Durante crise, pessoas preferem líder autoritário "que resolve", diz estudo

Do UOL, em São Paulo

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    Marine Le Pen (esq.), candidata da extrema-direita que chegou ao segundo turno das eleições presidenciais da Franca; Donald Trump (centro), presidente dos EUA; e Recep Erdogan (dir.), presidente da Turquia associada à escalada autoritária no país

    Marine Le Pen (esq.), candidata da extrema-direita que chegou ao segundo turno das eleições presidenciais da Franca; Donald Trump (centro), presidente dos EUA; e Recep Erdogan (dir.), presidente da Turquia associada à escalada autoritária no país

Eleição de Donald Trump nos EUA, saída do Reino Unido da União Europeia, ascensão de políticos populistas na Turquia, Holanda e França... O que explica o apoio de parte da população dos países a políticos e a ações protecionistas e autoritárias?

Uma pesquisa publicada na revista Pnas dessa segunda-feira (12) sugere que em tempos de crise, quando as pessoas se sentem ameaçadas, há uma preferência por líderes dominantes e assertivos, apesar do comportamento agressivo e do caráter questionável que possam ter.

Estamos vivendo uma época de crise, na visão dos pesquisadores da London Business School. E os elementos que amedrontam as pessoas são o desemprego, a dificuldade para acesso à moradia, o risco da pobreza. Exemplo disso seria o contexto de crise econômica que países europeus e de outros continentes vivenciam, somado às ondas de imigração e ao desenvolvimento tecnológico que traz a ameaça de substituição de trabalhadores humanos por robôs em diversas funções.

Tais mudanças provocariam uma sensação de perda de controle sobre o bem-estar pessoal.

Quando confrontados com um meio de incerteza e com a falta de controle psicológico resultante, os indivíduos tendem a apoiar líderes dominantes, que acreditam ter a capacidade para enfrentar os ventos desfavoráveis e aumentar as chances de sucesso no futuro."

Hemant Kakkara e Niro Sivanathana, pesquisadores da área de comportamento organizacional

Segundo eles, em contextos de crise, as pessoas passam a preferir governantes assertivos em vez de políticos caracterizados por outros valores, como prestígio, habilidades políticas reconhecidas e conhecimento. 

A conclusão tem como base uma compilação de dados de diferentes estudos feitos com um total de mais de 140 mil participantes, de 69 países, nas últimas duas décadas. Em um dos estudos, eleitores norte-americanos avaliaram os atributos dos candidatos Donald Trump e Hillary Clinton antes das eleições que deram a vitória ao republicano.

"Esta pesquisa oferece importantes explicações teóricas para o porquê, ao redor do globo, das eleições dos Estados Unidos ao Brexit, os eleitores têm escolhido líderes autoritários em vez de outros líderes mais admirados e respeitados". Outros exemplos do que os autores consideram um avanço de líderes conservadores são ao ressurgimento do nacionalismo na China comunista e a ascensão do líder autoritário Narendra Modi na Índia.

Prakash Singh/AFP
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, é criticado pelos opositores como autoritário e exaltado por seus partidários como um líder pragmático

Você prefere um líder dominante ou de prestígio?

Para os autores, escolher um líder marcado pelo domínio ou outro marcado pelo prestígio foram sempre os dois caminhos possíveis na história evolutiva da liderança.

"Quando confrontados com incertezas, os indivíduos apoiam grupos e pessoas percebidas como mais capazes de tomar ações radicais contra as ameaças. Elas endossam líderes orientados para a ação, na esperança de que tais ações levariam à redução da incerteza", afirmam os pesquisadores.

O apoio ao autoritarismo e ao conservadorismo político se basearia em um processo no qual as pessoas apoiam ideologias "mais suscetíveis de satisfazer suas necessidades psicológicas de ordem, de proteção e de enfrentamento da incerteza", completam.

Reprodução
George W. Bush (esq.), republicano ex-presidente dos EUA, e Jonh Kerry, democrata derrotado por Bush nas eleições de 2004

Somos como macacos diante de ameaças?

Os autores mostram como, de acordo com a psicologia evolutiva, todos os primatas, incluindo o Homo sapiens, se organizam hierarquicamente em torno de um líder. Em momentos de incerteza ou ameaça, ou quando há competição entre grupos por recurso, há a tendência de se preferir um líder mais dominante.

Um exemplo de como essa dinâmica funciona entre humanos está em um estudo feito na época das eleições de 2004 nos EUA, quando o republicano George W. Bush foi reeleito em disputa contra o democrata Jonh Kerry.

Ao transporem atributos dos rostos de Bush e de Kerry para um rosto neutro, os pesquisadores descobriram que os participantes preferiam a fisionomia do republicano, associada a maior masculinidade, como seu líder em tempos de guerra. Já a do democrata era a preferida quando a referência era uma situação de paz. Bush foi reeleito em 2004, época em que os EUA estavam em conflito armado no Iraque e Afeganistão.

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