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Teste de personalidade pode reduzir devolução de gatos adotados em abrigos

Maria do Carmo/ Folhapress
Gato a espera de adoção na ONG Confraria dos Miados e Latidos Imagem: Maria do Carmo/ Folhapress

Rebecca Gompertz e Luiza Caires

Do Jornal da USP, em São Paulo

2019-06-11T15:08:58

11/06/2019 15h08

Resumo da notícia

  • Teste americano foi adaptado pelo Instituto de Psicologia da USP à realidade brasileira
  • Saber a personalidade do bicho pode tornar processo de adoção mais eficiente
  • Existe muita devolução de gatos adotados, e ela acontece em parte por problemas no comportamento

Quem tem gato costuma ter certeza de que seus amigos felinos possuem personalidades únicas, diferentes das de quaisquer outros membros da espécie. Embora personalidade seja um conceito historicamente ligado ao ser humano, a adaptação do teste norte-americano Meet your Match® Feline-alityTM acaba dando alguma razão a estes tutores: trata-se de um teste de personalidade destinado a classificar os animais e tornar o processo de adoção mais eficiente, promovendo o encontro de adotantes e felinos compatíveis.

Em sua pesquisa de mestrado, a psicóloga Naila Fukimoto realizou a validação do instrumento, relatando os resultados da aplicação do teste em 71 gatos do abrigo Catland, em São Paulo, e as adaptações necessárias para trazê-lo à realidade brasileira. "A maior diferença é que, nos EUA, os animais ficam em gaiolas individuais e aqui ficam soltos, em contato com outros gatos", explica Naila. Dessa forma, foi necessário adaptar todos os passos da avaliação que faziam referência aos animais presos.

Pode parecer exagero, mas Naila aponta uma boa razão - e na verdade, triste - para o uso de testes assim:

Existe muita devolução de gatos adotados. No abrigo que visitei, estimo que as devoluções estivessem entre 8 e 10%

As causas, segundo Naila, costumavam estar relacionadas a mudanças de casa, falta de adaptação do animal e problemas com o comportamento do gato adotado.

O estudo foi realizado no Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), sob a orientação da pós-doutoranda Olívia Mendonça Furtado. Os resultados estão descritos no artigo Modified Meet your Match® Feline-alityTM validity assessment: An exploratory factor analysis of a sample of domestic cats in a Brazilian shelter, publicado na Applied Animal Behaviour Science.

O teste consiste em avaliar os gatos em diferentes situações e pontuar suas reações. No original, a observação começa quando os gatos ainda estão nas gaiolas e continua em situações iniciadas pelos avaliadores, como a introdução a um novo espaço e a tentativa de acariciar e brincar com o animal. No teste brasileiro, a observação na gaiola foi trocada por observar o gato solto no abrigo.

Depois, a pesquisadora media a reação do animal quando ela se apresentava à sua frente. Nas etapas seguintes, o felino era levado a um novo espaço e era observado como ele se comportava na seguinte situação: se saía da caixa de transporte e se explorava o ambiente. A seguir, a pesquisadora chamava o gato e estendia a mão, depois tentava acariciá-lo, abraçá-lo e brincar com ele. A partir disso, os animais eram enquadrados em algumas dimensões de personalidade.

"Para humanos, conhecem-se cinco dimensões de personalidade, mas para gatos ainda não existe um número fechado. As pesquisas hoje já mostram até seis dimensões, mas não existe um consenso", diz Naila.

O Meet your Match® mede duas dessas dimensões do gato:

  • o quão gregário (habilidade para viver em bando)
  • o quão valente

Entretanto, na validação brasileira, foram encontradas três dimensões:

  • agreeableness, que é o comportamento mais afetuoso e amigável;
  • openness, que é o quanto o animal se abre em novas situações;
  • extroversão, que mede se ele é mais curioso e ativo

Personalidade animal

Essa área de pesquisa surgiu recentemente, nos últimos 15 anos, mas entre os pesquisadores de comportamento animal já se trata de um consenso: os animais podem, sim, possuir personalidades - ou síndromes comportamentais, como alguns preferem chamar.

"Os estudos de personalidade em animais de companhia estão muito focados em melhorar o bem-estar desses indivíduos, possibilitando adoções mais conscientes", conta Olívia, orientadora de Naila.

As pesquisas estão em fase de expansão, mas ainda são poucas. Por enquanto, estudos como o de Naila ainda são uma das poucas alternativas que viabilizam que as adoções em abrigos se baseiem em mais do que apenas a aparência do animal, considerando também a compatibilidade do adotado e do adotante.

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