Pesquisa mostra cérebro de dinossauro brasileiro. E resultado surpreende

Colaboração para o UOL

Pesquisadores do Brasil e da Alemanha reconstruíram, de forma inédita, partes do cérebro do Saturnalia tupiniquim - um dos dinossauros mais antigos do mundo e que habitou há 230 milhões de anos o que hoje é a região sul do país. O resultado do estudo, publicado nesta quarta-feira (20) pela revista "Scientific Reports", mostrou que o animal pode ter sido carnívoro, o que surpreendeu os autores.

Embora fosse de pequeno porte (com cerca de 1,5 metros de comprimento e aproximadamente 10 kg), o Saturnalia é da linhagem de dinossauros conhecida como Sauropodomorpha, que inclui os maiores animais terrestres que já habitaram o planeta: os saurópodos herbívoros, que podiam alcançar até 40 m de comprimento e pesar até 90 toneladas.

A partir do uso de microtomografia, os pesquisadores revelaram detalhes escondidos dentro do pequeno crânio de apenas 10 cm do dinossauro brasileiro: seu cérebro possuía grande volume de uma determinada região do cerebelo (flóculo e paraflóculo), diferentemente de seus enormes descendentes.

Estes tecidos fazem parte de sistemas neurológicos que operam no controle do movimento de cabeça e pescoço e também no controle da visão. O grande volume destas estruturas indica um comportamento em que movimentos rápidos de pescoço e cabeça poderiam ser usados para capturar presas pequenas. Ou seja: a morfologia do cérebro do Saturnalia traz evidências adicionais de que os sauropodomorfos mais antigos eram animais predadores.

Reprodução
Pesquisadores reconstroem cérebro de um dos dinossauros mais antigos do mundo

"Devido ao fato do alongamento do pescoço e a redução do crânio representarem marcas registradas do plano corpóreo de saurópodos, os primeiros passos na aquisição dessa morfologia única parecem ter surgido como adaptações para predação, em um cenário evolutivo conhecido como exaptação, ou seja, processo em que uma característica surge com uma certa função, mas passa a ter outra função em um momento distinto da história evolutiva da linhagem",comenta o professor Max Langer, da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, cujo grupo encontrou os primeiros fósseis do Saturnalia há cerca de 20 anos na área urbana de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Mario Bronzati, doutorando pelo Programa "Ciência sem Fronteiras" na Ludwig-Maximilians-Universitat (Alemanha), Oliver W. M. Rauhut, professor alemão orientador de Bronzati, e o pesquisador brasileiro Jonathas S. Bittencourt, da Universidade Federal de Minas Gerais assinam o estudo. Max Langer também participa do artigo, chamado "Endocast of the Late Triassic (Carnian) dinosaur Saturnalia tupiniquim: implications for the evolution of brain tissue in Sauropodomorpha" e publicado na revista britânica "Scientific Reports" que apresenta os resultados dos estudos.

"Muitos detalhes da anatomia do esqueleto pós-craniano (membros, coluna vertebral e cinturas) do Saturnalia já eram conhecidos, mas essa é a primeira vez em que partes de seu crânio foram estudados, incluindo a reconstituição do cérebro com base em microtomografia computadorizada", diz Bronzati.

Para Langer, esta pesquisa inédita é um importante primeiro passo na busca por uma melhor compreensão do comportamento dos primeiros dinossauros. "Estudos futuros certamente trarão mais informações para entender em mais detalhes a evolução da linhagem dos sauropodomorfos, que começou com pequenos animais predadores e posteriormente deu origem aos gigantes herbívoros do passado", finaliza Langer.

A linhagem Sauropodomorpha viveu na terra por cerca de 170 milhões de anos, e seus últimos representantes foram extintos há cerca de 65 milhões de anos (passagem do Cretáceo para o Paleógeno).

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