Alimentação

Carne de laboratório feita sem animais já existe, mas é boa?

Lucas Gabriel Marins

Colaboração para UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Instagram

    Hambúrguer de carne de laboratório no restaurante Cockscombsf, em São Francisco

    Hambúrguer de carne de laboratório no restaurante Cockscombsf, em São Francisco

Startups correm para desenvolver produtos que possam substituir a carne tradicional tanto para abocanhar o bilionário mercado de proteína animal, quanto para reduzir o sofrimento dos animais e até o impacto da pecuário no meio ambiente. Mas elas têm futuro? As carnes que já existem hoje têm gosto de carne?

Quem já provou, nos EUA, diz que sim. O desenvolvedor de negócios Joe Paluska, 47, experimentou um hambúrguer feito 100% de plantas no começo deste ano no restaurante Cockscomb, localizado em São Francisco, na Califórnia.

"Parece carne, não um hambúrguer vegetariano. Eu e minha mulher, que é vegetariana, experimentamos. É difícil descrever por meio de mensagem, mas o produto tem cheiro e textura de carne. Você inclusive precisa de um guardanapo para comer porque é bem suculento", comenta.

A Cockscomb não é a única, a Memphis Meats, também localizada em São Francisco, é uma de suas concorrentes. No começo do ano, a empresa anunciou ter criado as primeiras tiras de frango e pato de laboratório. Em 2016, a startup também já havia feito bolas de carne sem qualquer tipo de animal.

Ainda no mercado, conhecido clean meat (carne limpa, em alusão à energia limpa), estão empresas como Beyound Meat, Clara Foods e SuperMeat  – todas nos Estados Unidos – e a Mosa Meat, localizada em Amsterdã, na Holanda. Nestas empresas, a carne é feita a partir de uma célula-tronco retirada de algum animal por meio de um processo semelhante à doação de medula óssea. O bicho não precisa sofrer.

"Com uma célula é possível produzir carne para o resto da vida", diz Homero Dewes, PhD em análise de proteínas pelo Instituto Max-Planck de Bioquímica de Mastinsried-Munique, na Alemanha. Depois de retirada, a célula passa por um processo de suplementação em que são colocados diversos nutrientes.

Não é bem vista por vegetarianos e defensores dos animais

Mas é exatamente por ainda precisar do animal que a carne não é bem vista tanto por vegetariano e veganos, quanto por protetores dos animais -- apesar de algumas empresas usarem esse discurso.

As células, chamadas de Fetal Bovine Serum (Soro Fetal Bovino), são retiradas do feto das vacas prenhas. "Esse fluído é uma fonte riquíssima de nutrientes e estímulos necessários para o crescimento da célula in vitro (processo biológico feito fora de sistemas vivos). Ele substitui uma mistura cara e imensa de ingredientes, como hormônios, sinalizadores celulares, fatores de crescimento e outros", diz Dewes.

A Memphis Meats, diz o cofundador e executivo-chefe, Uma Valeti, não utiliza o líquido do bezerro em seus procedimentos, mas não deu detalhes sobre como o procedimento funciona, alegando que isso é uma questão comercial. Não há uma fiscalização da carne para que seja comprovado como ela é feita.

Esta é outra questão que as empresas terão que lidar -- a regulação de seus produtos. Nos Estados Unidos, é o United States Departament of Agriculture (USDA, sigla em inglês) que regula a comercialização de frango, carne e ovos, e o Food and Drug Administration (FDA, em inglês) que lida com produtos biológicos, a exemplo de tecidos humanos, células e terapia genética. A carne feita em laboratório, no entanto, é um produto "hibrido".

100% planta

Já a Impossible Foods, que fornece hambúrguer para o restaurante do começo da matéria, tem uma proposta diferente das outras empresas -- eles querem chegar o mais próximo possível do sabor da carne tradicional utilizando apenas plantas. "Nós não fazemos carne de laboratório. Nossos cientistas fazem pesquisa avançada para desenvolver hambúrgueres feitos 100% de vegetais, mas com o mesmo gosto da carne", diz a chefe de comunicação da companhia, Rachel Konrad.

O grupo divulgou na semana passada o aumento da produção de seu Impossible Burguer, que custa, em média, US$ 17 (R$52). A meta é fazer 435 mil quilos dele por mês e aumentar para 1 mil o número de pontos de venda nos EUA até o final deste ano – atualmente existem apenas oito.

Desde 2011, a Impossible Foods recebeu mais de US$ 180 milhões (cerca de R$ 563 milhões) de investimentos do filantropo Bill Gates e da Google Ventures – braço financeiro do Google para investir em startups –, de acordo com o CrunchBase, banco de dados que mostra os históricos de investimentos em startups.

"Você pode pensar nisso como o nascimento de uma nova indústria que vai transformar o sistema de comida de hoje em dia", disse o fundador Patrick Brown, que é ex-professor da Universidade Stanford, durante uma coletiva de imprensa realizada em 2011 em sua fábrica, em Oakland, Califórnia.

O mercado de proteína animal movimenta só nos EUA US$ 200 bilhões (cerca de R$ 626 bilhões) por ano. Além disso, a pecuária é responsável por 14,5% da emissão de gases do efeito estufa, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Preço ainda é alto

Para fazer clean meat, por exemplo, a Memphis Meats gastou US$ 9 mil (cerca de R$ 28 mil). A mesma quantidade de frango, para efeito de comparação, custa apenas US$3,22 (cerca de R$10) nos EUA.

E o preço, apesar de parecer caro, já é um avanço. Isso porque o primeiro hambúrguer artificial, feito em 2003 pelo pesquisador Mark Post, da Universidade de Maastricht, em Amsterdã, na Holanda, custou US$ 300 mil (cerca de R$ 939 mil).

"Entretanto, espalhando os custos em bilhões de hambúrgueres, bem com incorporando técnicas de produção em massa, é possível reduzir o custo", explica Shaked Regev, fundador e diretor executivo da The Modern Agriculture Foundation – organização sem fins lucrativos que faz estudos sobre alternativas para a indústria global de comida.

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