia um intercâmbio de um ano em Cornell pelo Ciências Sem Fronteiras, uma vaga em um requisitado estágio na Nasa conseguido pelo governo brasileiro por meio de parceria em 2015.

"Passei 10 semanas no Ames Research Center da Nasa. Morava em dormitório lá dentro. Tive contato com várias pessoas que trabalhavam em projetos muito grandes. Por exemplo, a missão Kepler ficava no meu prédio. A gente teve palestras com eles, churrascos, eles contavam da missão. A gente fazia tour pelo campus, conhecia coisas inovadoras", recorda o estudante.

Na Nasa, o brasileiro participou de um projeto em uma plataforma da agência que é similar ao Google Earth, de simulação de dados em 3D do globo terrestre.

Meu time estava trabalhando em aplicações para esta plataforma. Eu participei de uma relacionada a terremotos. Você consegue ver dados históricos de terremotos, visualizar a correlação entre epicentros deles. Existe uma teoria lá de que você consegue prever terremotos analisando os dados do campo magnético da Terra" Gabriel Militão

O estudante adianta que o projeto que participou na Nasa estava em estágio inicial, mas que a sua equipe notou anomalias com até cinco horas de antecedência a um terremoto. "Imagina avisar a população com esta antecedência? Isso de trabalhar com coisas grande e realmente poder mudar o mundo é muito legal", espanta-se.

Mesmo após o fim do estágio, Militão continuou trabalhando por mais tempo no projeto – os dados eram "open source" para a comunidade mundial. O estudante diz que recebeu um convite extraoficial de seu chefe na Nasa para voltar à agência no próximo ano, mas não sabe a viabilidade em termos burocráticos e legais.

Arlindo da Silva - um meteorologista diferente

Nasa
Arlindo da Silva trabalha no centro Goddard da Nasa

Assim como Ramon de Paula, Arlindo da Silva já está há décadas na Nasa: entrou na agência em 1994. O carioca, que cursou física na PUC-RJ, foi para os Estados Unidos bem antes, em 1982, para fazer doutorado em ciências atmosféricas no renomado MIT (Massachusetts Institute of Technology). Fez ainda um pós-doutorado em Princeton. A intenção era voltar ao Brasil, mas um casamento mudou os planos.

"Minha intenção original era voltar ao Brasil, mas me casei com uma senhora americana e fiquei por aqui, you know", relembra, em uma forte mistura do sotaque carioca com o norte-americano.

A sequência da carreira de Arlindo envolveu a atuação como professor em uma universidade de Wisconsin, local que não tem saudades por causa do frio. Foi então que, em visita à Europa, encontrou um colega holandês que deu a dica sobre vagas na Nasa. Foi aprovado em entrevistas e passou a ser pesquisador da área terrestre do centro de pesquisas Goddard, da agência espacial.

Estou desde essa época associado à parte de ciência atmosférica. Tem várias coisas que a Nasa faz, não é só desenvolver nave para ir à Lua. Uma função muito grande da Nasa e que estou envolvido é desenvolver satélites ambientais. Sou o modelador de dados dessa área. A gente assimila os dados de satélite e modelos climáticos" Arlindo da Silva 

Entre os projetos que participou, Arlindo destaca a investigação do acidente com o ônibus espacial Columbia, que matou sete astronautas em 2003. Agora, é o líder científico de uma missão para construir satélites mais modernos para medir dados atmosféricos e marinhos da Terra. Além de tudo isso, fica a dica: Arlindo costuma levar pesquisadores brasileiros para a agência – apesar de achar que a situação ficou mais difícil para estrangeiros após o 11 de setembro.

"O Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) têm há muito tempo um programa chamado bolsa-sanduíche. Você faz o curso no Brasil, realiza a pesquisa aqui e volta para escrever a tese. Já trouxe vários pesquisadores, tem uma menina do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que está vindo agora. Contratamos agora dois pesquisadores que vieram do Inpe e fizeram doutorado da USP. Conhecia a reputação deles, tinha o contato e acabei recomendando eles", afirma Carlos.

Carlos Roberto de Souza Filho - trabalha com a Nasa, mas daqui do Brasil

Arquivo Pessoal
Professor Carlos Roberto de Souza Filho faz projetos em parceria com a Nasa

Professor da Unicamp no Instituto de Geociências, Carlos Roberto de Souza Filho não trabalha propriamente na Nasa, mas faz projetos em parceria com a agência. Ele é a prova do que Ramon de Paula afirmou: no mundo globalizado atual, cada vez mais cientistas conseguem trabalhar em cooperação com a agência norte-americana a partir de seus países de origem, visto que muitos dos dados são públicos.

A atuação do professor é na área de sensoriamento remoto, no estudo da geologia de Marte e da Terra a partir de dados públicos de satélites em parceria com pesquisadores do laboratório JPL da agência norte-americana. O professor da Unicamp está em uma equipe de seis pessoas financiadas com recursos do CNPQ e da própria Nasa, com intercâmbio entre pesquisadores no Brasil e Estados Unidos.

Tudo começou de colaborações ocasionais e produção de artigos científicos. Na medida em que a relação entre nós e os pesquisadores de lá aumentou, propusemos projetos maiores e foram aprovados." Carlos Roberto de Souza Filho

Ele explica que utilizam diversas imagens produzidas por sensores em órbita de Marte para projetos de planetologia comparada. De acordo com o pesquisador, "todos os dados gerados a partir de sensores em ambos os planetas são praticamente equivalentes". A pesquisa visa utilizar o conhecimento sobre rochas e ambientes na Terra que podem ter existido ou existir em Marte, incluindo aquelas que podem abrigar ou ter abrigado formas de vida. Este ainda é um dos principais alvos da pesquisa em Marte.

O professor afirma que, para ele, o ambiente de trabalho na Nasa é como na Unicamp – mas com mais segurança, claro. "Uma vez que você se torna um pesquisador com maior maturidade internacional, as pessoas e os lugares, incluindo as instalações da Nasa, não são diferentes entre si. Daí a importância de investirmos na internacionalização da pesquisa feita no Brasil, particularmente com os alunos mais jovens", opina.

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