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Brasileiro de 9 anos bola um coletor de lixo espacial e vence prêmio da ESA

Arquivo pessoal
Depois de receber prêmio da Nasa, João Paulo vence concurso da ESA Imagem: Arquivo pessoal

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

2019-05-14T04:00:00

14/05/2019 04h00

Premiado pela Nasa (agência espacial norte-americana), palestrante entusiasta da ciência, escritor e, agora, premiado pela ESA (Agência Espacial Europeia). Você acreditaria se eu dissesse que todo esse currículo pertence a uma criança?

Aos nove anos, João Paulo Guerra Barrera soma uma série de feitos na área da astronomia e educação. No mais recente deles, o estudante venceu o primeiro lugar no concurso de ciência da ESA para crianças, com um projeto sobre a limpeza do lixo espacial através de equipamentos coletores e recicladores. O resultado foi divulgado na última quinta-feira (9).

O jovem usou a criatividade e fez um desenho sobre que ele acredita ser uma boa solução para o problema da poluição no espaço. A iniciativa, pelo visto, agradou bastante os especialistas europeus e é mais um incentivo para o João, que tem o sonho de se tornar engenheiro espacial, engenheiro civil, cientista, inventor e astronauta (palavras dele).

"Estou muito feliz em ganhar mais um prêmio. Eu fiz o desenho porque descobri que tinha muito lixo em volta da Terra. Então criei essa máquina. Eu comemorei muito. Quer dizer, não comemorei muito por fora. Só falei assim "yes, consegui!'. Mas aqui por dentro está uma festa total", contou João ao UOL Ciência.

Arquivo pessoal
Desenho vencedor do prêmio da Agência Espacial Europeia Imagem: Arquivo pessoal

A jornada de João

A ideia dos equipamentos para limpar o lixo no espaço surgiu quando João escrevia o segundo dos três livros que fez. Pois é.

O escritor mirim publicou a sua primeira obra quando tinha seis anos. Na história, ele conta a aventura de três crianças que viajam até a Lua em um foguete feito de material reciclado. Tudo produzido em duas línguas, português e inglês-- João foi alfabetizado em inglês e aprendeu o português sozinho. Sua família morou nos Estados Unidos quando ele tinha entre 4 e 5 anos.

Podemos até brincar e dizer que João já está virando um especialista em vencer concursos realizados por agências espaciais. A premiação da ESA é a segunda no currículo.

Com sete anos ele foi considerado a pessoa mais jovem do mundo a receber um prêmio da Nasa, entregue em Saint Louis, Estados Unidos. Inspirado no próprio livro, João criou um joguinho sobre a aventura e conquistou o primeiro lugar na categoria mérito literário (que analisou o conteúdo escrito do game).

Arquivo pessoal
João também faz palestras para falar sobre o universo da ciência e da astronomia Imagem: Arquivo pessoal

Junto ao prêmio, João recebeu outros dois títulos: o mais jovem do mundo a discursar na Nasa e o primeiro brasileiro a vencer um concurso mundial da agência espacial norte-americana. Até uma palestra no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), uma das universidades mais importantes do mundo localizada em Boston (EUA), João deu.

Segundo a mãe, Margarida Guerra Barrera, todas as viagens do filho foram custeadas pela família. O deslocamento para as visitas em escolas públicas, em que o estudante realiza algumas palestras e distribui gratuitamente os seus livros, também fica por conta deles.

"E não foi por falta de procura. Já batemos na porta de várias grandes empresas e órgãos públicos. Eles sempre curtem muito a história do João Paulo, nos parabenizam, pedem para continuarmos com nosso empenho, e só. É sintomático que o João Paulo tenha tido reconhecimento no exterior com seu prêmio na NASA e na ESA", desabafou a mãe.

"Acaba sendo até compreensível, pois o Brasil é um país com histórico de negligenciar a educação infantil, tem uma cultura de não valorizar o mérito individual e um claro preconceito em não reconhecer talentos. Como dizia Tom Jobim, sucesso no Brasil é uma ofensa pessoal", acrescentou.

João Paulo discursa em inglês na sede da Nasa

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Criança sendo criança

Quem vê tantas conquistas, pode achar que o João é uma criança diferente das outras. Mas sua mãe faz questão de afirmar que é exatamente o contrário. Ele brinca, se diverte, joga futebol, gosta de viajar e de se aventurar.

"Minhas brincadeiras favoritas são pega-pega, futebol, videogame. Sou estudioso e curioso também", destacou o estudante. Uma de suas séries favoritas é a 'The Big Bang Theory'.

Barrera acrescenta que ela e o pai de João, Ricardo Barrera, não querem que o filho tenha rótulos como garoto prodígio, gênio, brilhante. Tudo o que eles querem é fazer com que o estudante mantenha os pés no chão e que sua dedicação possa inspirar outras crianças.

Por conta disso, a família não costuma perguntar ao João o que ele quer ser quando crescer. O foco da criação deve estar no presente e no que ele deseja fazer "no agora".

Arquivo pessoal
As brincadeiras favoritas de João são pega-pega, futebol e videogame Imagem: Arquivo pessoal

O estudante cursa o 5º ano do ensino fundamental na escola particular Concept e, segundo os seus professores, ele é uma criança sociável e que está sempre disposta a ajudar os outros. "A postura do João na escola é igual a de todos os alunos. Ele demonstra interesse por algumas áreas, mas a gente procura estimular outras áreas do conhecimento também", explicou Carolina Ursulino, professora dele neste ano.

"Ele não traz muito para a escola essa questão de dar palestras dos prêmios que ele ganhou. Ele sempre se mostra muito humilde", acrescentou.

Sobre a mais nova conquista de João, Barrera considera que é uma recompensa a dedicação do filho e ao comprometimento dele em fazer as coisas em que ele acredita. "Nós aprendemos com ele e ele conosco todos os dias."

Se depender de João, os próximos planos são criar um jogo sobre o seu segundo livro, escrever mais um e construir uma máquina do tempo. Morar em uma estação espacial também é outro grande objetivo.

''Vou continuar sendo muito curioso, brincar muito, estudar bastante e seguir a minha missão", concluiu João.

Entrevista dada por João quando ele tinha 7 anos

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