Topo

Estudo 'provando' Adão e Eva viraliza; 'a conclusão está errada', diz autor

Reprodução
Em 1504 o pintor alemão Albrecht Dürer retratou como, na sua visão, seriam Adão e Eva Imagem: Reprodução

Edison Veiga

Colaboração para o UOL, em Milão

05/12/2018 04h01

O estudo existe, a universidade é verdadeira e os cientistas também. Mas a conclusão que viralizou no Brasil está equivocada, alertam os autores.

Uma corrente espalhada por defensores do criacionismo diz que um estudo “revolucionário” desenvolvido nas universidades Rockefeller (EUA) e da Basileia (Suíça) põe em xeque “muito do que defende a teoria da evolução das espécies”.

Mas o UOL ouviu um dos autores que, informado sobre o teor das correntes que se popularizaram por aqui, avisa que a conclusão correta é justamente o contrário: “Nosso estudo é fundamentado e apoia fortemente a evolução darwiniana”, disse Mark Young Stoeckle, pesquisador da Universidade Rockefeller, em Nova York.

Ele é um dos responsáveis pelo artigo “Why Should Mitochondria Define Species?” (Por que a mitocôndria deveria definir espécies?), citado na corrente falaciosa. Trata-se de um tipo de fake news mais sofisticado: cita artigo e autor verdadeiros, mas induz o leitor ao erro.

“Todos os seres humanos descendem de um mesmo casal, diz estudo” é o título do texto de uma dessas reportagens.

“Está totalmente errado”, disse Stoeckle ao UOL.

Nosso estudo segue as principais visões da evolução humana. Nós não propomos que houve um único Adão ou Eva.

O estudo foi publicado em maio na revista Human Evolution e deturpado não apenas no Brasil. Na verdade, a corrente chegou aqui por meio de um telefone sem fio que começou em sites sensacionalistas na Europa.

“Nosso estudo inclui a compreensão de que toda a vida evoluiu de uma origem biológica comum ao longo de vários bilhões de anos”, disse Stoeckle.

O estudo é assinado em conjunto com David Solomon Thaler, da Universidade da Basileia.

O que pode ter acontecido

Membros da comunidade científica dizem que o que aconteceu com o artigo de Stoeckle e Thaler foi, primeiramente, uma interpretação equivocada da imprensa ávida por cliques.

E essa leitura caiu no gosto popular e foi distorcida um pouco mais por partidários do criacionismo.

Isso tudo acabou potencializado por um fator: o artigo, em si, tem problemas, dizem os especialistas.

“Não consegui entender o propósito dos autores, nem sua hipótese e como ela foi testada. Em suma, confuso”, afirmou ao UOL a bióloga Maria Cátira Bortolini, especialista em genética humana e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

“Os autores rechearam o texto com citações de filósofos da ciência e biólogos evolucionistas, tanto de neutralistas clássicos [que defendem que o homem evoluiu por mutações genéticas] quanto selecionistas clássicos [que acreditam na seleção natural das espécies]. Não consegui entender o propósito dos autores, nem sua hipótese e como ela foi testada”, diz Bortolini.

A Eva da genética

Patrick Foley, doutor em genética pela Universidade da Califórnia, explica que não é a primeira vez que polêmicas do tipo surgem no meio científico.

Ele menciona uma teoria dos anos 1980 que fala da “Eva mitocondrial”, uma suposta ancestral comum a toda a humanidade de hoje.

De acordo com essa teoria, a Eva seria de 150 mil anos atrás. Mas há registros fósseis de Homo sapiens de 300 mil anos atrás. “Esse talvez seja um padrão comum: as ‘Evas mitocondriais’ são frequentemente mais recentes que o 'evento' da especiação, ou seja, quando a espécie se forma”, complementa.

“Em suma: o artigo não subverte tudo o que já sabíamos sobre a especiação. Confirma algumas coisas, interpreta outras e toma algumas conclusões erradas. Mas é interessante”, diz ele.

A polêmica sobre a interpretação do estudo também chegou aos Estados Unidos.

“As manchetes dão a impressão de que a ciência produziu evidências para corroborar a história de Adão e Eva”, afirmou em sua coluna na Forbes o jornalista científico Michael Marshall. “Mas o estudo em que se baseiam essas notícias não demonstra nada do tipo --e outras linhas de pesquisa sugerem fortemente que as populações humanas passadas sempre foram muito maiores do que duas pessoas.”

Marshall esmiuçou o polêmico estudo de Stoeckle e Thaler. “O estudo trata do código de barras do DNA: a técnica de ler um pequeno fragmento do DNA de um organismo e usá-lo para identificar sua espécie”, explica.

“Para identificar um animal, os geneticistas geralmente olham para um gene chamado citocromo oxidase 1 (CO1). Esse gene não faz parte do genoma ‘principal’ mantido no núcleo das células animais, mas é transportado na mitocôndria: pequenas organelas em formato de salsicha e se aglomeram dentro das células animais e lhes fornecem energia.”

Ele afirma que o método não é perfeito, mas funciona para identificar espécies justamente porque os animais, dentro da mesma espécie, tendem a ter genes CO1 quase idênticos --diferindo de maneira confiável dos representantes de outras espécies.

“Como os genes CO1 são tão semelhantes dentro das espécies, independentemente de quantos indivíduos existem, Stoeckle e Thaler argumentam que algo deve tê-los feito dessa maneira. Ou a evolução está, de alguma forma, empurrando cada espécie para ter sua própria versão, o que parece improvável, ou cada espécie teve quase toda a sua diversidade genética expurgada --o que implica que sua população já foi muito pequena”, analisa Marshall.

“Além disso, esses gargalos populacionais aparentemente ocorreram entre 100 mil e 200 mil anos atrás. Isto implica algum tipo de evento global, uma catástrofe não especificada que cortou a população de praticamente todas as espécies animais.”

“Este evento, seja o que for, também afetou os humanos. Os dados genéticos humanos, de acordo com o estudo, são ‘consistentes com o extremo gargalo de um casal fundador’”, cita o jornalista. “Mas esta ideia está quase certamente errada, por uma série de razões.”

Ele explica que, em primeiro lugar, é preciso ter um pé atrás com pesquisas evolutivas baseadas apenas em DNA mitocondrial. Primeiro, por ser herdado apenas da linha materna, sem se “misturar”. Segundo porque muitas vezes ele dá pistas incompletas.

Marshall cita o caso do genoma mitocondrial dos neandertais, que, quando analisado, não trouxe evidências de cruzamentos dessa espécie com os humanos; evidências essas encontradas quando foi feito o genoma nuclear dos neandertais.

“As descobertas de Stoeckle e Thaler nos fazem acreditar que 90% das espécies têm menos de 200 mil anos de idade. Eu não acho que seus dados de DNA mitocondrial são suficientes para mostrar isso, e estudos de genomas inteiros e fósseis nos darão datas mais confiáveis que eu acredito serem mais antigas”, prossegue Marshall. “Mas eles não serão muito mais velhos. A descoberta de que a maioria das espécies hoje são relativamente jovens não deveria nos surpreender.”

No caso dos humanos, a conclusão de que a espécie tenha surgido entre 100 mil e 200 mil anos não encontra correspondentes arqueológicos --já que os registros são mais antigos, conforme lembra Marshall.

“Stoeckle e Thaler só disseram que seus dados eram ‘consistentes’ com a existência de um par fundador”, comenta o jornalista. “Isso não significa muito, e eles imediatamente admitiram que o mesmo padrão poderia ter surgido ‘dentro de uma população fundadora de milhares de pessoas que ficou estável por dezenas de milhares de anos’. O fato é que os dados genômicos não fazem um grande trabalho em revelar os tamanhos das populações passadas, exceto em termos gerais.”

Marshall frisa que “a população humana foi provavelmente muito pequena por um longo tempo, mas não há razão para pensar que eram apenas dois”.

Defensores

Mas há também quem defenda a interpretação criacionista do estudo.

“Todos os humanos vivos hoje são filhos de pai e mãe comuns --um Adão e Eva-- que habitaram o planeta de 100 mil a 200 mil anos atrás, que pelos padrões evolucionários é como ontem”, escreveu Michael Guillen, ex-professor da Universidade de Harvard e autor de livros famosos por misturar ciência e religião.

Mas Guillen também faz ressalvas. “Muitos comentaristas religiosos entendem mal este estudo (...). A descoberta de Stoeckle e Thaler é que algo aconteceu há cerca de 100 mil anos e que criou populações inteiramente novas de espécies existentes há muito tempo”, pontua.