Edição genética em DNA de ratos indica caminho para cura do HIV

André Carvalho

Do UOL, em São Paulo

  • NIAID/Reuters

    Edição de DNAs infectados pelo vírus pode ser um caminho importante na busca pela cura da Aids

    Edição de DNAs infectados pelo vírus pode ser um caminho importante na busca pela cura da Aids

Um estudo conduzido por cientistas da Universidade Temple, da Filadélfia, e da Universidade de Pittsburgh, ambas nos Estados Unidos, dá passos em direção a uma possível cura permanente para a infecção causada pelo vírus HIV. Publicada no jornal Molecular Therapy na segunda-feira (1º), a pesquisa mostrou ser possível a remoção de parte do genoma do HIV de células de ratos vivos, eliminando a reprodução de células.

De acordo com o estudo, a replicação do HIV-1 (retrovírus humano tipo 1) pode ser desligada por meio de uma tecnologia de edição genética chamada de CRISPR/Cas9.

A pesquisa aponta uma "cura funcional" da doença em camundongos, ou seja, o fim da reprodução do vírus dentro do corpo dos animais, segundo Ricardo Diaz, consultor do Comitê de HIV/Aids da Sociedade Brasileira de Infectologia.

iStock

Experimento com ratos

O estudo foi feito com três diferentes modelos de animais, incluindo um modelo em que células imunitárias humanas foram transplantadas em ratos, sendo posteriormente infectadas com o vírus.

Em um estudo anterior, os cientistas haviam utilizado ratos com DNA de HIV-1 incorporados no genoma de todos os tecidos do corpo do animal. O experimento mostrou que eles poderiam apagar alguns fragmentos do HIV-1 na maioria dos tecidos dos animais cobaias.

Agora, a equipe conseguiu inativar geneticamente o HIV-1 em camundongos, reduzindo a expressão de RNAs com genes virais em até 95%. O sistema também foi testado em ratos infectados com EcoHIV, o equivalente do HIV-1 humano em ratos --com o Crispr tiveram 96% de eficiência para bloquear a replicação viral e potencialmente prevenir a infecção sistêmica.

"Cura funcional"

Para Diaz, é possível no futuro que com a técnica de edição genética "seja retirado o vírus inteiro do DNA". Ele afirma que neste estudo específico, isso não ocorreu, mas foi possível extrair até 95% do vírus em alguns casos.

"Quando isso ocorre, quando ele fica 'aleijado', ele não pode se reproduzir. É alcançada, então, a chamada 'cura funcional'".

Para Diaz, o fato de o experimento possibilitar que seja feita apenas uma "intervenção" e acabe com a reprodução das células infectadas é algo significativo, já que o tratamento com os coquetéis anti-retrovirais traz, muitas vezes, efeitos colaterais e deve ser feito regularmente.

Quão longe estamos da cura?

O próximo passo será repetir o estudo em primatas, "um modelo mais adequado, onde a infecção pelo HIV induz a doença", disse Kamel Khalili, da Universidade Temple. Só depois de sucesso nesta fase, é que a técnica poderá ser testada em humanos. 

"É um artigo com uma ideia muito interessante, no entanto, pelo menos por esta técnica, e baseado neste artigo, estamos muito longe de estar falando da cura da Aids", considera Alexander Birbrair, pesquisador da UFMG. 

O uso da técnica de edição de genes é uma das apostas para o futuro do tratamento do vírus. Nos últimos três anos, dezenas de estudos têm explorado essa possibilidade. Contudo, um artigo publicado na revista Cell Reports em abril indica que o HIV seria capaz de se readaptar após o uso do Crispr e voltar a se reproduzir. 

O vírus HIV é conhecido por ser capaz de resistir a diferentes formas de tratamentos com drogas antivirais.

O especialista em sexualidade Jairo Bouer frisa que "uma coisa é os estudos laboratoriais, outra é a viabilidade clínica, de fato". Para ele, ainda há muito caminho a percorrer na almejada cura da Aids.

Para Bouer, caso se mostre possível que a técnica seja replicada em humanos, objetivo final do estudo, será mais uma medida "complementar" às tentativas de busca pela cura da doença. 

 

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