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Astrônomos encontram evidências de primeira 'exolua'

Dan Duda / Science Advances
Concepção artística do exoplaneta Kepler-1625b e lua gigante. O par tem uma relação de massa e raio semelhante ao sistema Terra-Lua - mas são 11 vezes maiores. Imagem: Dan Duda / Science Advances

Edison Veiga

Colaboração para o UOL, em Milão (Itália)

03/10/2018 15h00

Com base em dados obtidos por dois telescópios espaciais de ponta, o Kepler e o Hubble, cientistas da Universidade Columbia encontraram evidências, pela primeira vez na história, de uma exolua, ou seja, uma lua orbitando um planeta fora do Sistema Solar.

Tudo indica que o exoplaneta Kleper-1625b, um astro do tamanho de Júpiter (para referência, o maior planeta do nossos Sistema Solar), é orbitado por uma lua – mais ou menos do tamanho de Netuno (o quarto maior planeta). A descoberta científica está publicada na edição desta quarta-feira (3) da revista Science  Advances.

As primeiras evidências da existência dessa exolua vieram com informações colhidas pelo Kepler, telescópio espacial lançado em 2009 pela Nasa, a agência espacial americana. O aparelho analisou 284 planetas “em trânsito”, ou seja, no ponto em que passam em frente a seu Sol.

Os dados mostraram que, no caso do Kepler-1625b, havia registros de escurecimentos momentâneos da luz vinda da estrela, indicando, portanto, que o planeta tem um satélite em sua volta -- “uma lua que o segue como um cão na coleira segue seu dono”, para usar as palavras do astrônomo David M. Kipping, um dos autores do estudo.

Endereço sideral

Kepler-1625b é um planeta descoberto em 2016. Ele orbita a estrela Kepler-1625 e se situa a 8 mil anos-luz da Terra, na Constelação de Cisne.

Quando os astrônomos se depararam com a evidência de que o planeta teria uma lua, solicitaram à Nasa imagens feitas do mesmo ponto pelo telescópio Hubble, cuja resolução é quatro vezes superior ao do Kepler. Obtiveram 40 horas de dados e puderam verificar as alterações tanto de brilho quanto de gravitação do planeta durante a movimentação. Por fim, concluíram: tudo indica que seja o primeiro registro científico de uma lua fora do Sistema Solar.

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“Graças a missões de busca de planetas fora do Sistema Solar, sabemos hoje que planetas são comuns em torno de outras estrelas. Dentro de nosso Sistema Solar, satélites naturais são recorrentes, o que já nos fazia imaginar que no caso dos exoplanetas, isto também ocorra. A pergunta, portanto, não é se exoluas existem, mas quais são as suas propriedades físicas”, disse o astrônomo Kipping à imprensa internacional na última segunda (1).

De acordo com os cientistas, outras questões agora se apresentam. Uma delas seria entender quando se deu a formação de tal lua: se foi algo que se desprendeu do planeta, em algum momento de sua formação, ou se é resultado de alguma colisão com algum asteroide, por exemplo.

A comunidade astronômica também deve aproveitar esses dados para conseguir, de maneira mais bem-sucedida, encontrar outras luas fora do Sistema Solar. Há a expectativa, portanto, de que tal descoberta abra espaço para mais novidades.

Por fim, uma outra dúvida que os cientistas esperam conseguir responder é justamente o mecanismo que permite que uma lua do tamanho de Netuno orbite em um planeta do tamanho de Júpiter. “São questões que desafiam a explicação fácil, afinal não há paralelo em termos desses mecanismos conhecidos”, afirmou o astrônomo Alex Teachey, também autor da descoberta. “Até onde sabemos, algo assim nunca foi estudado.”

No Sistema Solar, onde se acredita que existam cerca de 200 satélites naturais – nem todos já catalogados – não há evidência de que nenhuma lua tenha um tamanho tão gigantesco como esta que orbita Kepler-1625b.blz

Como em ciência todo cuidado é pouco, os autores do estudo acreditam que novas observações precisam ser feitas para confirmar os indícios. “O resultado de nossa pesquisa nos deixa entusiasmados, mas agora precisamos esperar o escrutínio da comunidade científica”, disse Teachey. “Esperamos ter a oportunidade de seguir observando também.”