Conheça o único animal multicelular que pode sobreviver sem oxigênio

Do UOL, em São Paulo

  • National Museum of Natural History

    30.jan.2017 - Os loricíferos podem viver em ambientes totalmente desprovidos de oxigênio

    30.jan.2017 - Os loricíferos podem viver em ambientes totalmente desprovidos de oxigênio

Bactérias podem viver sem oxigênio, mas e os animais multicelulares? Que tipo de animal seria capaz desta proeza? A resposta para estas perguntas encontra-se a 3.500 metros de profundidade, no mar Mediterrâneo.

São os loricíferos, espécies de invertebrados marinhos de cerca de 1mm que possuem cabeça, boca, sistema digestivo, uma carapaça e, sim, vivem em um ambiente totalmente sem oxigênio.

A descoberta desses pequenos animais se deu em 2010, por pesquisadores da Universidade Politécnica de Marche, da Itália. Liderados por Roberto Danovaro, os cientistas encontraram, a 200 km da costa ocidental da ilha de Creta, na bacia do Atalante, um ambiente com altas concentrações de sal, rica em sulfeto de hidrogênio e absolutamente sem oxigênio.

Como os animais foram descobertos?

Para provar que aqueles pequenos animais que se encontravam ali, em um local tão inóspito, estavam vivos –e não eram apenas sedimentos de animais mortos que "caíam" de partes mais superficiais do oceano--, os pesquisadores depositaram na bacia moléculas fluorescentes que "grudam" apenas em células vivas, além de utilizarem um corante que reage apenas na presença de enzimas ativas.

O resultado foi que o corante e as moléculas reagiram com os loricíferos, mas não com os restos mortos de animais microscópicos da bacia.

Os resultados desta pesquisa, que durou uma década e contou com três expedições às profundezas do Mediterrâneo, foram publicados na revista BMC Biology em 2010. Um ano depois, liderados por Joan Bernhard, pesquisadores do Instituto Oceanográfico de Woods Hole, dos Estados Unidos, no entanto, contestaram o resultado deste primeiro estudo sobre os loricíferos.

Lionel Cironneau/AP
É no Mediterrâneo que vivem os loricíferos
Este estudo, publicado na mesma revista em 2015, mostra que foram encontrados, na mesma bacia de Atalante, loricíferos vivendo em ambiente com níveis normais de oxigênio. Para os pesquisadores, os cadáveres desta espécie de animal poderiam se deslocar para o fundo do mar, onde não há oxigênio, sendo, posteriormente, habitados por bactérias. Estas poderiam ter incorporado os biomarcadores --m moléculas fluorescentes-- nos corpos dos loricíferos, enganando os cientistas italianos e fazendo-os acreditar que eles estavam vivos.

Mas Roberto Danovaro e sua equipe da Universidade Politécnica de Marche não se convencerem desta conclusão dos colegas norte-americanos e, em junho de 2016, resolveram voltar à bacia do Atalante. O argumento dos cientistas italianos era de que a equipe dos EUA não coletou amostras de lama das áreas da bacia que estão permanentemente sem oxigênio e, por isso, não poderiam ter certeza de que os animais não poderiam viver lá.

Animais não têm células para oxigênio

Eles afirmaram também que, se os loricíferos realmente estivessem mortos e habitados por bactérias, isso teria sido óbvio quando foram examinados ao microscópio. Além disso, nenhuma bactéria foi vista vivendo dentro dos animais e o corante usado para manchar o tecido vivo manchou todas as partes dos corpos dos loricíferos, e não apenas as partes onde as bactérias provavelmente colonizariam um animal morto.

Por fim, os italianos ainda provaram que animais estavam presentes em diferentes camadas dentro da lama.

Para viver em um ambiente desprovido de oxigênio, os pesquisadores explicam que aos loricíferos, em sua evolução, até mesmo dispensaram as mitocôndrias, estruturas que ajudam os animais a usar oxigênio na respiração.

Em seu lugar, possuem hidrogenossomas, um componente celular que produz energia a partir de reações enzimáticas, que se desenvolveram em animais que habitavam o planeta antes do oxigênio atmosférico predominar.

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