Entrevista: A luta e a vida nômade da mulher que virou "estrela" da ciência

Gina Kolata

  • Karsten Moran/The New York Times

    Emmanuelle Charpentier, uma dos três cientistas que receberam o crédito de começar a revolução da edição dos genes, em Nova York

    Emmanuelle Charpentier, uma dos três cientistas que receberam o crédito de começar a revolução da edição dos genes, em Nova York

Emmanuelle Charpentier -- uma dos três cientistas que receberam o crédito de começar a revolução da edição dos genes -- entregou de bom grado sua vida à ciência. Durante 25 anos, ela foi uma nômade científica, trabalhando em nove instituições em cinco países, correndo atrás de financiamento, recebendo tão pouco que mal e mal dava para viver. Agora, aos 47 anos, com sua descoberta da edição genética, sua vida mudou.

O processo envolve um sistema bacteriano, Crispr/cas9, que pode ser utilizado para acrescentar ou apagar genes em qualquer tipo de célula. A descoberta gerou uma revolução científica com uma lista aparentemente infinita de aplicações.

Por exemplo, Emmanuelle gostaria que ela fosse usada para remover o gene mutante nas células de sangue das pessoas com anemia falciforme e trocá-lo por um gene normal, curando a doença. Outros empregos incluiriam tornar insetos nocivos incapazes de se reproduzir e criar plantas que resistam naturalmente a doenças.

Emmanuelle, agora uma superestrela científica, foi designada diretora do Instituto Max Planck de Biologia Infecciosa, em Berlim, e é fundadora de duas empresas de biotecnologia.

Nós conversamos enquanto ela estava em Nova York para receber uma homenagem da Universidade de Nova York. Esta é uma versão editada e condensada de nossa conversa.

A senhora diz que sempre amou a ciência. Mas por que uma vida tão itinerante?

Foi a carreira que escolhi ter. O que era importante para mim era atacar campos diferentes e ver instituições diferentes, ambientes diferentes, aprender técnicas diferentes, ver abordagens diferentes. E, na Europa, não é fácil ter uma posição permanente, principalmente quando se é estrangeira em outro país.

A senhora ficava incomodada com a incerteza de tudo?

Decidi que a ciência seria o foco principal da minha vida. É mais ou menos como entrar em um mosteiro. É realmente isso que motiva. Você tende a se concentrar e a ser obsessivo -- é preciso ser meio obcecada.

Nos quatro meses em que a senhora mora em seu novo apartamento em Berlim, ainda não abriu as caixas da mudança e nem cozinha. Já se perguntou se tomou a decisão certa?

Quer saber por que dediquei minha vida a isto? Assumi vários riscos, e assumi o risco de fracassar. E fiz isso em uma época em que as pessoas queriam saber se eu tinha certeza do que fazia. Não é muito fácil porque você sempre se pergunta se está fazendo a escolha certa. Eu vivo me perguntando: "Onde é que estou, o que consegui, para onde vou?".

Conte sobre suas grandes descobertas do Crispr. O que a senhora sentiu no momento em que seus estudantes lhe disseram que os experimentos cruciais deram certo?

Houve dois momentos. Primeiro, houve um experimento que foi muito crítico. Ele demonstrava que o Crispr/cas9 consistia em uma proteína e duas moléculas de RNA. Existem sistemas Crispr diferentes, e eu entendi de imediato que o sistema em que estava trabalhando era certamente o sistema mínimo e que seria muito atraente dominá-lo.

Eu estava em Umea, Suécia, e meus estudantes estavam em Viena. Naquela noite, um deles me mandou um e-mail. Eu estava sozinha na minha sala, mas em algum momento, saí e um colega meu estava ali.

Eu disse: "Recebi uma notícia muito boa e estou muito contente". Depois, voltei e passei um bom tempo escrevendo um e-mail para meus alunos com uma série de experiências que tinham de ser feitas a seguir.

O segundo momento foi ainda mais emocionante. Nós fizemos um experimento que mostrava o Crispr/cas9 separando o DNA. Isso era realmente crítico. Era a mesma história. Meu estudante mandou um e-mail. Eu liguei na hora para ele.

Desta vez, era novamente à noite e eu estava na minha sala, mas havia outras pessoas no laboratório. Corri e contei para os outros que estavam ali. Depois me sentei e escrevi o que fazer a seguir.

Era difícil ser uma mulher cientista?

É mais difícil para as mulheres que têm família. Eu tenho a impressão de que muitas cientistas mulheres, quatro ou cinco anos depois do doutorado, desistem de tudo. Elas têm dificuldade em projetar uma vida familiar quando estarão indo de laboratório em laboratório, pelos próximos dez ou 15 anos.

Acho que isso também está ligado à falta de ambição e ao desejo de ter um emprego mais regular. O diferente não é que as pessoas vão de laboratório em laboratório, mas que talvez minha geração estivesse pronta para lidar com as dificuldades.

Eu também achava que ao entrar no jogo como uma mulher na ciência, você sempre sente que alguns colegas estão comentando. Digamos que ninguém irá perdoar você -- o fato de que não pode falhar, mas pode ter uma fase meio negativa. Você sente que, como mulher, sempre tem de ser precisa.

A senhora se preocupava que essa vida continuaria até a velhice? Por quanto tempo manteria o pique?

Eu via ao meu redor cientistas que chegaram a um ponto em que podiam negociar um bom salário e até mesmo alguns fundos adicionais. Vendo os outros colegas, eu pensava: "Por que não? Talvez dê certo para mim".

A senhora ainda faz experiências? No que consiste seu trabalho?

Eu não faço experiências, mas coordeno o laboratório, então acompanho os projetos muito de perto. Também viajo uma ou duas vezes por semana, pela Alemanha ou para o exterior. Agora, meu trabalho tem muito a ver com responder a pedidos via e-mail, e existem muitos documentos -- preciso cuidar de muita papelada. Também escrevo artigos e análises.

Fale-me sobre as empresas de biotecnologia que a senhora ajudou a fundar, Crispr Therapeutics e ERS Genomics. Por que duas firmas?

Eu tinha a esperança que poderia usar o Crispr para distúrbios genéticos humanos. A Crispr Therapeutics está trabalhando primeiro em fibrose cística e anemia falciforme, e certos tipos de doenças oculares. São coisas mais receptivas porque envolvem o gene em células do sangue e células dos olhos, que são mais acessíveis de selecionar.

A outra é a ERS Genomics, uma empresa que é uma plataforma de licenciamento para permitir que outras companhias tenham acesso à propriedade intelectual.

Como é a sua vida agora?

Eu gosto de começar cedo, mas também trabalho até tarde. Raramente me deito antes da meia-noite. Agora, tenho uma tendência muito ruim de acordar no meio da noite e trabalhar. Às vezes, depois volto a dormir por mais uma hora. Não disponho de tempo para ter vida social nem cultural.

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