Dá para planejar o próximo feriado confiando na previsão do tempo?

Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

  • Foto: Luiz Pessoa/JC Imagem

Os mais precavidos costumam olhar a previsão do tempo para saber com que roupa sair de casa. Quem é ainda mais prudente pode se preocupar em consultar sites de meteorologia antes de marcar a viagem para um feriado próximo, mesmo que ele esteja até duas semanas adiante. Mas dá para confiar na meteorologia?

Previsão nunca é 100% de certeza. Ainda mais se tratando de fenômenos atmosféricos, que são muito mais incertos e sujeitos a dinâmicas complexas do que o trânsito na estrada, o humor dos viajantes e sua organização para arrumar a mala -- mesmo quando o páreo é duro nesse tópico.

Para saber se vai chover ou fazer sol amanhã, se a semana vai ser nublada, se vai dar sol no fim de semana, é preciso olhar para uma série de variáveis, como temperatura, pressão atmosférica, umidade do ar, correntes de vento e formação de chuvas.

E não basta averiguar essas condições no local de destino de sua viagem. Tudo o que acontece na atmosfera de todo o globo pode determinar se você curtirá uma piscina ou ficará na sala jogando buraco ao som da chuva tamborilando na janela.

São fenômenos físicos ocorrendo numa atmosfera de 800 km de espessura (com o maior peso concentrado nos primeiros 15 e 20 km), que engloba uma esfera de 40.000 km de circunferência. Em toda ela, há variações conforme altitude, latitude e formação de correntes de ar. Tudo isso é definido pelo ângulo de incidência de radiação solar, que difere entre o Equador e os polos, pela rotação da Terra e pelas diferentes massas de ar.

As massas de ar, formadas em latitudes diferentes, sobre oceanos ou continentes, variam de acordo com a região em que se formam e com a umidade. O que está na superfície da Terra, portanto, também influencia o que ocorre no ar. Além das massas de ar, existem estruturas atmosféricas mais complexas e imprevisíveis, como os jatos que não tem trajetória retilínea e fenômenos como o El Niño e a La Niña.

É, portanto, de surpreender que os meteorologistas, mesmo por vezes errando, consigam prever como estará a praia para você 15 dias antes da sua viagem. E com precisão maior do que aquela da sua promessa de arrumar a mala com antecedência. Mas como é possível isso?

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Os gráficos que aparecem nas previsões do tempo são feitos a partir de dados de diversos sensores

Obtendo enorme quantidade de dados

Para realizar previsões com o máximo de precisão, é preciso colher a maior quantidade possível de dados sobre as condições atmosféricas do presente. Para isso, existem espalhados em aeroportos, navios, aviões, balões atmosféricos e no espaço uma diversidade enorme de sensores, sondas e outros aparelhos.

"Há uma rede de observação de dados que consegue medir variáveis da atmosfera, como vento, pressão, umidade e temperatura, em todo globo terrestre", diz Ricardo de Camargo, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (Universidade de São Paulo). De todas as tecnologias existentes, a mais importante são os satélites.

O especialista cita a França como um bom exemplo de país onde os meteorologistas conseguem realizar previsões com maior precisão. "A França tem redes de informação mais detalhadas", afirma. E acrescenta que a precisão das previsões também varia conforme a época do ano. "Previsões no verão no Brasil são terríveis, é a época do ano em que o comportamento da atmosfera é mais difícil de ser representado. No inverno fica seco, facilita a vida".

No Brasil, há estações na superfície que fazem medições quatro vezes ao dia. Em aeroportos, é feito a cada 30 minutos ou 1 hora. Alguns deles, como o Campo de Marte, em São Paulo, soltam sondas presas a balões que mensuram as mudanças na estrutura vertical da atmosfera. 

Todas essas informações são compartilhadas em um sistema global de troca de informações meteorológicas -- o GOS (Global Observing System, ou Sistema de Observação Global). Acordos internacionais garantem a disponibilização dessas informações para países que não possuem tecnologia para fazer observações próprias.

E o que fazer com tantos dados na mão?

Com números em mãos, o que profissionais da área das ciências exatas sabem fazer de melhor são contas. No passado, os cálculos de previsão do tempo eram feitos à mão. A tarefa não era lá tão difícil, já que o número de sondas e sensores existentes era bem menor que o atual. Hoje, os dados são processados por poderosos computadores.

Mas que cálculos são esses? Os números captados refletem a situação da atmosfera do momento da forma mais próxima possível da realidade. Os meteorologistas chamam esse cenário de estado inicial da atmosfera. Esses dados são então usados em uma série de equações que compõe os modelos meteorológicos.

"Elas indicam se uma massa vai ser empurrada, se vai acelerar, se vai ficar úmida. Há equações que descrevem movimento, termodinâmica, etc.", diz Camargo. Calculando com equações que refletem tudo o que acontece na atmosfera, chega-se a cenários futuros. É a previsão do tempo.

Mas por que não é "precisão"? Primeiro, porque apesar de muitos dados serem captados, não se possui um relato detalhado de tudo o que ocorre em todos os pontos da atmosfera. Segundo, porque as dinâmicas atmosféricas podem ser muito complexas a ponto de pequenas perturbações alterarem todo o cenário.

Para contornar as incertezas que surgem após os cálculos, os meteorologistas contam com a estatística. E, em vez de realizarem apenas um cálculo, realizam diversos, com algumas modificações entre um e outro.

"Os centros de meteorologia geram umas 20 condições iniciais por dia. Nos primeiros dias (da previsão) os resultados são iguais. Lá pelo quarto dia, por exemplo, começa a dar resultado diferente. É porque alguma perturbação gerou mudanças", afirma o meteorologista.

E a previsão do feriado na sua viagem, daqui 15 dias, como fica depois de tanto cálculo e repetição de cálculo? "Quando comparam as 20 contas, se 15 mostram uma mesma coisa, tenho 75% de chance de ter aquele cenário", exemplifica Camargo.

Getty Image
Um sistema global de observações meteorológicas reúne e disponibiliza informações sobre o tempo

Mas todas as previsões precisam ser globais?

Para sua viagem, assim como para o plantio agrícola e o planejamento de geração de energia, é necessário fazer previsões locais. "Mas não adianta querer olhar só para um local específico sem olhar as perturbações que estão chegando", diz o especialista.

Tudo que pode chegar pelas bordas -- como a chuva que está no Rio Grande do Sul mas que pode alcançar o Guarujá, em São Paulo -- é chamado pelos meteorologistas de condições de contorno. Essas condições podem já ter sido pré-calculadas. E quem está fazendo uma previsão mais local as utiliza para saber o que ocorre nas bordas.

Dessa forma, é possível fazer modelos globais, regionais e locais, sendo que os mais detalhados levam em consideração os mais abertos.

O que deixa mais fácil ou mais difícil a previsão

Os modelos meteorológicos variam, e cada país ou região pode ter o seu. É claro que bons modelos garantem previsões melhores. Assim como mais e melhores equipamentos deixam as projeções mais precisas. Mas nada mais determinante nas tentativas de saber como vai estar o tempo do que as próprias características climáticas de cada região do globo.

Aqui, cabe antes uma distinção entre clima e tempo. Clima é a medida de condições do tempo em um longo período. É a média a longo prazo de condições do tempo. E tempo é o que muda no fim de semana, a condição passageira dos elementos do clima.

Assim, há lugares e épocas do ano em que as características do clima são mais complexas e instáveis. "E há lugares em que o comportamento da atmosfera é tal que previsão é mais assertiva", diz Camargo.

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