Nos EUA, pesquisadores treinam amadores para buscar fósseis de dinossauros

David Mark Simpson

Na Pastagem Nacional Comanche, Colorado (EUA)

  • Matthew Staver/The New York Times

Em uma manhã seca e fria nas pastagens no sul do Colorado, Bruce Schumacher conduzia um grupo de voluntários da AmeriCorps (programa de serviços comunitários da sociedade civil, apoiado pelo governo federal) a cruzarem o estreito e raso Rio Purgatoire até uma saliência deslocada na paisagem.

Ele afastou com suas mãos a terra solta avermelhada, revelando um osso do tamanho de um forno de micro-ondas –um membro de um dinossauro saurópode, disse Schumacher, um paleontólogo. Os voluntários ficaram surpresos pelo fóssil estar assim exposto, desprotegido. Dois deles brincaram sobre voltar à noite para arrancá-lo do solo.

A duas horas de carro por uma estrada de terra, longe de serviço de celular ou qualquer outro sinal de vida humana, Picketwire Canyon é um sonho para os amantes de dinossauros, em grande parte por causa das centenas de pegadas de saurópodes ou terópodes do tamanho de calotas deixadas na camada próxima de calcário que margeia o rio.

Schumacher, 48 anos, que vive em La Junta, Colorado, é um dos dois paleontólogos de campo empregados pelo Serviço Florestal dos Estados Unidos. Eles são responsáveis pela proteção e promoção dos fósseis de dinossauros espalhados pelos 78 milhões de hectares de responsabilidade da agência, principalmente nos Estados das Montanhas Rochosas.

O sítio de fóssil ao qual Schumacher conduziu os voluntários é apenas um dos muitos na Formação de Morrison, camadas de rocha que revestem mesas de 30 metros de altura ao longo do desfiladeiro. O sítio foi descoberto meses atrás, mas como há ossos de dinossauro demais e muito poucas pessoas para escavá-los, eles foram reenterrados, para protegê-los de ladrões e dos elementos. Por meses, esses ossos permaneceram não perturbados na pastagem, como um tesouro enterrado.

Os dois administradores dos ossos de dinossauros do Serviço Florestal são superados em número pelos aproximadamente 350 paleontólogos empregados para administrar os vestígios de vida humana, apesar dos dinossauros terem estado presentes por muito mais tempo que os seres humanos.

"Tudo remonta às leis e a antropocentricidade dessas leis", disse Schumacher sobre a disparidade.

A Lei Nacional de Preservação Histórica exige proteção rígida das estruturas humanas construídas há 50 anos ou mais em terras federais. Com essa exigência vem os fundos para os paleontólogos. Apesar de Schumacher e seu par do Serviço Florestal trabalharem com pesquisadores acadêmicos e museus, que fornecem fundos adicionais para a proteção dos fósseis, não há lei que proteja igualmente os recursos paleontológicos.

Assim, para levar os ossos de dinossauros de Picketwire Canyon aos museus e cientistas, Schumacher desenvolveu uma estratégia criativa. Duas vezes por ano, por uma semana a cada vez, esses ossos e pegadas são escavados por um grupo de cerca de duas dúzias de voluntários, muitos na faixa dos 70 e 80 anos, aos quais Schumacher vem treinando nos últimos 15 anos.

Devido à popularidade do programa, ele não mais o anuncia. A maioria dos voluntários retorna de modo devotado a cada projeto e se transformou em uma equipe altamente capacitada.

Durante a primeira semana deles, em 2001, os voluntários procuraram ao longo das beiradas mais baixas das paredes do desfiladeiro que emolduram o vale, à procura dos fósseis branco-azulados que se destacam entre as rochas marrons e cinzentas e entre a relva amarela –"desenvolvendo seu olhar para ossos", como chama Schumacher.

Até o penúltimo dia, eles não tinham encontrado nada. Então, um voluntário retirou de sua mochila uma madeira petrificada que trouxe para mostrar aos seus colegas abatidos.

"Isso não é madeira", Schumacher lembrou de ter dito ao voluntário, que conduziu a equipe até o local onde encontrou o fóssil.

Lá, ao longo das várias sessões seguintes, a equipe passou uma semana ou duas por ano desenterrando um camarassauro que batizaram de Woody (amadeirado). Ao todo, eles encontraram cerca de 15% do esqueleto, atualmente em exposição no Museu Sternberg de História Natural na Universidade Estadual de Fort Hays, no Kansas.

A maioria dos voluntários é de amadores interessados em paleontologia, como um açougueiro aposentado, uma secretária aposentada de uma empresa de petróleo e gás e um engenheiro aeroespacial aposentado. Alguns saíam à procura de fósseis por conta própria antes de descobrirem o programa. Outros estavam à procura de oportunidades de trabalho voluntário pós-aposentadoria, que envolvesse viagem; muitos trabalharam em projetos arqueológicos semelhantes ao redor do mundo.

Ruthann White, 80 anos, diz se recordar de voltar correndo, arrepiada, ao que chamou de seu osso –um grande osso pélvico parecido com uma costeleta de porco– após meses fora. Ela participou de 23 das 24 expedições do grupo.

Ossos maiores costumam exigir várias semanas de trabalho tedioso, divididos em várias sessões, à medida que os voluntários os desprendem delicadamente da argila ou xisto limoso.

Em outubro de 2014, deitado de lado usando um chapéu de safári, o marido de White, Allen, 80 anos, escovava cuidadosamente a terra de um osso alojado na parede da Pedreira de Riverside. Perto dali, um voluntário chamado Leroy Frazier, 62 anos, (placa do carro, BONEDGR, "escavador de ossos") montava cuidadosamente o que parecia uma vértebra do tamanho de uma bola de futebol americano. "Este é o quebra-cabeça dominical", ele disse, rindo.

Rio acima da pedreira, em outro dia de procura por dinossauros, voluntários menos experientes passavam vassouras pelo leito seco de calcário do rio. Em intervalos de dois minutos, alguém descobria novas pegadas deixadas por terópodes (carnívoros bípedes cujas pegadas mostram três dedos como garras) ou saurópodes (herbívoros que caminhavam em quatro patas, deixando pegadas circulares como caldeiras).

As pegadas se estendem por metros, desaparecendo e reaparecendo ao longo dos anos, à medida que as cheias e o rio alteravam a paisagem. "Este é considerado o sítio mais longo de pagadas na América do Norte", disse Schumacher, acrescentando que com as recentes descobertas por seus voluntários, pode ser a maior coleção de pegadas do mundo.

Um trator do Serviço Florestal escavou a terra no leito do rio, deixando cerca de 15 centímetros de terra para serem removidos mais gentilmente pelos voluntários.

Matthew Staver/The New York Times
'Ei, Gordo'

As pegadas de terópodes no leito do rio seguem, e às vezes se sobrepõem, às dos saurópodes. Por esse motivo, alguns no sítio especulam que as pegadas podem significar uma caçada: terópodes perseguindo suas presas saurópodes.

"Foi aqui onde o grandão começou a ficar em apuros", disse Sonny Fernandez, 77 anos, descansando ao lado das pegadas de saurópode que vão ficando mais fundas a cada passo e parecem se inclinar de modo errático para a esquerda. "Todos aqueles jovens o vendo se aproximando disseram, 'Ei, gordo'."

Todos os sinais sugerem que esse rastro significativo continue muito além da berma de terra onde os voluntários pararam no final da semana. E a recente descoberta pelo grupo dos rastros de saurópodes adultos ao lado de pegadas antes não descobertas de saurópodes jovens apoia uma teoria emergente de que esses dinossauros viajavam em família.

Mas as pegadas ainda enterradas quase certamente permanecerão em mistério até o retorno dos voluntários. Felizmente para a saúde mental do dr. Schumacher, ele não tem pressa em ver expostas as pegadas de 150 milhões de anos. Mesmo assim, ele diz que com mais recursos, o Serviço Florestal poderia reproduzir o tipo de programas educativos atualmente existentes.

No sítio, os voluntários escavavam com empolgação o paredão posterior, na esperança de descobrir o que aconteceu com o saurópode que se inclinava de forma errática. Como o animal parecia ter perdido o equilíbrio, estava ficando mais difícil determinar onde estavam suas próximas pegadas.

"Vocês dinossauros precisam se endireitar", se dirigiu o sr. Fernandez, de pá em punho, a uma pilha de terra cobrindo o rastro.

O dr. Schumacher admirava uma pegada profunda e se perguntava sobre as demais além do alcance dos voluntários, sob a berma.

"Os ossos no paredão posterior são sempre os mais interessantes", ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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