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Os astronautas deixaram sacos de cocô na Lua; por que deveríamos buscar

Caminhada de Buzz Aldrin, astronauta da Apollo 11, sobre a Lua carregando os equipamentos para fazer experimentos

Cristiane Capuchinho

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-04-09T14:00:32

2019-04-10T12:42:25

09/04/2019 14h00Atualizada em 10/04/2019 12h42

Resumo da notícia

  • Astronautas que deixaram na Lua dejetos como urina, fezes e vômito
  • Esse material foi abandonado porque deixaria a nave mais pesada
  • Agora, cientistas estão interessados em analisar tudo isso
  • Eles querem saber se micróbios presentes no cocô conseguiram sobreviver

Entre 1969 a 1972, a Nasa (agência espacial norte-americana) fez seis missões tripuladas até a Lua. Nessas idas e vindas, os astronautas deixaram na superfície lunar 96 sacos de dejetos humanos (fezes, urina, vômito). Sim, deixamos lixo para trás.

Os cientistas da Nasa estudam a possibilidade de recolher esse lixo na próxima missão lunar, que deve acontecer em cinco anos, segundo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. E isso não é por uma questão ambiental. O objetivo, informou o site de notícias Vox, é saber se existe algo vivo dentro deles -- calma, estamos falando de fungos e bactérias.

Sacos de lixo deixados para trás

A primeira coisa para entender a existência desses sacos de lixo é saber que os astronautas das missões Apollo tinham de defecar e urinar, dentro da nave, em coletores. Ou seja, não havia um banheiro como os da sua casa. Eles tinham um saco para as fezes e um coletor de urina. Quando estavam fora da nave, a solução era usar uma espécie de fralda espacial.

Em entrevista à Vox, o astronauta Charlie Duke, da Apollo 16, confirma o lixo abandonado. "Deixamos a urina que foi coletada em um tanque. E eu acredito que tivemos alguns movimentos intestinais -- mas não tenho certeza. E isso estava em alguns sacos de lixo. Nós pegamos alguns sacos de lixo e abandonamos na superfície lunar."

Esse lixo produzido durante os dias da viagem representava um peso adicional e desnecessário à nave em sua viagem de retorno à Terra. Como em todas as missões, os astronautas coletaram material lunar, como pedras e poeira, para ser analisada posteriormente. Por isso, era importante deixar para trás o máximo de peso possível.

Que vida poderia restar

Metade do material seco das fezes é composto por bactérias, e ali há centenas e até milhares de espécies diferentes de vida microbiana (além de bactérias, fungos e vírus).

Estudar se ainda há vida nesse material, deixado há cinquenta anos na superfície lunar, pode ajudar a entender em que condições extremas a vida é capaz de sobreviver.

A lua não tem atmosfera como a Terra, então os sacos que por lá ficaram estão sob forte radiação solar e enfrentam ainda temperaturas extremas, entre -170°C e 100°C.

O astrobiólogo Andrew Schuerger, da Universidade da Flórida, é um dos pesquisadores interessado nos sacos deixados sobre a lua. Em fevereiro, ele e outros colegas publicaram o artigo "Um modelo de sobrevivência microbial na lua para predizer a contaminação progressiva da Lua".

Schuerger afirmou à Vox que é grande a probabilidade de que nada tenha restado com vida. Esses sacos espaciais, porém, garantem alguma proteção ao material biológico. Por isso, o astrobiológico acredita que é dentro deles onde "há a maior probabilidade [de vida] dentro de tudo que ficou sobre a lua".

O astronauta Buzz Aldrin, um dos primeiros homens a pisar na Lua, reagiu ao artigo da Vox no Twitter e comentou que sente muito por quem encontrar a mala de dejetos dele.

Errata: o texto foi atualizado
09/04/2019 às 15h21
O astronauta Charlie Duke integrou a missão espacial Apollo 16, e não a Apollo 11.