Como a ciência tenta explicar --sem acordo-- a consciência humana

George Johnson

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Um artigo no The British Medical Journal em dezembro relatou que a terapia cognitivo-comportamental –um meio de persuadir as pessoas a mudar a maneira de pensar– é tão eficaz quanto remédios como o Prozac ou o Zoloft no tratamento da depressão severa.

De uma maneira que ainda não foi bem explicada, a terapia atinge condutores biológicos e afeta o fluxo de neurotransmissores no cérebro. Outros estudos encontraram resultados semelhantes na "mindfulness" ("atenção plena"), meditação de inspiração budista na qual os pensamentos podem passar suavemente pela mente.

Descobertas como essas se tornaram tão comuns que é fácil se esquecer de suas estranhas implicações.

A depressão pode ser tratada de duas maneiras radicalmente diferentes: alterando o cérebro com produtos químicos ou a mente em sessões de terapia, mas ainda não conseguimos explicar como a consciência surge da matéria ou como, por sua vez, ela age no cérebro.

Esse antigo dilema – o problema mente-corpo – foi sucintamente descrito pelo filósofo David Chalmers em um simpósio recente na Academia de Ciências de Nova York. "O consenso científico e filosófico é de que não há alma ou ego não físico, ou pelo menos não há evidência disso", disse ele.

Mente e corpo

A noção de dualismo de Descartes – mente e corpo como coisas separadas – há muito tempo se afastou da ciência. O desafio agora é explicar como o mundo interior da consciência surge a partir da matéria do cérebro.

Michael Graziano, neurocientista da Universidade de Princeton, sugeriu que a consciência é uma espécie de trapaça que o cérebro faz com ele próprio. O órgão é um computador que evoluiu para simular o mundo exterior – e, entre seus modelos internos, há uma simulação de si mesmo, uma aproximação bruta de seus próprios processos neurológicos.

O resultado é uma ilusão. Em vez de neurônios e sinapses, sentimos uma presença fantasmagórica, um "eu" dentro da cabeça, mas tudo não passa de processamento de dados.

"A máquina erroneamente pensa que tem magia em seu interior", disse Graziano. E ela chama a magia de consciência.

Não é a existência dessa voz interior que ele acha misteriosa. "O fenômeno a ser explicado, é por que o cérebro, como uma máquina, insiste que tem esta propriedade não física."

O debate, transmitido online, me lembrou da mais nova peça de Tom Stoppard, "The Hard Problem" (O problema difícil), em que Hilary, uma pesquisadora de psicologia jovem e problemática, vive a mesma aflição descrita por Graziano. Certamente há mais coisas no cérebro do que biologia, insiste ela para o namorado, um materialista extremo chamado Spike. Deve haver "coisas da mente que não aparecem em um exame".

Por que existe algo como um 'eu' interior?

Stoppard tirou o título da peça de um livro de Chalmers. O "problema fácil" é explicar, pelo menos em princípio, como o pensamento, a memória, a atenção e assim por diante são apenas computação neurológica. Já para o problema difícil – por que todos esses processos se parecem com uma coisa – "não há uma teoria de consenso e nem mesmo uma suposição que chegue perto disso", disse Chalmers no simpósio.

Ou, como Hilary diz na peça, "toda a teoria proposta para o problema da consciência tem o mesmo grau de demonstrabilidade que a intervenção divina". Existe uma lacuna na explicação onde de repente um milagre parece ocorrer.

Ela rejeita a ideia de ocorrência inesperada, a que diz que se você unir componentes (neurônios, chips) em número suficiente, a consciência aparecerá. "No fim, o corpo é feito de coisas, e coisas não têm pensamentos", diz ela.

Os defensores da ocorrência inesperada, que se tornaram predominantes entre os cientistas que estudam a mente, tentam defender suas ideias com metáforas.

As qualidades da água –umidade, transparência, reflexão– emergem da interação dos átomos de hidrogênio e oxigênio. A vida, da mesma forma, surge a partir de moléculas.

Já não acreditamos em uma força vital supernatural, um elã vital, então, o que dizer da consciência?

Por falta de um mecanismo preciso que descreva como a mente é gerada pelo cérebro, alguns filósofos e cientistas voltaram à antiga doutrina do pan-psiquismo, a ideia de que a consciência é universal, que existe como uma espécie de coisa da mente dentro de moléculas e átomos.

A consciência não precisa surgir. Ela é construída na matéria, talvez como algum tipo de efeito da mecânica quântica. Uma das evoluções surpreendentes na última década é como essa ideia se expandiu. Houve três sessões no pan-psiquismo na conferência de Ciência da Consciência no início deste ano em Tucson, no Arizona.

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Um novo estado da matéria

Essa não foi a primeira vez que a ciência se viu em um beco sem saída, onde a única opção foi propor um novo ingrediente fundamental. A matéria escura, a energia escura: ambos foram usados para resolver o que pareciam ser problemas irremediáveis.

Max Tegmark, físico do Instituto de Física de Massachusetts (ele também falou no evento de Nova York), propôs que há um estado da matéria – como sólido, líquido e gasoso – que ele chama de perceptronium: átomos arranjados para que possam processar informações e dar origem à subjetividade.

O perceptronium não precisa ser biológico. A hipótese de Tegmark foi em parte inspirada no neurocientista Giulio Tononi, cuja teoria integrada da informação se tornou uma grande força na ciência da consciência.

Ela prediz, com denso suporte matemático, que dispositivos tão simples quanto um termostato ou um diodo fotoelétrico podem ter vislumbres de consciência, um "eu" subjetivo.

Nessa visão, nem tudo é consciente, só coisas como o perceptronium que podem processar informações de maneiras complexas. Tononi inventou até uma unidade, chamada phi, que supostamente mede a consciência de uma entidade.

A teoria tem seus críticos. Usando o critério de phi, Scott Aaronson, cientista da computação conhecido por seu agudo ceticismo, calculou que um circuito relativamente simples de portas eletrônicas lógicas – algo como os circuitos de correção de erros em um reprodutor de DVD – pode ser muitas vezes mais consciente do que um cérebro humano.

Tononi não descarta essa possibilidade. Como seria a sensação de ser esse dispositivo? Não sabemos. A compreensão da consciência pode exigir uma revolução no modo em que a ciência expressa a realidade.

Ou talvez não. Conforme os computadores vão se tornando cada vez mais complexos, um deles pode nos surpreender um dia com uma conversa inteligente e espontânea, como a rede neural artificial no romance de Richard Powers, "Galatea 2.2".

Podemos não entender como tudo acontece, do mesmo jeito que não entendemos nossa voz interior; os filósofos vão discutir se o computador é realmente consciente ou se apenas simula a consciência – e se existe alguma diferença entre esses dois.

Se o computador ficar deprimido, qual seria o equivalente computacional do Prozac? Ou como uma terapeuta, humano ou artificial, iniciaria um tratamento?

Talvez a máquina pudesse compilar as orientações do conselheiro na forma de instruções para se reprogramar ou para recrutar pequenos robôs que consertariam seus circuitos eletrônicos.

Talvez ele se deparasse com seu próprio problema mente-corpo – e nesse caso, nós, seres humanos, não seríamos de grande ajuda.

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