Cientistas afirmam que parasitas podem trazer benefícios

  • Christopher Silas Neal/The New York Times

    Alguns pesquisadores argumentam que espécies que vivem dentro de hospedeiros são inimigas causadoras de doenças. Erradicá-las é um erro potencialmente prejudicial

    Alguns pesquisadores argumentam que espécies que vivem dentro de hospedeiros são inimigas causadoras de doenças. Erradicá-las é um erro potencialmente prejudicial

O kakapo (ou papagaio-mocho), espécie que não voa e pode viver 95 anos, corre perigo extremo de extinção. Antes encontrado em toda a Nova Zelândia, a população caiu para menos de 150 indivíduos.

Biólogos da conservação estão fazendo tudo ao seu alcance para impedir seu desaparecimento. E, assim, quando descobriram anos atrás que um casal de kakapos cativos estava infectado com tênias, fizeram a coisa óbvia: deram vermífugo às aves.

Hamish G. Spencer, geneticista da Universidade de Otago, Nova Zelândia, achou que isso não foi sensato. Ele acredita que, para uma espécie ameaçada sobreviver à extinção, talvez parasitas sejam necessários.

"Alguns desses parasitas se revelam muito bons para seus hospedeiros", disse Spencer.

Nós costumamos pensar que as espécies que vivem dentro de hospedeiros são inimigas causadoras de doenças. Isso pode ser verdade, mas somente até certo ponto. Estudos médicos demonstraram que os humanos desenvolveram uma relação íntima, talvez até necessária, com muitos desses hóspedes.

Cinco décadas atrás, pesquisadores começaram a achar indícios positivos nos parasitas. Em 1968, por exemplo, Brian M. Greenwood, da Faculdade de Higiene e Medicina Tropical de Londres, observou que pessoas na Nigéria tinham níveis mais baixos de artrite e outras doenças ligadas à imunidade do que os moradores da Grã-Bretanha. Ele sugeriu que a infecção crônica com vermes intestinais ou outros parasitas moderavam o sistema imune nos nigerianos, reduzindo o risco de que os próprios tecidos do organismo fossem atacados.

Provas se acumularam ao longo das décadas para o que veio a ser conhecida como a hipótese da higiene. Defensores argumentam que nos últimos dois séculos, a civilização moderna mudou radicalmente o relacionamento com nossos moradores internos.

Equilíbrio biológico

Durante milhões de anos, nossos corpos em evolução tinham de alcançar um equilíbrio complicado. Dependemos de um sistema imune poderoso para repelir infecções mortais. Porém, se o sistema imune atacasse indiscriminadamente, poderíamos destruir as bactérias benéficas do corpo, por exemplo, ou danificar seus tecidos com inflamações.

Segundo a hipótese higiênica, nossos ancestrais passaram a tolerar níveis baixos de infecção. Eles até mesmo passaram a depender de parasitas para auxiliar o sistema imune a se desenvolver apropriadamente.

Isso não quer dizer que os parasitas se tornaram um bem perfeito. Nossa relação com eles é, pelo contrário, uma troca complicada.

Ter vermes pode significar ter menos alergias durante o crescimento, mas também poderia dificultá-lo. Ninguém garantiu que funcionaria muito bem"

Marlene Zuk, bióloga da evolução da Universidade de Minnesota

No século XIX, esse relacionamento antigo mudou. Graças à comida e à agua limpas, um número crescente de pessoas estava livre dos parasitas. A Revolução Industrial também tirou as pessoas do interior, assim elas passaram a ter menos contato com a terra e os animais com parasitas. Elas vivenciaram menos infecções com vírus, bactérias e vermes intestinais.

Defensores da hipótese da higiene defendem não ser uma coincidência as pessoas dos países desenvolvidos também começarem a ter mais alergias, asma, doença de Crohn e outros distúrbios ligados à imunidade.

Em texto para o periódico "Trends in Ecology and Evolution", Spencer e Zuk assinalam que o que é verdade para os humanos pode muito bem ser verdade para outros animais. Segundo eles, os biólogos da conservação podem estar realizando um experimento – sem ter consciência disso – com as espécies que tentam salvar da extinção.

Na natureza, um animal saudável pode estar lotado de vermes intestinais e outros habitantes. "Tudo tem parasitas e, geralmente, várias espécies de parasitas vivem em todos os tipos de lugares", disse Spencer.

Elo entre hospedeiros e parasitas

Para cuidar de populações reprodutoras cativas, os biólogos geralmente tratam as infecções com medicação agressiva. Embora tais tratamentos possam salvar as vidas de alguns animais, eles também podem ter um efeito negativo. Remédios agressivos podem pôr em risco animais cativos ao remover parasitas que auxiliem seus sistemas imunológicos a se desenvolverem normalmente. E, no entender de Spencer e Zuk, tais animais podem terminar despreparados para doenças que talvez encontrem caso sejam devolvidos à natureza.

A história humana demonstrou como isto pode ser perigoso. Por exemplo, os colonos europeus levaram a varíola e outras doenças a populações distantes.

Na natureza selvagem, uma espécie pode recuperar o antigo relacionamento com seus parasitas, mas a intervenção humana agressiva também pode romper para sempre alguns elos entre hospedeiros e parasitas.

"Acontece que se você examinar os organismos, descobre que um número surpreendente deles têm parasitas que somente ocorrem naquelas espécies ou talvez naquela espécie e em algumas de seus parentes próximos, e só", disse Spencer.

Tratar animais cativos com infecção pode ajudar a acabar mais rapidamente com esses parasitas e, com eles, o mecanismo que as espécies ameaçadas precisavam para ajustar seu sistema imunológico.

A extinção parasítica não é apenas uma possibilidade teórica. Quando biólogos da Califórnia colocaram todos os condores californianos vivos em cativeiro na década de 1980, terminaram erradicando o "Colpocephalum californici", espécie de piolho encontrado somente nessas aves.

Spencer suspeita que nós exterminamos outros parasitas sem perceber. Ninguém sabe que espécies de solitária estavam infectando o kakapo, mas o uso do vermífugo pode ter resultado na sua extinção.

Para Spencer, é possível que a falta de parasitas possa ajudar a explicar por que alguns projetos de restauração de espécie foram decepcionantes. "Existem vários casos onde as populações reintroduzidas não se saíram muito bem. Pode ser que seu sistema imune não estivesse bom."

Albrecht I. Schulte-Hostedde, diretor do Centro para Ecologia Evolutiva e Conservação Ética da Universidade Laurenciana, no Canadá, afirmou que era importante que biólogos da conservação e veterinários levassem em consideração a perspectiva evolutiva, mas disse que seria difícil modificar suas atitudes.

"Será uma proposta complicada", concluiu.

Mesmo que essas atitudes mudem, os pesquisadores ainda precisam aprender mais sobre os parasitas para administrá-los.

"Eu admito irrestritamente que se trata de uma perspectiva hercúlea, mas temos de começar de algum lugar", disse Zuk.

De acordo com Spencer, um primeiro passo seria parar de medicar animais cativos com tanta intensidade. "Contestamos a ideia que se deva exterminar tudo antes de devolver os animais à natureza."

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