Por que a anestesia não nos deixa sentir dor? Antes, álcool era a solução

Aretha Yarak

Colaboração para o UOL

  • Reprodução/YouTube

Fazer uma simples remoção de dentes há mais de dois séculos poderia ser um exercício de tortura. Cirurgias mais complicadas e severas, como a remoção de um membro ou abertura da cavidade torácica, por exemplo, eram realizadas apenas em último caso. Antes da descoberta dos anestésicos, em 1846, os procedimentos cirúrgicos eram tão extremos que chegavam a ser comparados às práticas da inquisição.

Em alguns relatos históricos do Hospital Geral de Massachusetts, médicos diziam não conseguir se esquecer dos gritos e berros e do terror dos pacientes, mesmo depois de anos após os procedimentos. Até a primeira metade do século 19, no entanto, o ópio e o álcool eram os únicos agentes considerados como realmente úteis e eficazes para diminuir as dores.

No geral, as drogas e a bebida conseguiam causar um estado de dormência, mas não eram suficientes para bloquear a dor ou mesmo apagar a memória da sensação.

O problema, entretanto, era que as quantidades de álcool necessárias para um efeito real tendiam a causar náusea, vômito e, por vezes, até a morte do paciente. 

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Para tentar amenizar a tortura, alguns médicos faziam uso de uma série de táticas criativas e até mesmo inusitadas, como o uso de saporíferos e narcóticos extraídos de plantas (como machona e beladona) para induzir o sono. Outros, apostavam em técnicas de hipnose ou "apagavam" o paciente com um soco na mandíbula. Para tentar criar um estado de distração, podia-se, ainda, esfregar algumas regiões do corpo do paciente com plantas urticárias.

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Como funciona a anestesia no corpo

Com a invenção da anestesia, os procedimentos cirúrgicos se tornaram mais seguros – e menos com toque de tortura. No Brasil, ela foi usada pela primeira vez em 1847 pelo médico Roberto Jorge Haddock Lobo. De modo geral, a anestesia é feita com uma combinação de medicamentos usados para diminuir a sensação de dor, amnésia, sedação e hipnose, imobilidade e bloqueio de reflexos.

"Nenhum tipo de anestésico é perfeito ou superior no geral. Na prática, ele é melhor ou pior quando pensamos em situações específicas", comenta o médico Gabriel Magalhães Nunes Guimarães, anestesiologista do Hospital Universitário de Brasília.

A anestesia local é usada para impedir a transmissão de sinais entre uma parte específica do corpo e o cérebro. Ela age bloqueando os canais de sódio nos neurônios, o que barra a transmissão do impulso nervoso para o cérebro – assim, a pessoa "não sabe" que algo dolorido está acontecendo. Esse tipo é usado para impedir a dor em locais bem específicos, como durante a remoção de uma unha encravada ou de um dente.

"Os anestésicos locais também podem ser injetados no canal medular, a conhecida raquianestesia. Quando isso é feito na região lombar, causa analgesia completa e imobilidade a partir de um ponto para baixo, como da linha do umbigo para os dedos dos pés", comenta Guimarães.

Esse tipo de anestesia é inserida na medula com o uso de uma agulha muito fina e, geralmente, é utilizada para cirurgias nas pernas ou em procedimentos ginecológicos e urológicos. Ela bloqueia todos os tipos de sinais. O que não acontece na peridural, em que o anestésico também é injetado na coluna, mas de modo mais superficial. Assim, ele é suficiente apenas para eliminar a dor, e mantém a sensação tátil.

Já a anestesia geral é usada para induzir o coma, o paciente fica inconsciente, sem responder a estímulos e podendo ter episódios de amnésia.

Ela, geralmente, é administrada  por inalação ou por via venosa e ocorre em três estágios: indução (entre a administração da droga e a perda de consciência), estado de excitação (período prévio à perda de consciência) e o estado de anestesia, quando ocorre o relaxamento muscular, depressão respiratória, redução dos movimentos oculares e o paciente está pronto para a operação.

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