Astrônomos detalham colisão que moldou Via Láctea há 10 bilhões de anos

Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

  • ESA

Quando a Via Láctea era ainda uma criança, um choque com uma galáxia menor mudou sua estrutura. O impacto recheou o disco galáctico com outras estrelas, tornando-o mais denso. As estrelas que formam as cicatrizes da colisão contam a história dessa trombada. E um artigo publicado na revista Nature nessa terça-feira (31) traz novas evidências de quando ela ocorreu, o tamanho das galáxias na época e de como elas rolaram juntas pelo espaço sideral.

Foi há 10 bilhões de anos. A pequena galáxia atropelada orbitava a Via Láctea e tinha cerca de 20% da massa que a nossa galáxia tinha na época. A conclusão foi possível graças a observações feitas pelo telescópio espacial Gaia, da ESA (Agência Espacial Europeia). Os cientistas mensuraram dados sobre a idade, química, distribuição e movimento das estrelas da galáxia anã que compõem parte substancial da Via Láctea.

Essas estrelas têm características diferentes das demais estrelas da Via Láctea. Elas orbitam o centro galáctico em alta velocidade e em direção oposta a do nosso Sol, por exemplo. "O halo interior [da Via Láctea] é dominado por detritos de um objeto um pouco mais massivo que a Pequena Nuvem de Magalhães", dizem os pesquisadores liderados por Amina Helm, da Universidade de Groningen, na Holanda.

As informações obtidas pelo Gaia permitiram aos cientistas reconstruir o movimento das estrelas no momento do choque. Uma ilustração animada criada pelos pesquisadores mostra como as duas galáxias se embolaram. Veja abaixo:

Os cientistas deram o nome de Gaia-Enceladus à galáxia anã em homenagem ao telescópio Gaia, lançado em 2013 para observar mais de um bilhão de objetos no céu. Enceladus, que completa o nome, é o filho de Gaia e Urano na mitologia grega.

Nossa galáxia é composta por um centro no qual se encontra um buraco negro supermassivo, pelo famoso disco com seus braços em espiral e pelo gás interestelar circundante, chamado de halo. Há na galáxia entre 100 e 400 bilhões de estrelas.

"A fusão da Via Láctea com Gaia-Enceladus deve ter levado ao aquecimento do disco galáctico, contribuindo assim para a formação deste componente", afirma o artigo. Esse aquecimento também teria deixado o disco mais espesso.  

Os cientistas já especulavam que toda essa estrutura tinha como origem a fusão com outra galáxia. Em um artigo suplementar publicado na Nature, Kim Venn, cientista do departamento da Universidade de Victoria, no Canadá, diz que o novo estudo traz contribuições importantes para a pesquisa desse choque, como dados sobre "a massa da galáxia satélite, quando a colisão ocorreu e se o evento envolveu uma única galáxia satélite".

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