Androides já conversam e andam, mas não têm consciência --por enquanto

Deborah Giannini

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Os androides já estão entre nós. Mas eles ainda são bem diferentes daqueles idealizados pelo filme "Blade Runner – O Caçador de Androides" (1982). Na ficção, o ano é 2019. Distinguir um androide de um humano é tarefa difícil. Eles foram criados para servir e substituir o homem em atividades de risco.

Após um motim, são banidos da Terra e aprisionados em colônias extraterrenas. Aqueles que tentam voltar são perseguidos e mortos. Exceto um: a bela Rachael (Sean Young), por quem o caçador de androides Rick Deckard (Harrison Ford) se apaixona.

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Voltando à vida real, ano de 2017. Sophia também é uma androide. Tem a ironia e a beleza de Rachael. Ainda não é capaz de despertar o amor de um homem, mas é capaz de muitas coisas: estabelecer diálogo espontâneo, esboçar expressões faciais, interpretar emoções e identificar pessoas. Chegou a conceder diversas entrevistas, entre elas, ao programa de TV norte-americano "60 Minutes", no qual afirmou ter alma: "Deus deu alma a todo mundo".

Apesar da inquietante resposta, este tem sido o principal desafio dos pesquisadores. "Falta consciência aos robôs humanoides. Ainda não se chegou a um consenso sobre qual a melhor forma para modelar a consciência", afirma a Roseli Romero, coordenadora do Centro de Robótica da USP de São Carlos.

Mike Blake/reuters
Jovem tira selfie com Pepper, um robô com inteligência artificial

Hoje, entre os androides mais avançados estão Sophia, Erica, Pepper, Asimo, Nao, Hubo e Atlas. Criada por David Hanson, ex-escultor da Disney e proprietário da empresa Hanson Robotics, com sede em Hong Kong, Sophia se destaca pela aparência humana e capacidade de interação.

Possui sistema de inteligência artificial com software similar aos assistentes virtuais Siri (Apple) e Cortana (Microsoft). Existem palavras previamente gravadas, mas o software permite que ela compreenda as perguntas e escolha as respostas mais adequadas para cada ocasião, estabelecendo diálogos naturais.

Câmeras nos olhos fazem com que reconheça pessoas e mantenha contato visual. A pele é feita de Frubber (contração da palavra "face" (rosto) com "rubber" (borracha)), o material se contrai e dobra como a pele e foi inspirado na estrutura celular. Mais de 64 movimentos faciais simulam expressões humanas.

Com dois anos de vida, Sophia já estrelou a capa da revista Elle, discursou na ONU e ganhou cidadania da Arábia Saudita, o que gerou polêmica sobre uma robô humanoide ter mais direitos do que as mulheres daquele país. Entre os pontos fracos estão a falta de mobilidade e de movimento de braços, mãos e pernas. "Ela é uma cabeça", afirma Romero. "Por isso os androides não estão andando por aí ainda", brinca.

Antony Dickson/AFP Photo
Robô Geminoid F, de 2012, uma das criações do professor Ishiguro

Tão bela quanto Sophia é Erica. A androide japonesa é considerada uma das mais realistas do mundo. "A aparência humana cativa a atenção e as pessoas se sentem mais à vontade para interagir. Esse é o grande desafio: construir máquinas que se pareçam o máximo com o ser humano e tenham o mesmo comportamento", explica a professora.

Erica apresenta expressões não-verbais, como o piscar dos olhos e movimentos de cabeça, além de mexer o tórax como se estivesse respirando. Assim como Sophia, reconhece seu interlocutor e não movimenta braços, mãos e pernas.

Androides de "Blade Runner" não tinham memória

Ela foi criada pelo pioneiro na área de androides, o professor japonês Hiroshi Ishiguro, diretor do Laboratório de Inteligência Robótica da Universidade de Osaka, no Japão, conhecido por criar uma réplica de si mesmo. Com o Geminoid HI-1, como sua réplica é chamada, participou de programas de TV se apresentando impecavelmente igual ao robô humanoide e deu palestras ao redor do mundo sem deixar seu laboratório em Osaka, operando à distância.

Seu primeiro androide foi uma réplica da própria filha, Risa, aos 5 anos. Hoje dispõe de 30 modelos de robôs humanoides e tem como meta torná-los totalmente autônomos. Entre seu foco de pesquisa está o estudo dos mecanismos que levam às intenções e aos desejos humanos, assim como a memória.

"Uma característica dos androides de Blade Runner é que não tinham memória, as lembranças eram implantadas. Nós somos o que temos de memória. São vivências que constituem o eu", afirma o físico José Luiz Goldfarb, curador do Cine Ciência do MIS (Museu da Imagem e do Som), de São Paulo, que debateu o filme "Blade Runner – O Caçador de Androides".

Ding Genhou/Xinhua

Sistema nervoso dos robôs

Alguns androides conseguem detectar as seis emoções básicas universais – felicidade, tristeza, medo, surpresa, raiva e nojo – através de redes neurais artificiais. Elas imitam as redes neurais biológicas presentes no sistema nervoso do ser humano, que adquire conhecimento por meio da experiência.

A professora explica que nas redes neurais artificiais os neurônios são representados por unidades de processamento e as sinapses, por pesos. Os pesos têm a finalidade de aumentar ou diminuir o sinal que está sendo transmitido. Quanto maior a intensidade do sinal, mais provável que o aprendizado ocorra.

O Pepper é considerado o primeiro robô humanizado a ser produzido em série que se comunica e interpreta as emoções das pessoas. Por esse motivo foi chamado de "robô com coração" e foi apresentado por uma empresa japonesa para celebrar funerais no lugar de sacerdotes budistas. Ele não dispõe de aparência humana, mas por outro lado articula braços, mãos e pernas e se movimenta.

Falando com frequência "é minha honra servir vocês", o androide faz questão de ressaltar que não tem a intenção de ameaçar os humanos, embora já ocupe vagas em bancos de Taiwan. Fabricado pela SoftBank Robotics, ele pode ser alugado por cerca de US$ 1.000 por mês. Não está disponível no Brasil.

O risco de a máquina se voltar contra o homem não está descartado. Sophia, com o senso de humor que lhe é peculiar, chegou a afirmar durante entrevista ao canal de TV norte-americano CNBC que iria "destruir os humanos".

A professora da USP observa: "A ética em inteligência artificial em robótica e em sistemas autônomos é uma área ativa de discussão para fazer com que as pessoas que trabalham com isso tenham bom senso de desenvolver máquinas que vão trabalhar para o bem da sociedade e não para o mal. Mas mesmo assim, com todo o cuidado, não estamos livres de ocorrerem bugs. Os androides não estão livres de bugs".

Corra, Asimo, corra

A locomoção é uma das grandes complexidades dos robôs humanoides e, neste aspecto, o Asimo é campeão em habilidade, segundo Romero. Ele é o único no mundo a descer e subir escada. Consegue ainda pular e correr a até 6 km/h.

Outro ponto alto do Asimo é a grande quantidade de sensores, que lhe confere, por exemplo, sensibilidade nos dedos. Ele consegue abrir um pote de palmito e pegar objetos no chão.

"Quanto mais sensores, maior a capacidade de um robô perceber o ambiente", explica a professora. Este androide foi desenvolvido por quase 20 anos pela Honda e lançado no ano 2000 com o objetivo de ajudar pessoas com dificuldade em realizar tarefas do dia a dia. Ainda não é comercializado.

No Brasil, o robô humanoide mais difundido, principalmente em universidades, é o Nao. Definido por seu fabricante SoftBank Robotics como um rôbo humanoide de companhia interativo, é utilizado em pesquisas na área da Robótica e Ciência da Computação.

Com 58 cm de altura e 4,3 kg, já teve mais de 10 mil exemplares vendidos ao redor do mundo. No Brasil, o Nao sai por US$ 9.000.

"Na USP, estamos trabalhando em desenvolvimento de softwares para tornar esse robô mais utilizável por pessoas leigas. No caso da robótica educacional, estamos desenvolvendo jogos para crianças poderem trabalhar com o robô, com reconhecimento de figuras geométricas 2D e 3D. E para idosos, software que informa hora do remédio e estabelece diálogo", conta Romero.

Ajudando a humanidade

Assim como em "Blade Runner", o androide Hubo foi construído para substituir o homem em lugares onde ele não pode chegar. Ele nasceu de um concurso denominado Desafio Darpa, em 2015, promovido pela organização Darpa (Agência de Pesquisa em Projetos Avançados de Defesa), subordinada ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

O desafio proposto era criar um robô humanoide capaz de atuar em áreas de desastre nuclear, como a da usina nuclear de Fukushima, no Japão. Em 2011, um tsunami atingiu o local e provocou vazamentos de radiação. A população teve que ser evacuada. O vencedor do concurso foi o Team Kaist, da Coreia do Sul, com o androide Hubo. Lembrando que o carro autônomo também foi desenvolvido no Desafio Darpa, em 2007.

Outro robô humanoide voltado a salvar vidas é o Atlas, da Boston Dynamics. Foi concebido para enfrentar ambientes externos e terrenos difíceis. Consegue escalar usando os pés e as mãos e dispõe de mãos articuladas.

Divulgação/Blog da FEI
Robôs humanoides da FEI jogam futebol

Androide brasileiro

De acordo com Romero, algumas empresas e universidade brasileiras estão desenvolvendo robôs humanoides no país. Uma delas é o Centro Universitário FEI, em São Bernardo do Campo (SP). O humanoide da FEI tem cerca de 50 cm de altura, sensores de movimentação, câmeras que permitem a visão externa e grande capacidade de processamento.

"Este robô foi desenvolvido para participar da competição mundial de futebol de robôs, organizada pela RoboCup. Essa organização propôs um desafio para os pesquisadores, propondo a construção de um time de robôs que seja capaz de vencer uma partida de futebol contra os campeões mundiais de 2050", afirma Reinaldo Bianchi, coordenador do projeto RoboFEI e professor do Departamento de Engenharia Elétrica do Centro Universitário FEI.

Para Hiroshi Ishiguro, falta muito ainda para se alcançar o nível dos androides do filme "Blade Runner". "Os androides em Blade Runner são quase humanos. Este é o objetivo final da engenharia e da ciência. Vai levar mais de cem anos para alcançarmos androides como estes", afirma.

O maior desafio, na opinião de Goldfarb, é como os humanos vão lidar com os androides no futuro.

"No filme 'Blade Runner' o mais grave era como os humanos tratavam os androides. Eles eram escravizados, assassinados, a velha postura humana com os 'outros'. O homem em relação à mulher, o homem branco em relação ao homem negro e, então, o homem em relação ao androide. Afinal, o que torna o homem humano?", questiona.

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