Micróbios intestinais ajudam terapia contra câncer; antibióticos são risco

Do UOL, em São Paulo

  • Getty Images

    Pacientes que reagem bem a tratamentos de câncer possuem mais "bactérias boas" no intestino

    Pacientes que reagem bem a tratamentos de câncer possuem mais "bactérias boas" no intestino

Os microrganismos que vivem em nosso intestino e que possuem função essencial na digestão de alimentos também ajudam pacientes com câncer a combaterem a doença. Dois estudos publicados na revista "Science" nesta quinta-feira (2) mostram que uma flora intestinal rica e saudável está presente nos pacientes que reagem bem a terapias que estimulam as células de defesa a atacarem tumores.

O uso de antibióticos, que matam a microbiota, pode representar um risco à eficiência do tratamento.

Em um dos estudos, pacientes com melanoma que possuíam maior diversidade de microrganismos intestinais e abundância de certas bactérias consideradas boas respondem melhor ao tratamento com inibidores de PD-1, um tipo de imunoterapia que ativa o sistema imunológico do organismo para combater o câncer.

O oncologista Vancheswaran Gopalakrishnan e sua equipe coletou e analisou amostras da microbiota de 112 pacientes com melanoma avançado que estavam realizando o tratamento contra o câncer. Os pacientes cuja flora de microrganismos era enriquecida com as bactérias Faecalibacterium Clostridium tiveram maior sobrevida e controle da progressão da doença.

Clostridium e faecalibacterium estão entre os gêneros de bactérias intestinais mais abundantes no cólon saudável. Elas também estão presentes no ambiente e são passadas para bebês recém-nascidos através do contato com da mãe. 

Já os pacientes cuja microbiota continha a bactéria Bacteroidales não reagiram ao tratamento com a mesma eficácia. A análise das respostas imunes dos pacientes revelou que aqueles com micróbios benéficos tendem a ter mais células imunes, que matam os tumores.

Antibióticos atrapalham

Em outra pesquisa publicada na "Science", foi verificado que pacientes que tomaram antibióticos antes de iniciarem o tratamento de tumores tiveram sobrevida reduzida com relação aos pacientes que não usaram antibióticos. O uso de antibiótico está associado a uma redução da microbiota intestinal -- o conjunto dos microrganismos que habitam o intestino. Os participantes do estudo tinham tomado medicamentos para combater infecções urinárias ou dentárias, por exemplo.

A equipe liderada por Bertrand Routy, do Instituto Nacional de Pesquisa Médica e de Saúde da França, analisou a influência do uso de antibióticos por pacientes em tratamento com os mesmos inibidores de PD-1. A análise dos microrganismos intestinais revelou que uma abundância da bactéria Akkermansia muciniphila está associada a melhores resultados clínicos.

As "bactérias boas" foram encontradas em 69% dos pacientes que apresentaram resposta parcial ao tratamento e 58% daqueles que conseguiram estabilizar a progressão da doença. Dentre os que não responderam bem à terapia, a microbiota saudável foi detectada apenas em 34%.

Bactérias boas de humanos controlam câncer em ratos

Transplantar micróbios intestinais de pacientes que tiveram boa resposta a tratamentos contra o câncer para ratos com a doença fez com que os animais controlassem a evolução de tumores.

Os cientistas também testaram o que ocorria com a introdução de microrganismos da microbiota intestinal humana em camundongos tratados com antibióticos e imunoterapia. A suplementação oral com "bactérias boas" aumentou a eficácia das células imunes dos animais, aumentando sua resposta à terapia.

De acordo com a "Science", os resultados dos dois estudos possuem implicações importantes para o tratamento de pacientes com câncer.

Intestino saudável é repleto de bactérias

Pessoas saudáveis possuem em torno de 40 trilhões de bactérias no intestino -- número maior que o de células em todo o corpo. Há entre 300 a 1.000 espécies, sendo que cerca de 40 espécies constituem 99% dos microrganismos presentes no aparelho digestório. 

As bactérias contribuem para a digestão, possuem propriedades anti-inflamatórias e estão ligadas à prevenção de doenças intestinais como a doença de Crohn, além de outras doenças, como asma. Dietas balanceadas e ricas em fibras estão associadas à manutenção dessas bactérias na flora intestinal. O transplante de fezes é uma forma de fornecer bactérias saudáveis a pessoas que realizam tratamentos que eliminam as bactérias do intestino. 

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