Gorilas em cativeiro criam dilema para primatologistas

Natalie Angier

Criança pula em jaula de gorila e é arrastada

Harambe, o gorila-ocidental de 17 anos morto no Zoológico de Cincinnati no final do mês passado, depois que um garoto de três anos caiu dentro de sua jaula, pode não estar mais aqui fisicamente, mas teve seus tecidos colhidos para pesquisa e seu esperma extraído para ajudar a diversificar o patrimônio genético da reprodução em cativeiro.

No entanto, o gorila de 200 quilos deixa outro animal metafórico para trás, levantando questões que vão muito além das particularidades do caso, incluindo a dúvida se o zoológico ou a mãe do menino deveriam ser culpados pela morte de Harambe.

Para os primatologistas e conservacionistas que devotam suas vidas ao estudo dos grandes macacos e fazem o que podem para proteger as populações de primatas que estão desaparecendo rapidamente na natureza, um intrincado conjunto de dilemas práticos e éticos é motivo de muita preocupação.

À medida que a pesquisa continua a revelar a amplitude de nosso parentesco genético, emocional e cognitivo com os quatro grandes macacos – gorilas, chimpanzés, bonobos e orangotangos – muitos primatologistas admitem que se sentem pouco confortáveis ao ver um macaco em cativeiro, mesmo que sua área no zoológico seja luxuosa ou "natural".

"Quando vou a zoológicos, preciso desligar meus sentimentos e dizer a mim mesma que estou em um museu, admirando as obras de arte da natureza. De outra maneira, não posso realmente justificar a manutenção de grandes macacos em jaulas", afirma a primatologista Sarah Blaffer Hrdy, professora emérita da Universidade da Califórnia em Davis.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores reconhecem que os macacos nos zoológicos de hoje, pelo menos no mundo industrializado, todos nasceram e foram criados no cativeiro e seriam tão capazes sobreviver se fossem "libertados" nas florestas da África ou da Indonésia quanto um turista em um safári.

Ainda assim, apesar de os primatologistas concordarem que as pessoas têm a obrigação moral de cuidar dos milhares de macacos hoje cativos que podem viver até mais de 60 anos, eles possuem opiniões diferentes sobre como esses cuidados devem ser.

Catherine Hobaiter, da Universidade St. Andrews da Escócia, que estuda chimpanzés em Uganda, descreve a reação dos gorilas do zoológico que foram criados em jaulas fechadas quando finalmente o zoo abriu um anexo ao ar livre na exibição.

Foi doloroso ver. Com uma chuvinha de nada, os gorilas já estavam querendo voltar para dentro. Eles tinham medo de ficar molhados

Hobaiter

Barbara Smuts, primatologista de renome da Universidade de Michigan, recentemente distribuiu uma petição pedindo que outros gorilas do Zoológico de Cincinnati sejam realocados para santuários e fiquem longe dos olhares e dos gritos das multidões.

Os pesquisadores também discordam sobre se deveríamos ou não continuar a reproduzir macacos em cativeiro e, se sim, para que fim. Alguns especialistas acreditam que zoológicos bem projetados têm um papel educacional essencial, e que a exposição a um macaco de carne e osso pode ser uma experiência transformadora, especialmente para crianças.

"Eu me lembro de ir ao Zoológico de Milwaukee quando era criança e ver os gorilas. Fiquei extasiado. É como uma droga. Você não consegue esse tipo de ligação emocional com um filme no IMAX", conta Peter Walsh, antropólogo biológico da Universidade de Cambridge que trabalha com conservação de gorilas na África.

Outros ridicularizam a maioria dos zoológicos como pouco mais do que parques de diversão com placas que poucas pessoas se dão ao trabalho de ler.

"Não há nenhuma evidência real de que os macacos em cativeiro estão tendo qualquer efeito positivo para seus parentes na natureza", diz Marc Bekoff, ecologista comportamental e professor emérito da Universidade do Colorado. Quanto à educação, afirma ele, "uma das lições mais maravilhosas e educativas que já vi foi uma exibição de caramujos no Zoológico de Detroit".

Peter Singer, especialista em bioética da Universidade Princeton, explica:

Nossa preocupação principal precisa ser com o bem estar dos gorilas, mas os zoológicos são construídos de modo contrário. A preocupação principal deles é que os humanos possam ver os animais

Quaisquer que sejam suas opiniões sobre os zoológicos, os primatologistas se desesperam com as estatísticas chocantes dos macacos na natureza.

De acordo com a Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), todas as espécies e subespécies de macacos selvagens estão classificadas como ameaçadas ou criticamente ameaçadas e, em todos os casos, as tendências apontam para uma queda implacável no número de animais. Os macacos estão sendo mortos por caçadores, para o comércio de carne, pela destruição do habitat e por doenças.

Em Sumatra e Bornéu, as florestas foram destruídas para dar lugar às plantações de óleo de palma, com consequências devastadoras para os orangotangos. Desde os anos 1990, 80 por cento dos gorilas das planícies orientais da África Central morreram de ebola.

Recentemente, mesmo entre os famosos chimpanzés de Jane Goodall da floresta Gombe, na Tanzânia, a atividade humana reduziu a população em quase 40%.

Pelas contas da Lista Vermelha, o número total para todos os macacos selvagens chega a 350 mil indivíduos, bem abaixo dos valores da era pré-moderna que são estimados em milhões.

Também não ajuda, afirma Walsh, da Universidade Cambridge, que a preocupação do público sobre o ambiente esteja agora focada quase que exclusivamente nas mudanças climáticas. "Eu sinto vontade de gritar: 'Ei, pessoal, poderíamos acabar com as mudanças climáticas amanhã e ainda estaríamos enfrentando a maior crise de extinção que já vimos'."

Há uma razão pela qual os humanos e os grandes macacos foram colocados juntos pela taxonomia na superfamília Hominidae. Nós nos separamos dos outros macacos apenas cerca de sete milhões de anos atrás. O DNA de um chimpanzé é aproximadamente 98% análogo ao nosso.

Os macacos usam e produzem ferramentas avidamente. Os chimpanzés fazem varas para pescar insetos em cupinzeiros e caçar macacos escondidos em buracos de árvores. Os orangotangos podem aprender a remar um barco e virar panquecas em uma frigideira.

Em observações feitas no Zoológico de Praga, Khalil Baalbaki assistiu gorilas transformarem caixas vazias em uma série de objetos domésticos: mesas, cadeiras, degraus para alcançar mais alto, bandejas para carregar sua comida e armas para serem jogadas em uma luta. Uma gorila extraiu o revestimento de madeira de uma caixa para fazer um par de chinelos e proteger os pés antes de se aventurar na neve.

Segundo uma meta-análise de estudos de inteligência, a média dos macacos possui habilidades cognitivas, quantitativas e espaciais de uma criança de 2,5 a quatro anos. Ainda assim, o laboratório Tetsuro Matsuzakawa no Japão mostrou que uma chimpanzé excepcionalmente esperta chamada Ayuma era duas vezes melhor do que qualquer estudante universitário na hora de lembrar números que apareciam em uma tela.

Os grandes macacos também exibem diferenças básicas no temperamento. David Watts, primatologista da Universidade Yale que estudou chimpanzés e gorilas na natureza, descobriu que enquanto os chimpanzés geralmente não gostam das pessoas ou não demonstram muito interesse por seus assuntos, os gorilas são profundamente curiosos.

"Rapidamente descobri que os gorilas não apenas queriam me tocar como subir em cima de mim", conta ele. Em um incidente famoso, uma gorila colocou a mão dentro da camisa de uma primatologista e começou a apalpá-la.

Essa curiosidade inata, dizem os pesquisadores, pode explicar parte do comportamento de Harambe visto no vídeo de seu encontro fatal com a criança que caiu em sua jaula – ele brincou com as roupas do menino e deu uma espiada enquanto puxava as calças do garoto para cima. Ele tentou enfiar a criança em uma gruta, talvez para protegê-lo ou para ter o fascinante e novo companheiro de brincadeiras só para si.

Mas, com o aumento da comoção e os gritos das pessoas que estavam olhando, explicam os pesquisadores, Harambe ficou agitado e rapidamente assumiu a postura de um gorila macho demonstrando dominância.

"É o que chamamos de pavonear-se, e gorilas machos fazem isso o tempo todo", diz Watts. "Um gorila desses pode se levantar e andar em círculos com os braços e as pernas rigidamente estendidos, seus pelos eriçados, para parecer maior e mais impressionante. Harambe estava definitivamente fazendo isso quando chegou perto do menino."

Esse comportamento é, na maior parte das vezes, brincadeira: se Harambe tivesse a intenção de matar o menino, explica Sarah Hrdy, como um gorila intruso macho pode matar filhotes de outros machos que ele acabou de depor – para mais rapidamente reivindicar as fêmeas para si – "ele o teria feito em segundos", provavelmente com uma mordida no crânio.

De qualquer maneira, o comportamento tinha riscos, especialmente quando Harambe começou a arrastar o garoto por seu recinto, como gorilas em exibições às vezes fazem com grandes galhos.

Watts, que conta ter sido "furado, derrubado e arrastado" por gorilas machos, mas nunca gravemente ferido, gostaria de ter estado no Zoológico de Cincinnati quando a crise aconteceu. Ele teria voluntariamente entrado na jaula e assumido uma posição fetal submissa no chão para atrair a atenção do gorila e fazer com que ele largasse o menino. (Ele admite que é mais fácil falar depois que tudo aconteceu.)

O visual e a lógica dos zoológicos mudaram drasticamente ao longo do tempo. Quando os primeiro primatas foram exibidos no Ocidente, no final do século XVIII, eram vistos como troféus, evidência da vitória imperial sobre a selvageria. Os souvenires infelizes normalmente morriam alguns meses depois da chegada, de doenças e desnutrição.

À medida que os zoológicos procuraram melhorar a saúde dos macacos que abrigam, as jaulas frequentemente assumiam uma configuração de suave esterilidade, sem folhagens e brinquedos que pudessem apresentar riscos. Essa abordagem também causou problemas como tédio, comportamentos repetitivos e depressão.

Mais recentemente, a maioria dos zoológicos tem trabalhado duro para dar aos macacos o estímulo mental e emocional que precisam, com pneus para balançar, pedras para subir, grupos sociais para sessões de asseio mútuo e ataques contagiantes de riso e de bocejos.

Frans de Waal, da Universidade Emory e do Centro Nacional de Pesquisas de Primatas Yerkes, diz que é um "grande fã" da qualidade dos zoológicos, talvez não para animais grandes e gregários como baleias assassinas e elefantes. "Mas para os grandes macacos, o que temos agora é excelente", afirma.

Sua saúde é boa, eles se reproduzem facilmente em cativeiro e vivem dez ou mais anos a mais do que seus colegas na natureza. Na verdade, a primeira gorila que nasceu em cativeiro, chamada Colo, ainda está viva no Zoológico de Columbus, Ohio, de onde tirou seu nome. Ela vai fazer 60 anos em dezembro, um aniversário que a tataravó não celebrou, dizem os funcionários do zoológico, usando o adorável avental e o chapéu de palha com que seus tratadores costumavam vesti-la quando era jovem.

De Waal diz que hoje é muito mais fácil manter os macacos felizes e entretidos.

Eles gostam de mexer em computadores. Quando você traz uma tela sensível ao toque, ficam animados, e é uma ótima maneira de ensinar ao público como são inteligentes

Mas o que o público precisa aceitar, diz ele, é que a noção de jardins zoológicos como viveiros para o repovoamento de populações selvagens de animais em risco de extinção se provou uma fantasia em praticamente todos os casos, com a notável exceção da bem sucedida reintrodução do mico-leão-dourado criado em cativeiro na mata atlântica da América do Sul.

Por outro lado, quando o aristocrata britânico Damian Aspinall soltou 11 de seus gorilas criados em cativeiro na selva do Gabão no ano passado, cinco foram mortos de modo violento, possivelmente por um gorila local, e os outros desapareceram.

Ainda assim, os críticos dizem que a vida no zoológico também tem suas graves desvantagens, o que a história de Harambe deixa claro.

O macaco em cativeiro é designado o "embaixador" de sua espécie, um exemplo prático da fraternidade evolucionária e do destino compartilhado para aqueles entre nós que se mantém do outro lado do vidro, afirmando a primazia das vidas, dos desejos e das necessidades dos humanos.

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