Clique Ciência: Por que odiamos as fotos em que aparecemos?

Cintia Baio

Colaboração para o UOL

  • Getty Images/iStockphoto

Tente responder rápido: quando foi a última vez que você gostou de sua imagem em uma fotografia no primeiro clique? Não vale achar que o rosto estava muito redondo, ou o nariz grande demais, ou o olho torto. Para a maioria das pessoas, é difícil lembrar --principalmente depois da popularização das câmeras digitais, que permite apagar as fotos que não nos agradam com a mesma rapidez que são tiradas.

Existe algum argumento científico que explique essa reprovação da nossa própria imagem quando aparecemos nas fotos? Por enquanto, as respostas ainda são hipotéticas e construídas a partir de algumas teorias:

O efeito da mera exposição

Em 1968, o psicólogo polonês Robert Zajonc formulou uma teoria chamada de "efeito de mera-exposição", que diz que as pessoas reagem mais favoravelmente a coisas e objetos que elas costumam ver com frequência.

Para chegar a essa conclusão, Zajonc reuniu um grupo de pessoas e mostrou uma sequência de imagens de vários tipos em uma velocidade tão alta que era impossível distinguir cada uma das figuras. Em seguida, mostrou as mesmas imagens, só que dessa vez congeladas, e pediu às pessoas que escolhessem as que acreditavam ser mais atrativas. 

O resultado foi que, invariavelmente, elas escolhiam as que tinham aparecido mais vezes. Diante disso, Zajonc concluiu que a exposição repetida gera familiaridade na mente humana.

E o que isso tem a ver com as fotos? Como vemos nossa imagem com mais frequência em um espelho, essa seria a nossa imagem preferida. E não é fácil reproduzi-la com uma câmera. Primeiro, porque não estamos sempre na mesma posição e ângulo. Depois, a maneira como nossos olhos enxergam é diferente de como a câmera capta a imagem.

Getty Images/iStockphoto

Além disso, nosso rosto é assimétrico, ou seja, um lado não é exatamente igual ao outro. Então, de acordo com o efeito da mera-exposição, quando nossas pequenas assimetrias faciais são colocadas ao contrário pela câmera (porque é assim que ela capta a imagem), vemos uma versão desagradável de nós mesmos, ou seja, que não estamos acostumados. É a famosa imagem "espelhada".

Efeito narciso

Alguns anos depois, em 1977, os psicólogos Theodore H. Mita, Marshall Dermer e Jeffrey Knight utilizaram a teoria do efeito da mera-exposição para mostrar que as pessoas tendem a preferir uma fotografia facial espelhada à foto real. Isso estaria ligado à ideia de que a imagem espelhada é a que mais estamos acostumados a ver.

Agora, pense: deve ser por isso que gostamos tanto de tirar fotos em espelhos e também porque passamos a gostar mais da 12ª, 13ª selfie que tiramos (já que acostumamos com aquela imagem).

Você é menos atraente do que pensa

Em 2008, três pesquisadores norte-americanos —Nicholas Epley, John T. Keller e John E.Jeuck— fizeram um experimento onde alteraram as fotos dos participantes para torná-los mais atraentes, combinando-os com uma foto de uma pessoa atraente, ou pouco atraente (combinando com outras menos atraentes)

Em seguida, eles misturaram essas versões de cada pessoa com fotos de estranhos e pediram para que os sujeitos escolhessem suas próprias fotografias. Os participantes escolheram mais rapidamente as fotos de si mesmos misturadas às imagens de pessoas mais atraentes. O detalhe é que eles não sabiam da edição.

"Nossos cérebros são propensos a um excesso de confiança, levando-nos a pensar que sabemos muito mais sobre nós mesmo do que realmente sabemos", disse o pesquisador Nicholas Epley, em uma entrevista para a revista da Universidade de Chicago.

Reprodução /Instagram /ricky_martin
O cantor Ricky Martin em típica selfie no espelho

Vale da Estranheza?

Em uma palestra no Ted —conferência que busca discutir ideias inovadoras—, o engenheiro da Microsoft e fotógrafo norte-americano Davidson Duncan relacionou nossa aversão às fotos a uma outra teoria chamada de "uncanny valley" ou "vale da estranheza", em português.

De uma maneira bem simples, trata-se de uma hipótese trabalhada principalmente no campo da robótica e das animações que diz que quando réplicas humanas, como em desenhos animados em 3D ou robôs, são muito parecidas com humanos reais mas não são idênticos, eles provocam repulsa e estranhamento entre os observadores reais, no caso, nós.

"A minha teoria é a de que, quando vemos fotos em que aparecemos, elas parecem quase certas, mas não exatas, e por isso temos um grande senso de rejeição", diz o fotográfo.

Mas a verdade é que nem ele tem certeza. "Se isso é verdade ou não, nós veremos. Sou apenas um fotógrafo, espero que alguém um dia teste a teoria".

Especialista consultada: Tássia Zanine, professora de fotografia da Faculdade Belas Artes, em São Paulo.
 

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