"É questão de tempo até um grande asteroide nos atingir", diz ex-astronauta

Christoph Seidler

  • Nasa

Os países europeus estão decidindo atualmente o futuro de um programa internacional que criará preparativos para a ameaça de um impacto de asteroide. O ex-astronauta Rusty Schweickart*, que participou da missão Apollo, teme que um choque possa eliminar a vida inteligente da Terra.

Spiegel: Senhor Schweickart, a humanidade hoje tem muitos problemas a enfrentar: mudança climática, guerras civis, infecções mortíferas. E o senhor quer salvar a Terra dos asteroides. Não há coisas mais importantes?

Rusty Schweickart: Também me interesso pela mudança climática e outros temas. Mas falar sobre asteroides é importante, no pior dos casos estamos falando do fim de nossa civilização. Em curto prazo, algum vírus mortal pode ser mais importante, mas no longo dificilmente há algo mais importante que os asteroides. Os jornalistas costumam pôr as coisas em cenários ou isso ou aquilo. Mas nós podemos ao mesmo tempo evitar o impacto dos asteroides e tratar da mudança climática. Não é ou/ou.

Spiegel: Pelo menos conhecemos os maiores asteroides em nossa proximidade cósmica, e nenhum deles nos ameaçará em um futuro previsível. Nenhum ser humano jamais foi morto por um asteroide, pelo menos até onde sabemos. Qual é o problema?

Schweickart: Nós não conhecemos os dinossauros pessoalmente, mas sabemos que eles foram eliminados por um impacto de asteroide. Os asteroides já atingiram a Terra milhões de vezes. Podemos vê-los como estrelas cadentes todas as noites. Quando eles são maiores, as coisas ficam complicadas. É só uma questão de tempo até que um grande nos atinja. E já que podemos fazer algo a respeito, deve fazê-lo.

Spiegel: O astrofísico Stephen Hawking acredita que o impacto de um asteroide é o que poderá causar o desaparecimento da vida inteligente no universo. Mas isso não subestima a estupidez da humanidade? O perigo de uma guerra nuclear parece maior...

Schweickart: Não poderíamos nos extinguir com uma guerra nuclear. Não quero parecer otimista demais. Seria uma catástrofe, mas não seria definitiva. Não temos poder suficiente para tanto. Um asteroide poderia ter esse poder. É por isso que precisamos fazer a lição de casa.

Spiegel: Se descobríssemos que um asteroide está em rota de colisão com a Terra, ainda teríamos décadas para nos preparar.

Schweickart: Nosso sistema de advertência precoce deveria nos dar décadas para nos preparar quando descobrirmos um rumando em nossa direção. Especialmente os maiores. Mas não estou tão preocupado com os grandes. A qualquer momento que pudermos salvar vidas ou evitar a destruição de propriedades, devemos fazê-lo. Precisamos de sistemas de alerta antecipado, tecnologias para desviar um asteroide --e precisamos de preparo político também. Deve estar claro quem deve decidir o quê, quem lança os foguetes, quem apresenta a conta a seus cidadãos. Essa é uma decisão planetária. Precisamos fazer isso juntos. Ou não acontecerá.

Spiegel: A Nasa (Agência Espacial Norte-Americana) e a Fema (Agência Federal de Gestão de Emergências dos EUA) acabam de ensaiar procedimentos de evacuação no caso de um impacto de asteroide previsível. Isso não é suficiente para o pior cenário?

Nasa
Schweickart: Esses exercícios de computador são necessários, mas não são suficientes. Precisamos não apenas treinar as pessoas, como também desenvolver técnicas de desvio. Não é suficiente fazer um exercício no computador de uma sinfonia de Beethoven. É preciso ensaiá-la com uma orquestra. Os músicos precisam ler as notas. Ou será um desastre.

Spiegel: Os países membros da Agência Espacial Europeia estão reunidos atualmente em Lucerna para discutir seu orçamento para os próximos anos. A agenda inclui a possibilidade de 250 milhões de euros para a missão Avaliação de Impacto e Desvio de Asteroides (Aida na sigla em inglês), uma iniciativa em colaboração entre europeus e americanos para desenvolver uma maneira de alterar o curso de um pequeno asteroide. O que acontecerá se a verba não for suficiente?

Schweickart: Então perderemos uma excelente oportunidade de testar os conceitos que vimos desenvolvendo nos últimos dez anos. A possibilidade de fazer isso relativamente barato ocorre com muito pouca frequência. Isto tem a ver com a órbita do asteroide em questão. A missão seria barata e haveria muito a aprender.

Spiegel: O senhor recentemente se somou a cem cientistas planetários que assinaram uma carta aberta apoiando esta missão. Se os europeus decidirem não financiar a Aida, os americanos deveriam realizá-la sozinhos?

Schweickart: Não adianta lançar só a parte americana da missão. Se os europeus não forem, os americanos não irão. A parte europeia poderia teoricamente ir por conta própria observar o asteroide de uma órbita. O papel americano é atingi-lo com um projétil. Isso só faz sentido se alguém mais estiver observando como a órbita é alterada. Pela primeira vez na história, temos a oportunidade de mudar o trajeto de um corpo celeste. Vamos perceber do que estamos falando aqui. Estaríamos modificando ligeiramente a mecânica de nosso sistema solar para aumentar nossa chance de sobrevivência. Isso é gigantesco!

Spiegel: Nos filmes, geralmente enviamos alguém como Bruce Willis para salvar a Terra. Faz sentido enviar humanos ao espaço para desviar um asteroide?

Schweickart: Essas missões devem ser teleguiadas. Não precisamos de humanos a bordo. Missões não tripuladas devem ser preparadas com 10 a 15 anos de antecedência. Com humanos a bordo, levaria 25 ou 30 anos. E seria dez vezes mais caro. Ninguém quer ver um Bruce Willis. Precisamos é de um robô para fazer o serviço, mais barato e mais rápido.

*Rusty Schweickart, 81, foi um astronauta nas missões Apollo da Nasa. Ele foi a primeira pessoa a testar o módulo de pouso lunar na atmosfera da Terra para a missão Apollo 9. É um dos fundadores da Associação de Exploradores Espaciais e trabalha há anos na questão de como evitar um impacto de asteroide com a Terra. Entre 2001 e 2011, ele foi o chefe da Fundação B612, um grupo privado que trabalha com esse objetivo.

Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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