Russos gravam onda de rádio: contatos imediatos ou só spam vindo do espaço?

Dennis Overbye

  • Ramin Rahimian / The New York Times

    As antenas Allen Telescope Array, na Califórnia, procuram por transmissões alienígenas

    As antenas Allen Telescope Array, na Califórnia, procuram por transmissões alienígenas

Provavelmente isso não passa de um spam vindo do espaço sideral, o equivalente astrofísico de ligar para alguém sem querer com o celular no bolso. Mas ninguém sabe ao certo.

A atenção dos astrônomos do mundo e de uma parte da internet se voltou na semana passada para uma estrela na constelação de Hércules. Todos se perguntavam se o fim da solidão cósmica da humanidade realmente teria chegado.

Foi a partir deste local na constelação de Hércules que uma equipe de radioastrônomos russos gravou um pico de onda de rádio que durou dois segundos no dia 15 de maio do ano passado. Contudo, os russos não seguiram o protocolo comum, segundo o qual deve-se alertar outros observatórios para confirmar o sinal. Como resultado, ninguém mais sabia do pulso até o fim de agosto deste ano.

Esse pequeno sinal tinha o potencial de ser um "Alô" enviado de outro mundo, algo que os praticantes do SETI, sigla em inglês para a procura por vida extraterrestre inteligente, têm sonhado em encontrar desde o século passado. Ou talvez aquilo não passasse de um alarme falso de interferência terrestre, uma transmissão militar que se perdeu, ou algum tipo incomum de confusão astrofísica.

Os astrônomos já sabem que existe um planeta, com massa 17 vezes maior que a da Terra, circulando aquela estrela, que fica a 94 anos-luz daqui e responde ao pouco glamouroso nome HD164595.

Porém, ocorreram também alguns problemas, de acordo com os russos, liderados por Alexander Panov, da Universidade Estadual de Lomonosov Moscou. O sinal apareceu apenas uma vez em 39 observações, e para a produção a essa distância seria necessário um transmissor com a potência de ao menos um trilhão de watts, algo similar ao consumo energético de toda a humanidade.

Ademais, o design do telescópio russo, conhecido como Ratan-600, um círculo gigante de antenas no Cáucaso, perto da Geórgia, o torna suscetível, de acordo com os astrônomos, à radiação vinda de direções indesejadas, o que aumenta a chance de interferência de fontes militares e outras fontes terrestres.

O assunto finalmente se tornou público quando Claudio Maccone, diretor do comitê SETI da Academia Internacional de Astronáutica, divulgou uma descrição das observações pouco antes de um encontro do SETI que será realizado no dia 27 de setembro em Guadalajara, no México. Embora o relatório não diga que se trate de uma transmissão alienígena, ele diz que: "O monitoramento permanente desse alvo é necessário".

Em um e-mail enviado no dia 29 de agosto, Maccone, um dos membros da equipe, afirmou que concordava com os colegas:

Eu também acredito que muito provavelmente não se trata de um sinal extraterrestre. Mesmo assim, aquilo precisava ser publicado, ao invés de ser mantido em segredo por mais de um ano, e foi isso que eu fiz: convenci os russos a publicarem os dados

Depois que o jornalista especializado em astronomia Paul Gilster relatou o caso no blog Centauri Dreams, o sinal ganhou a internet.

Mas até o momento os resultados são irrelevantes. A partir da noite de 28 de agosto, os astrônomos do Instituto SETI de Mountain View, Califórnia, entraram em ação com o Allen Telescope Array, um conjunto de antenas em Hat Creek, Califórnia, construído especificamente para procurar transmissões alienígenas.

Após duas noites de observação, relatou Seth Shostak, porta-voz do instituto, "cobrimos todas as frequências reportadas pelos russos e outras mais... sem sucesso".

Enquanto isso, astrônomos do Breakthrough Listen, um novo projeto SETI financiado pelo filantropo e empreendedor russo Yuri Milner, utilizou o Telescópio Green Bank, em Green Bank, West Virginia, o maior radiotelescópio orientável do mundo, para checar a estrela. Eles só registraram ruído.

De fato, segundo a Tass, a agência de notícias russa, os pesquisadores também concluíram que seu sinal era resultado de interferência terrestre. De acordo com a pesquisadora Yulia Sotnikova, o observatório estava preparando uma nota oficial a respeito de qualquer afirmação midiática de contato extraterrestre.

Todo mundo planeja continuar observando, mas por enquanto o sinal da constelação de Hércules parece estar destinado a se juntar a outros alarmes falsos que caracterizaram a empreitada SETI, em especial o sinal "wow", que apareceu no radiotelescópio da Universidade do Estado de Ohio em 1977, mas nunca mais reapareceu.

Conforme afirmou Maccone por e-mail: "Houve casos similares no passado e provavelmente haverá outros no futuro. O importante é publicar tudo e trocar dados internacionalmente sobre as estrelas onde isso acontece".

Os astrônomos estão a procura de E.T.s desde que Frank Drake, atualmente na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, apontou em 1960 uma antena para um par de estrelas e acreditou ter ouvido um sinal – o primeiro caso de alarme falso.

Mas nada desencorajou os astrônomos de uma ideia que é tão simples e poderosa quanto um poema: os sinais de rádio são capazes de servir de ponte entre estrelas de forma muito mais econômica que espaçonaves, permitindo que espécies distantes se comuniquem por meio de um rádio amador cósmico, ou de uma internet galáctica.

Existem mais de 100 bilhões de estrelas na Via Láctea e cerca de 9 bilhões de canais de rádio que somos capazes de captar – em outras palavras, um "palheiro cósmico" que até o momento quase não foi analisado.

Existem muitos estudos sobre os tipos de canais que os alienígenas poderiam utilizar e os tipos de sinais que poderiam enviar, além de muitos outros estudos que explicam porque não encontramos quaisquer evidências de sua existência até o momento (fora das bancas de jornais sensacionalistas).

Entre as possíveis respostas, a Terra poderia estar em quarentena, ou as espécies tecnológicas se matam muito antes de chegarem ao estágio de entrar em contato com outras formas de vida.

Ou, talvez a humanidade simplesmente não saiba o que exatamente está procurando. Sabemos apenas de um exemplo de vida e de inteligência no universo, me disse certa vez Jill Tarter, do Instituto SETI. Obviamente estamos falando de nossa própria biosfera.

"Nessa área, o número 2 é o número mais importante. Contamos um, dois, infinito. Agora queremos encontrar o número 2."

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