Por que colocamos o dedo na boca depois de machucar?

Fernando Arbex

Colaboração para o UOL

  • Getty Images/iStockphoto

O instinto natural de chupar um dedo atingido por um martelo e esfregar uma parte do corpo que sofreu uma pancada forte não existe em vão. Embora pareçam técnicas baseadas na sabedoria popular -- e sua eficácia, de fato, não dure mais do que alguns segundos --, a neurobiologia explica por meio da "Teoria do Portão" que a passagem das sinapses que enviam o alerta da dor por ser "fechado".

"O caminho natural de um estímulo responsável pela dor é a inflamação ou lesão de tecidos, que causa a liberação de diversas substâncias chamadas mediadores químicos", diz Paulo Magalhães Gomes Ramacciotti, médico anestesiologista do Hospital Universitário da UFScar. "A partir de uma certa quantidade, deflagra-se um estímulo inicialmente transmitido por fibras finas e lentas, chamadas A, delta e C", acrescenta.

São essas fibras que fazem conexões com a medula, mais precisamente em uma área chamada de corno posterior, o qual funcionará como "portão".  Por meio de neurônios conhecidos como de segunda ordem, o estímulo chega a locais superiores de nosso sistema nervoso central, como o tálamo, o hipotálamo e o córtex, responsáveis por respostas do corpo à dor e à sensação de dor propriamente dita.

"Porém, temos no nosso corpo fibras mais grossas e rápidas, que não transmitem dor, como por exemplo as fibras Aβ ("A beta"), responsáveis pelo tato. Ao serem estimuladas, elas também fazem conexão com o corno posterior, mas, ao passarem por esse local, 'bloqueiam' a transmissão das fibras responsáveis pela dor. Assim, a região do corno posterior funciona como um 'portão', porque deixa somente o estímulo do tato ser transmitido", afirma Ramacciotti.

É certo que as técnicas de chupar o dedo e soprar uma ferida aberta são eficazes em um primeiro momento, mas passam longe de serem recomendadas por especialistas.

"A rigor, quando machucamos uma parte do corpo, a conduta mais correta é limpar com água corrente e sabão, se for possível", diz o infectologista Valdes Bollela, professor da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto.

"O nosso organismo tem mecanismos de defesa que nos protegem quando temos um ferimento e há uma infecção do local. Deve-se evitar lamber e chupar porque na boca existem várias bactérias que podem infectar a ferida. Cobri-la com cinza, fumo e terra também não é apropriado, já que aumenta o risco de infecções e de tétano", diz

De autoria de Ronald Melzack e Patrick Wall, a "Teoria do Portão" foi publicada em 1965 na Revista Science e rendeu melhorias na abordagem ao tratamento de pacientes com dores agudas. Um instrumento muito usado em clínicas de fisioterapia é a máquina de "choquinho", o TENS (transcutaneous electrical nerve stimulation, ou "estimulação elétrica transcutânea"), criado segundo a influência do estudo.

"Por meio de estímulos cutâneos específicos, leva-se à hiperexcitação das fibras de grosso calibre (A beta). Assim, por causa da predominância desses estímulos sobre as fibras que transmitem a dor, há casos que o TENS consegue efetuar o bloqueio e aliviar a sensação", diz Ramacciotti.

"O TENS também se relaciona à liberação de opióides endógenos, como dinorfinas, encefalinas e endorfinas, substâncias produzidas pelo próprio organismo e que minimizam os efeitos álgicos", afirma.

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