Cientistas desvendam segredo do 'Portão do Inferno'

Rachel Tepper Paley

Da Bloomberg

  • IStock

Dois milênios atrás um pequeno templo greco-romano --onde hoje é a Turquia-- impressionava e fascinava seus habitantes. Atrás de seu portão de pedra, em uma gruta envolta em uma névoa espessa, uma força estranha realizava obras obscuras: os touros levados ao interior pereciam; mas os sacerdotes castrados que os conduziam saíam ilesos.

Seriam os desígnios sanguinários de Plutão, deus do submundo? Seria o poder sobrenatural dos sacerdotes? Uma nova pesquisa, publicada em 12 de fevereiro no periódico científico "Archaeological and Anthropological Sciences", oferece uma explicação muito mais terrenal para o mistério da caverna: a nocividade do dióxido de carbono.

Pfanz/Archaeological and Anthropological Sciences
Esta foto de 2013 foto (cima) mostra os assentos de pedra onde os espectadores se sentavam no Plutonium. Observe a antecâmara (seta azul) da gruta (seta branca), bem como o furo (seta vermelha) onde o gás mortal escapou. A foto inferior mostra o Plutonium em 2014, depois que os arqueólogos terminaram as escavações.
Usando um analisador portátil de gás, o biólogo de vulcões Hardy Pfanz liderou uma equipe de cientistas que descobriu que os vapores emitidos pela boca da caverna - expelidos de uma fissura profunda - registraram níveis de 4% a 53% de dióxido de carbono vulcânico, dependendo da distância em relação ao chão.

Quanto mais perto do chão da caverna, maior a quantidade do gás asfixiante, que forma um lago letal de dióxido de carbono (o gás nocivo é mais pesado que o oxigênio, por isso se estabelece mais embaixo, e esta é uma das razões pelas quais os porões se tornam letais quando há um vazamento de CO2 em uma casa). Animais com focinhos próximos ao chão provavelmente inalaram uma quantidade muito maior de gás do que os seres humanos que caminhavam em pé ao lado deles, o que poderia explicar a milagrosa incolumidade dos sacerdotes.

Embora tenha sido redescoberta apenas em 2013, perto da cidade de Pamukkale --famosa por seu conjunto de piscinas termais de origem calcária, declarado patrimônio mundial pela Unesco--, a existência da caverna é conhecida desde a antiguidade como parte do que era então Hierápolis. Conhecida como "Plutonium", em homenagem ao deus Plutão, acreditava-se que ela era um portal para o submundo e um meio de invocar o deus, oferecendo sacrifícios de animais.

Os espectadores observavam incrédulos de uma arena próxima. Uma descrição escrita pelo geógrafo grego Estrabão, que viveu de 63 a.C. a 24 d.C., faz muito mais sentido considerando o que sabemos hoje: "Este espaço está cheio de um vapor tão nebuloso e denso que é difícil enxergar o chão... os touros que são levados para dentro caem e são arrastados para fora, mortos", escreveu ele.

Mas, embora os sacerdotes entrassem e saíssem da caverna ilesos, Estrabão observou que eles "prendiam a respiração o máximo possível" e mostravam "indícios de uma espécie de ataque de asfixia".

Dois mil anos depois, os visitantes deveriam continuar sendo cautelosos com o portão; durante a escavação de 2013, arqueólogos testemunharam que vários pássaros caíram mortos depois de voar perto demais.

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