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Como ímãs! Corpo humano é capaz de sentir o campo magnético da Terra

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O cérebro humano responde, de maneira inconsciente, a mudanças no campo magnético Imagem: iStock

Cristiane Capuchinho

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-03-19T14:35:12

19/03/2019 14h35

Aves migratórias e tartarugas marinhas são capazes de captar o campo magnético da Terra e essa informação é usado por seu sistema de GPS natural. Essa capacidade já foi bastante estudada e documentada em animais, mas até então não havia evidências de que os homens também tivessem a mesma habilidade.

Um grupo de geofísicos e neurobiólogos da Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia), da Universidade de Princeton e de Tóquio lançou-se a esse desafio e acaba de publicar as primeiras evidências de que o cérebro humano responde, de maneira inconsciente, a mudanças no campo magnético terrestre. Os pesquisadores consideram que isso pode ser uma herança dos nossos antepassados nômades.

Os pesquisadores acompanharam por eletroencefalogramas a atividade cerebral de 34 pessoas em busca de alterações quando houvesse mudanças no campo magnético de seu entorno. Os cientistas perceberam respostas na atividade cerebral após alterações no campo magnético para cerca de um terço dos indivíduos. O achado foi publicado na revista eNeuro.

Reprodução/Caltech
Imagem: Reprodução/Caltech

O estudo não responde se o comportamento humano é alterado pelas informações inconscientes que captamos sobre o campo magnético.

A pesquisa, no entanto, abre caminho para uma nova linha de investigação. Se formos realmente sensíveis ao campo 8magnético, os ímãs de fones de ouvido, por exemplo, ou as máquinas de ressonância magnética são capazes de alterar em algo nosso senso de direção?

Como foi feito o experimento

Para chegar a esse resultado, os cientistas fizeram um experimento com 34 adultos, entre homens e mulheres, com idades entre 18 e 68 anos. Participaram da experiência indivíduos de ascendência europeia, asiática, africana e indígena.

Os voluntários foram colocados sentados em um banco de madeira dentro de um caixa escura com paredes de alumínio que os protegiam de outros ruídos eletromagnéticos, como ondas de rádio. No espaço dessa caixa, os pesquisadores mimetizaram o campo magnético da Terra com o fluxo de correntes elétricas criado por bobinas ligadas às paredes que revestem a caixa.

Em alguns testes, o campo magnético foi mantido fixo em um dos pontos da caixa, em outros testes, o campo magnético era rotacionado, ou ainda ficava desligado -assim, o participante estava exposto apenas ao campo magnético natural de nosso planeta. Os participantes não sabiam de qual dos testes estavam participando.

Os pesquisadores encontraram dois tipos de mudanças no campo magnético da Terra que produziram "efeitos fortes, específicos e repetíveis na atividade das ondas cerebrais humanas" do tipo alfa de cerca de um terço dos participantes. Os testes foram feitos mais uma vez com as pessoas que tiveram respostas cerebrais às mudanças de campo magnético, e o mesmo resultado se reproduziu.

Os cientistas afirmam que "ao menos alguns homens modernos traduzem a alteração no campo magnético com força equivalente ao da Terra em respostas na atividade neuronal".

"Dada a presença conhecida de sistemas de navegação geomagnética altamente evoluídos em espécies de todo o reino animal, não é surpreendente que tenhamos mantido pelo menos alguns componentes neurais funcionais, especialmente dado o estilo de vida de caçador-coletor nômade de nossos não tão distantes ancestrais. A extensão total desta herança ainda precisa ser descoberta", concluem os cientistas no artigo.

Novos estudos são necessários

Em 2002, outra pesquisa usando eletroencefalogramas foi publicada, mas não conseguiu mostrar variação na atividade cerebral diante de mudanças no campo magnético. Joe Kirschvink, líder da pesquisa publicada agora, afirma que as técnicas de análise de dados usadas à época não eram capazes de detectar os efeitos percebidos em seu estudo.

"Eu acho que este artigo vai fazer bastante barulho", disse o pesquisador Peter Hore, da Universidade de Oxford, ao site da revista Science. O físico, que não participou do estudo, salienta que a "replicação independente é crucial" para validar a pesquisa.

Para Stuart Gilder, um geófísico da Universidade de Munique, que também não participou do estudo, a pesquisa é interessante e parece sólida. "Mas os resultados pedem novos testes para saber como diferentes forças no campo magnético e velocidade de rotação do campo afetam a atividade cerebral", disse Gilder à revista Science.

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