Alimentação

Não é só cerveja e shoyu: conheça outros alimentos que contêm milho

Larissa Leiros Baroni

Do UOL, em São Paulo

  • iStock

    Produtos "made in Brazil" têm alta concentração de carbono carbono oriundo de plantas do tipo fotossintético C4 (como cana-de-açúcar, milho e pastagens)

    Produtos "made in Brazil" têm alta concentração de carbono carbono oriundo de plantas do tipo fotossintético C4 (como cana-de-açúcar, milho e pastagens)

Não é só a cerveja e o shoyu produzidos no país que contêm milho. Muitos outros alimentos "made in Brazil" usam o grão como matéria-prima, segundo Luiz Antônio Martinelli, pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo. Produtos que você certamente nem imagina.

Prepare-se para a extensa lista, que começa com missoshiru (típica sopa japonesa feita de soja) e passa pelo tempero em pó, molho bouillon, molho inglês e até a ração para cachorro.

Para fazer o levantamento, o pesquisador da USP analisou a presença e o nível de carbono presente em plantas do tipo fotossintético do milho. O grão, a cana-de-açúcar e pastagens produzem o carbono C4. Na sopa de missô brasileira, no tempero em pó, no molho inglês e na ração de cachorro, mais de 50% das moléculas de carbono desses produtos são do tipo C4.

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Cerca de Em média 77% das moléculas de carbono da sopa de missô brasileira são do tipo C4
"Há indícios inclusive do uso do grão em nossa mostarda, que tem uma concentração significativa de C4 (44%). Mas a origem desse C4 precisa ser melhor investigada", afirma o pesquisador.

O carbono C4 também aparece, em menor proporção, na composição de maionese (14%) e de margarina (5%).

A alta concentração de C4 na composição do alimento, no entanto, não significa necessariamente que o produto é feito de milho. A alta concentração desse nível de fixação de carbono pode aparecer por "contaminação", ou seja, por produtos que carregam em si resquícios do milho. É o caso do frango brasileiro, que tem em média 70% de C4.

"O milho permeia a nossa cadeia alimentar de uma forma muito intensa. É a principal fonte de alimentação das galinhas e dos porcos", explica ele. Não à toa há uma alta concentração de C4 em nosso ovo (77%), assim como em nosso porco (64%), nosso presunto (65%), nosso salame (76%), nossa salsicha (75%) e atém nossa tilápia de criadouro (61%). 

Como explica Martinelli, o milho --assim como a cana-de-açúcar e o capim-- absorve o gás carbônico da atmosfera e, sob a luz solar, realiza reações químicas que geram moléculas de açúcar contendo quatro átomos de carbono. Processo conhecido como fotossíntese C4. Já as frutas, verduras, leguminosas e quase todos os cereais --exceto o milho-- produzem açúcares com apenas 3 carbonos.

Outra diferença é que os açúcares das plantas C4 continuam a existir nos alimentos, mesmo depois de serem processados acrescenta o especialista, acrescenta o pesquisador, que descreve o processo de fotossíntese como uma "assinatura química da origem dos alimentos". 

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O milho absorve o gás carbônico da atmosfera e, sob a luz solar, realiza reações químicas que geram moléculas de açúcar contendo quatro átomos de carbono

Por que tanto milho? 

O preço, como cita Martinelli, é o principal motivo da predileção do uso do milho na alimentação de animais e mesmo na produção de itens brasileiros --como a cerveja. "Até porque a produção dessas plantas é favorecida pelo clima tropical, que garante a abundância do grão, consequentemente, o valor mais em conta", relata. 

Só para se ter uma ideia, entre 2007 e 2017, o preço médio da soja era o dobro do preço médio do milho no país.

Martinelli também cita a ausência de uma regulação que controle o uso indiscriminado das plantas C4 nos produtos feitos no Brasil.

Em nota, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informou que as especiarias, temperos e molhos são regulamentados pela Resolução RDC nº 276, de 22 de setembro de 2005. Mas, segundo o órgão, não existe restrição quanto a presença de grãos na elaboração dos produtos, desde que estejam devidamente declarados na lista de ingredientes na respectiva ordem de proporção.

Os ingredientes devem aparecer no rótulo conforme a sua participação na composição. Assim, se o milho é o primeiro elemento da lista, ele é a principal matéria-prima do alimento.

Apesar de não haver limites para os ingredientes na composição dos alimentos, no caso do shoyu, destaca o órgão, "um produto feito inteiramente com milho não poderia ser denominado de molho de soja, pois isto contraria os princípios gerais de rotulagem, por levar o consumidor ao erro quanto à identidade e natureza do produto."

Rei do milho

"O brasileiro é basicamente uma espiga de milho, um saco de capim ou um pé de cana-de-açúcar", brinca o pesquisador ao se referir a um estudo realizado pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo que constatou um alto nível de C4 na unha da população. "Somos o rei do C4", completa ele.

"O nível desse tipo de carbono na unha dos brasileiros, principalmente daqueles que vivem nas grandes cidades, é uma das maiores do mundo. Muito maior do que a dos asiáticos e até do que a dos norte-americanos", relata Martinelli. Segundo ele, esse alto teor está relacionado ao consumo de produtos industrializados --a maioria deles com uma concentração significativa de C4.

Mas ainda não se sabe ao certo qual é o efeito disso na saúde dos consumidores. "Ainda assim, como há uma ligação desse carbono com produtos de origem animal e com alto teor de açúcar, podem contribuir com a alta dos níveis de colesterol e de diabetes. Mas são só suspeitas, que ainda precisam de confirmação científica."

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