Fêmeas de macacos bonobos se unem e botam machos agressivos para correr

Natalie Angier

  • Takeshi Furuichi/New York Times

    Grupo de bonobos fêmea se une contra agressão de machos na floresta Wamba

    Grupo de bonobos fêmea se une contra agressão de machos na floresta Wamba

Os macacos bonobos fêmeas da floresta Wamba, na República Democrática do Congo, tinham terminado a refeição da manhã e se preparavam para um breve cochilo na copa das árvores, dobrando e cortando galhos frondosos para preparar camas diurnas confortáveis.

Mas uma das fêmeas estava no cio, com sua traseira excepcionalmente rosada e inchada, e quatro machos do grupo estavam excitados demais para dormir. Eles se balançavam e pulavam descontroladamente em torno da fêmea fértil e de suas colegas, agitando galhos, exibindo suas ereções e enchendo o ar com gritos e guinchos agudos.

De repente, três fêmeas mais velhas do alto escalão vieram lá de baixo, bolas furiosas de pelo preto e membros balançantes e, junto com a fêmea no cio, foram para cima dos machos indisciplinados.

Eles se espalharam. As fêmeas os perseguiram. Galhos de árvore balançavam e quebravam. Os gritos de ambos os lados se tornaram ensurdecedores.

Três deles escaparam, mas as fêmeas encurralaram e agarraram o quarto, o macho alfa da área. Ele era saudável, musculoso e cerca de oito quilos mais pesado que qualquer uma de suas captoras, mas não fez diferença.

As fêmeas o mordiam enquanto ele uivava e tentava se libertar. "Finalmente, ele caiu da árvore e fugiu e ficou sem aparecer umas três semanas", disse Nahoko Tokuyama, do Instituto de Pesquisa de Primatas da Universidade de Kyoto, no Japão, que testemunhou a cena. Quando o macho voltou, ficou quieto em seu canto. Nahoko notou que a ponta de um dos seus dedos havia desaparecido:

Ser odiado pelas fêmeas é uma grande problema para os bonobos machos

O incidente do dedo foi extremo, mas não singular. Nos resultados de seu longo trabalho de campo publicados na edição de setembro do periódico Animal Behaviour, Nahoko e seu colega Takeshi Furuichi relataram que as bonobos fêmeas de Wamba muitas vezes se uniam para combater a agressividade dos machos de um modo que desafiava o padrão das regras dos primatas.

Fêmeas adultas reagiam a uma ampla gama de provocações dos machos – aberturas sexuais indesejadas, disputas por alimentos, empurrões, chutes, ameaças vocais, irritação persistente –formando coligações de duas ou mais que, unidas enfrentam seus algozes masculinos.

De modo notável, as parceiras femininas em um grupo de bonobos colaboraram umas com as outras, mesmo na ausência de laços sanguíneos ou até mesmo de amizade. Parte do chamado gênero disperso, as bonobos devem deixar o local onde nasceram antes da puberdade e encontrar outro grupo ao qual possam se unir, o que significa que nenhuma das fêmeas adultas em uma determinada comunidade apresenta parentesco com as outras.

Além disso, elas raramente formavam coligações com suas companheiras preferidas – aquelas com quem mais convivem e de quem cuidam com mais afinco. Em vez disso, descobriram os pesquisadores, a união surge quando uma fêmea mais velha toma o lado de uma mais jovem que passa por uma situação de conflito com um macho residente.

Com a importância de sua posição social, além de um par de mãos extra, a mais velha praticamente garante que o problema acabe.

Os novos resultados dão profundidade e complexidade à nossa crescente compreensão do Pan paniscus, o macaco grande, enigmático, ágil, com os olhos escuros como alcaçuz, que vive somente na República Democrática do Congo e está seriamente ameaçado de extinção. O bonobo é uma espécie irmã do chimpanzé, o Pan troglodytes, e os dois são, em igual proporção, nossos parentes primatas mais próximos.

Porém, as duas espécies seguiram caminhos comportamentais bem diferentes. A sociedade do chimpanzé é dominada por machos e possui fortes laços entre adultos e laços mais fracos entre as fêmeas.

No mundo dos bonobos, pelo contrário, a camaradagem feminina prevalece, enquanto as ligações entre os machos são fracas.

É um matriarcado. As fêmeas comandam o show

Amy Parish, primatologista da Universidade do Sul da Califórnia

As pesquisas mais recentes indicam que a natureza das obrigações entre as fêmeas dos bonobos se altera dependendo das circunstâncias, e que a arma mais eficaz contra o assédio dos machos pode ser um pacto entre gerações.

"Às vezes acho que os bonobos passam a noite lendo periódicos sobre primatas e daí decidem fazer o oposto. Eles são diferentes de inúmeras maneiras", disse Joan Silk, primatologista da Universidade Estadual do Arizona.

Os bonobos são famosos por sua hipersexualidade e pelo modo como usam o sexo para solucionar problemas em todas as situações, permutas e combinações possíveis. Por exemplo, quando acham uma área com frutas e as tensões aumentam devido à prioridade, os bonobos relaxam com uma rodada rápida de atrito genital e atos similares: machos com as fêmeas, machos com machos, fêmeas com fêmeas, jovens com adultos.

As fêmeas na floresta de LuiKotale, no Congo, usam gestos especializados e pantomima para transmitir seu desejo de um pouco de contato fêmea com fêmea, de acordo com um relatório do ano passado feito por Pamela Douglas e Liza Moscovice do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha. A fêmea solicitante irá apontar sua traseira, seu órgão sexual inchado, com um pé e depois balançar o quadril imitando uma fricção; com esse movimento a outra fêmea vai abraçá-la para que tudo aconteça.

"É um reconhecimento de status. A fêmea que se aproxima está dizendo: 'Sei que você está acima de mim, sei que é superior, mas gostaria de me sentar perto de você e talvez dividir sua comida'", disse Barbara Fruth, pesquisadora de bonobos da Sociedade Zoológica Real em Antuérpia, Bélgica.

Os bonobos dão beijo de língua, fazem sexo oral, tem relações cara a cara e produzem brinquedos sexuais.

Frances White, bioantropóloga da Universidade do Oregon, uma vez viu uma fêmea bonobo usar uma vara com a qual se estimulava. "Às vezes eles são bem explícitos", disse Frances.

Tais brincadeiras eróticas deram aos bonobos a reputação de descontraídos "macacos hippies", rótulo que os pesquisadores dizem que desmente a inteligência estratégica e a brutalidade do primata. Amy Parish, que estuda bonobos em cativeiro, já viu jovens descendentes de fêmeas dominantes ostentando seu poder herdado passando por fêmeas adultas de um escalão menor, abrindo sua boca à força e roubando sua comida.

Ela também contou sobre a vez que duas fêmeas atacaram um macho no zoológico de Stuttgart, na Alemanha, arrancando metade de seu pênis com mordidas. "Felizmente, um microcirurgião conseguiu reparar os danos e o macho voltou a ser capaz de se reproduzir".

No entanto, os bonobos são muito menos violentos do que os chimpanzés e as fêmeas claramente se beneficiam da vida em uma irmandade forjada. As fêmeas de chimpanzés não podem escolher um parceiro entre os machos disponíveis, mas se acasalam com todos eles. As fêmeas de bonobos podem rejeitar pretendentes sem temer por suas vidas. O infanticídio é comum entre os chimpanzés, mas inexistente entre os bonobos.

A questão para os pesquisadores é como começou essa rotina de solidariedade feminina.

Os chimpanzés machos permanecem na área em que nasceram, por isso as ligações entre os machos são construídas sobre o princípio evolucionário padrão de seleção por parentesco; as fêmeas acabam cercadas por indivíduos que não são seus parentes na idade adulta e, por isso, cuidam de suas próprias vidas.

Por que as fêmeas de bonobos desafiam a norma e cooperam umas com as outras? E por que os bonobos machos não fazem alianças com outros que estão próximos e que provavelmente são seus irmãos e primos?

Condições ecológicas diversas podem ter ajudado a definir o cenário para a diferença comportamental. De acordo com essa hipótese, os bonobos evoluíram em uma região com uma fonte de alimento relativamente abundante e confiável, o que significava que as fêmeas poderiam se alimentar em grupo sem a necessidade de disputas.

Quanto mais tempo elas passam se alimentando, mais próximas se tornam e logo demonstram seu respeito mútuo e tolerância a outras tarefas, como afugentar assédios masculinos.

Os chimpanzés evoluíram em climas mais secos, onde a comida era escassa e as fêmeas tinham que competir com as outras por uma alimentação limitada. Quem tem tempo para amigos?

Já os bonobos machos podem ser subordinados às fêmeas aliadas e provavelmente não se interessam pela convivência com os outros. Mas eles têm uma arma secreta social: a mãe. Os bonobos machos permanecem com suas mães a vida toda e, quando o status dela aumenta com a idade, o dele também.

Frances sugeriu que as fêmeas mais velhas cultivam relacionamentos com mulheres mais jovens em parte como uma estratégia.

"A mãe procura parceiras para seu filho. Por que um macho iria assediar uma fêmea quando sua mãe pode fazer isso por ele?"

Os pesquisadores sugeriram que o novo trabalho tem implicações para a compreensão da evolução humana e do futuro, especialmente para as mulheres.

"Somos igualmente relacionados a chimpanzés e bonobos, e temos toda uma gama de variação comportamental disponível. Podemos ser tão agressivos quanto o chimpanzé, ou tão próximos quanto as bonobos fêmeas", disse Frances.

"O fato de as fêmeas bonobos terem encontrado um caminho para a solidariedade e irmandade deve dar esperança ao movimento feminista humano", disse Amy.

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