Macacos poderiam falar como os humanos. Então, por que não falam?

Do UOL, em São Paulo

Traços do comportamento humano podem ser encontrados de diferentes maneiras no macaco. Ele é capaz, por exemplo, de escolher amizades com base em afinidades, revoltar-se quando é vítima de uma injustiça e até mesmo ter consciência da morte. Mas será que eles poderiam falar? Teoricamente, sim.

Cientistas descobriram que, na verdade, um macaco pode reproduzir a fala humana pois tem trato vocal (espaço compreendido entre as pregas vocais e os lábios, usado para o desenvolvimento da fala) capazes de produzir os mesmos sons que os humanos. A descoberta foi publicada na revista Science Advances.

Mas o que os impossibilita de falar, então? O cérebro e suas restrições neurais. O estudo não só rebate a teoria mais aceita nas últimas décadas, de que era a anatomia do animal o fator determinante para que ele não fale, como volta a colocar a teoria darwiniana --que destaca as restrições neurais dos símios como fator crucial para isso-- em destaque.

Macacos não têm, portanto, o controle neural sobre seus músculos do trato vocal para falar. Caso possuíssem um cérebro capaz disso, seu trato vocal seria capaz de produzir uma fala claramente inteligível.

Ele falou, com ajuda do computador

O ponto alto do estudo foi a simulação da fala de Emiliano, o macaco-de-cauda-longa usado como cobaia na pesquisa. "Você vai se casar comigo?", disse o símio, por meio de um programa de computador que simula a produção de vogais e consoantes a partir de diferentes configurações anatômicas do trato vocal do animal.

A simulação foi feita através do uso de imagens de raio-X do macaco. Ao comer, grunhir, bocejar, fazer vocalizações e emitir barulhos com os lábios, os pesquisadores realizaram imagens que puderam "desenhar", de forma complexa, a anatomia vocal do animal –estudos anteriores utilizavam moldes de gesso em macacos mortos. Com o mapeamento, os limites aos quais o trato sonoro do animal poderiam se estender foi definido.

Os pesquisadores, então, analisando as fotografias, reuniram uma coleção de 99 diferentes possibilidades de expressão vocal do animal, ou seja, sons e frequências que eles seriam, em tese, capazes de fazer --incluindo o emprego das cinco vogais.

Novas pistas para o estudo da evolução da comunicação humana

O estudo, mais que recolocar a tese darwiniana sobre a comunicação dos primatas em voga novamente, serve também para direcionar para uma nova abordagem a questão sobre quando a raça humana desenvolveu a fala.

Isso porque a questão central sobre este tema, de acordo com os autores da pesquisa, não deve ser quando o ser humano passou a ter condições de falar e sim quando ele criou condições neurais para organizar e desenvolver o dom da fala e da linguagem.

O homem, bem como seu primo distante, há muito possui condições de desenvolver a fala. Quando se deram as alterações neurais que o possibilitaram desenvolver a comunicação, este sim é o x da questão.
 

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