Cuidado! Seus filhos podem herdar seus vícios, e é coisa da genética

Marcelle Souza

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Getty Images/iStockphoto

Pesquisas apontam que ter pais com algum vício aumenta as chances das próximas gerações desenvolverem o problema. Se você pensou em álcool, cocaína e nicotina, saiba que essa herança desagradável também acontece quando há casos de compulsão por sexo, jogos e compras na família, por exemplo. A boa notícia, dizem que os especialistas, é que a genética não atua sozinha.

A professora Ana Lúcia Brunialti Godards, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), explica que no caso do álcool, a substância com mais estudos nessa área, 50% das chances de dependência ocorrem por conta da herança genética e 50% por influência do meio em que a pessoa vive.

"Se eu tenho um pai alcoolista, por exemplo, quando eu experimento uma bebida alcoólica, rapidamente o meu cérebro vai associar aquilo com prazer e vai começar uma modificação química e fisiológica, que vai tornar aquele álcool necessário para o meu dia a dia. Eu serei mais tolerante ao álcool e fazer uso dele não vai trazer os efeitos negativos. Eu vou ter uma vida aparentemente normal, só que chega um momento em que não consigo mais parar", diz a professora de genética.

No exemplo citado, o filho recebe do pai genes que atuam de modo diferente na absorção e na leitura do álcool pelo corpo.

Isso que a gente chama de dependência só se instala com tempo de uso, e vai ser mais rápida ou mais lenta de acordo com a carga genética"

Ana Lúcia Brunialti Godards, da UFMG

Transmissão pode ser pior em alucinógenos

Segundo o psiquiatra Guilherme Messas, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, estudos realizados com gêmeos sugerem que essa influência genética é menor entre os usuários de alucinógenos e maior entre os de cocaína.

No entanto, o médico destaca que não existe "uma herança genética tão poderosa que torne a pessoa dependente sem que os fatores ambientais tenham uma influência decisiva".

Messas explica que estudos indicam que existe uma influência direta e uma indireta da família no risco maior de desenvolvimento de uma dependência.

"A direta parece ser transmitida por tipos temperamentais, como, por exemplo, a impulsividade inata. A indireta, por sua vez, parece estar relacionada a uma fragilidade da função paternal, por exemplo, pela falta de contato próximo dos pais com os filhos ou o exemplo caseiro de uso imoderado", diz.

Isso significa que pais mais atentos ao comportamento dos filhos e que não bebem demais, por exemplo, podem reduzir um risco de dependência herdado de gerações anteriores.

Jeff Camargo/Arte UOL

E se eu não tenho histórico familiar?

Até agora, os exemplos citados tratam de mutações no DNA que alteram tanto o metabolismo quanto o cérebro na perda do controle de uma substância. Isso, segundo os pesquisadores, é percebido na árvore genealógica de uma família, e quanto mais casos de dependência química, por exemplo, maior é o risco dos seus filhos desenvolverem também.

O novo ponto de interesse da ciência é a epigenética, ou seja, o estudo de como os genes são ativados ou desativados por influência do meio ambiente. Os próximos anos devem trazer muitas novidades nesse campo"

Guilherme Messas, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa

Nessa nova frente de estudos, a hipótese é que, mesmo sem histórico familiar, uma pessoa pode, ao adquirir um vício, passar por uma alteração química (diferente da mutação percebida nas árvores genealógicas) e transmiti-la para as próximas gerações.

É o que indica um estudo realizado por pesquisadores da Dinamarca e da Suécia mostrou, a partir da epigenética, que espermatozoides dos pais obesos carregavam marcas adaptados aos seus hábitos alimentares e com alterações na expressão dos genes que regulam o apetite.

Shuttershock

Outro experimento, feito em camundongos por um grupo de pesquisadores da Universidade de Fudan, na China, mostrou que animais com mais interesse em cocaína tinham filhos mais propensos a se viciar. De acordo com o estudo, isso acontecia por alterações epigenéticas.

A professora da UFMG, no entanto, destaca que os estudos nessa área precisam ser aprofundados. "Ainda é uma suposição que essa alteração passe de pai para filho e precisaríamos de mais pesquisas, especialmente em seres humanos", diz.

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