O brasileiro que disse não a um emprego na Nasa, e não se arrepende

Paula Moura

Do UOL, em São Paulo

  • Arquivo Pessoal

    Lucas em visita à Nasa aos10 anos no Space Kennedy Center

    Lucas em visita à Nasa aos10 anos no Space Kennedy Center

Lucas Fonseca, 33, é o único brasileiro a ter no seu currículo de engenheiro espacial a participação em uma das missões mais importantes dos últimos anos: a Rosetta, da agência espacial europeia, que pela primeira vez fez uma sonda pousar em um cometa.

Mas a caminhada à sua conquista envolveu uma decisão radical e dizer não ao sonho de trabalhar na Nasa, agência espacial norte-americana, que tinha desde sua infância passada em Santos (SP). Chegou até a visitar a Nasa duas vezes com 10 e com 14 anos. "Fiquei alucinado e queria trabalhar com aquilo a vida inteira".

Como não havia o curso de engenharia espacial no Brasil, fez engenharia mecatrônica no Brasil na USP (Universidade de São Paulo) em São Carlos (SP) e começou a trabalhar na indústria farmacêutica.

Com três anos de mercado, percebeu que seu sonho nunca iria se realizar se não tentasse algo novo. Tentou vagas na Nasa, mas sem sucesso, e estudar nos Estados Unidos estava fora de cogitação por causa do preço. Então conseguiu fazer mestrado no Instituto Superior de Aeronáutica e Espaço de Toulouse, na França.

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Durante mestrado em Toulouse, na França

Após 8 meses, escreveu sua dissertação na missão Rosetta, na Alemanha, e um professor sugeriu que concorresse a uma vaga na ESA, a agência espacial europeia. Continuou tentando a Nasa até que o convite para trabalhar nas duas agências vieram juntos.

A oportunidade de trabalhar na Rosetta era uma coisa tão grandiosa que nem cogitei em ir para a Nasa." 

Assim, trabalhou 2 anos e 8 meses na missão na Alemanha na parte responsável por cuidar do pouso da sonda no cometa.

Ele conta que cerca de 20 engenheiros e cientistas que haviam começado o projeto e já estavam na hora de aposentar alugaram um escritório com seus próprios salários e trabalharam voluntariamente na expedição tamanha a paixão pelo tema.

"Como os cometas colidem e aí vêm para próximo do Sol, atingindo uma velocidade muito alta, o grande desafio é equiparar a velocidade à do cometa. Levou dez anos para a Rosetta conseguir isso", diz.

Os cometas são importantes porque estão mais distantes do Sol e isso faz com que eles preservem características mais próximas da época da criação do Universo.  A Rosetta descobriu que havia aminoácidos complexos no cometa P67, o que dá pistas sobre a sopa primordial da vida há 4,6 milhões de anos.

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Sonda estratosférica Garatéa - I, lançada na estratosfera em 2016

Missão do Brasil na Lua

Ao voltar em 2014, Lucas percebeu que sua formação não tinha aplicação prática no Brasil. Começou a buscar parceiros para realizar uma missão de baixo custo e uniu esforços com pesquisadores de astrobiologia (vida fora da Terra) e propôs uma missão a um grupo de instituições, que incluem USP, Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), ITA (Instituto de Aeronáutica), do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), do Instituto Mauá de Tecnologia e da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

Nasceu então a Missão Garatéa-L (que em tupi significa busca-vidas) com o objetivo de investigar a origem da vida na Terra e saber se ela pode existir em outras partes do espaço.

O plano é levar uma colônia de bactérias à órbita lunar em 2021 e fazer testes para descobrir o que aconteceria com o DNA de bactérias no ambiente sem proteção atmosférica.

O diferencial é que a proposta é fazer isso com um custo considerado extremamente baixo: 10 milhões de dólares para a viagem e construção da sonda. A ida mais barata à Lua até agora foi realizada pela Índia por 70 milhões de dólares.

"Ano passado foi o divisor de águas porque apareceu uma colaboração europeia na tentativa de colocar algumas missões de diversas entidades distintas ao mesmo tempo na Lua", conta. "Foram selecionadas cinco equipes para compartilhar uma ida até a Lua e nós tivemos nossa proposição aprovada por eles."

Dilvulgação
Concepção artística da Sonda Garatéa-L

O lançamento do Brasil complementaria um experimento de astrobiologia da Nasa em direção ao Sol. Um dos pesquisadores da missão brasileira inclusive participa da missão americana.

"Se o ser humano vai até Marte, você precisa saber o que aconteceria com ele nessa viagem de quatro, cinco meses até lá, sem a proteção do campo magnético", explica Fonseca.

O experimento, segundo ele, poderia trazer respostas tanto para crescimento de vida em ambientes inóspitos da terra, como agricultura no deserto, quanto conseguir perpetuar nossa espécie em outros locais do universo.

Preparando a fuga dos humanos para o espaço

Professor em São Carlos e diretor da empresa Garatéa, o engenheiro acredita que a viagem do ser humano pelo espaço é uma questão de sobrevivência, perpetuação da espécie que a humanidade busca desde os primórdios da existência.

"O mundo pode acabar em mil anos ou pode acabar em um milhão de anos. Deixar para descobrir o caminho das pedras uma semana antes de o mundo acabar não dá."

Ele vai falar aprofundar o tema em palestra no Pint of Science, em 17 de maio, em Campinas. Sobre a Garatéa ele fala no dia 15 de maio em São Carlos.

Inspiração educacional

Além das atividades empresariais, a Garatéa realiza atividades educacionais com alunos de 30 escolas particulares e públicas. "Já lançamos alguns balões e os estudantes estão vendo o que acontece com sementes de tomates que chegam a 30 km de altura."

"Recebi muitos e-mails de pais perguntando 'qual foi sua trajetória, gostaria que meu filho tivesse algo parecido'. Aquilo me tocou muito. Acho que poderia de certa forma influenciar outras pessoas de maneira positiva".

Ele conta que em algum momento sentiu que o sonho de criança já tinha sido realizado e percebeu que o Brasil tinha uma necessidade muito grande nessa área.

"Garatéa também é um anzol. A ideia é trazer a vida para próximo, funciona bem para a ideia da bactéria e ao mesmo tempo funciona para trazer as pessoas para perto da ciência, vamos buscar vida nas pessoas para fazer ciência no Brasil".

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