Seu cachorro pode ensiná-lo a ter um olfato de caçador

Jan Hoffman

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Nosso cabo de guerra diário acontece mais ou menos assim: eu digo a Chico que vamos virar à esquerda. Ele faz a curva à direita, chafurdando o focinho preto e úmido em um monte de folhas secas. Sou eu contra um bichon havanês de 7 quilos encantado pelos odores da rua.

Hoje eu o deixo vencer a disputa.

Isso porque comecei a entender melhor seu comportamento olfativo depois de ler o livro "Being a Dog: Following the Dog into a World of Smell" (Vida de cão: seguindo os cachorros pelo mundo dos cheiros), publicado recentemente pela professora de ciências cognitivas, Alexandra Horowitz, responsável pelo Laboratório de Cognição Canina do Barnard College. No livro, ela explica a elegante engenharia do sistema olfativo canino e como comportamentos comuns entre os cães – lamber, espirrar, abanar o rabo – estão associados ao olfato. Horowitz também descreve como treinou a si mesma para melhorar suas limitadas capacidades nasais.

Em uma manhã recente no Parque Riverside, em Manhattan, me encontrei com Alexandra e Finn (apelido de Finnegan), seu vira-latas carinhoso de pelos negros e nove anos de idade. Ali, ela – e ele – mostraram algumas coisas interessantes que tornaram meus passeios com Chico mais intrigantes e divertidos.

Katie Orlinsky/The New York Times
Cães farejam e humanos também. Mas qual é a diferença?

"Existem muitas formas de farejar, e o método humano não é o mais avançado", afirmou Alexandra. Pesquisadores olfativos (sim, isso existe) revelaram que temos cerca de seis milhões de receptores de faro; já os cachorros contam com 300 milhões. Os humanos cheiram uma vez a cada segundo e meio; os cachorros, por sua vez, interpretam os odores de 5 a 10 vezes por segundo.

"Até na hora de exalar eles são melhores que nós", continuou Alexandra, descrevendo uma espécie de respiração de ioga canina. Os cachorros exalam através dos cortes laterais das narinas, de modo a manter um fluxo de entrada permanente para captar odores pelo focinho. "Isso permite que os animais façam uma imagem olfativa constante do mundo."

E embora nossas ventas também funcionem, o focinho canino é fantástico, pois recebe um fluxo de ar carregado de odores ao longo de toda a superfície interna do focinho, afirmou a pesquisadora, umidificando, aquecendo e limpando todo o caminho até o fundo.

Por que os cachorros adoram lamber nossos dedos dos pés?

O hábito de lamber está ligado à capacidade de sentir cheiros, afirmou Alexandra. Cães e muitos outros animais possuem um segundo sistema conhecido como órgão vomeronasal, entre o céu da boca e o septo, dividindo os lados do nariz.

Ao farejar, o cachorro capta os odores carregados pelo ar, mas o sensível órgão vomeronasal é capaz de detectar o cheiro de moléculas que foram absorvidas pela pele. Uma maneira de permitir isso são as lambidas. "Eles gostam de sentir o cheiro em todos os seus detalhes", afirmou Alexandra, explicando porque os cachorros chegam sempre tão perto uns dos outros e também dos seres humanos. "Eles têm um ótimo instinto para analisar todos os cheiros."

Por que os cachorros adoram rolar sobre coisas que têm odores terríveis?

Uma teoria é que seu olfato conta com um sistema motor bastante complexo conectado ao cérebro. Assim, segundo Alexandra, quando Finn se depara com o corpo apodrecido de um esquilo no parque, o cheiro que dispara o lobo olfativo do seu cérebro também viaja até o córtex motor, instruindo-o a inclinar o corpo todo em direção ao objeto de desejo.

"O cérebro dos cães não identifica cheiros como 'nojentos', mas eles realmente parecem gostar de rolar sobre odores que consideramos ruins ou mesmo repugnantes"  Alexandra Horowitz

E abanar o rabo também tem a ver com o olfato?

Sim. Muitos dos odores que os cachorros identificam são lançados pelas glândulas anais, que transmitem ao mundo como o cachorro está se sentindo – ansioso ou com vontade de brincar? – e até sua identidade. Quando se cumprimentam, contou Alexandra – com a ajuda diligente de Finn, ao se encontrar com a cadelinha Polly –, "os cães balançam o rabo para lançar seus odores pelo mundo".

Cachorros de estimação têm a mesma capacidade olfativa de cães farejadores?

Getty Images
Enquanto os cães farejadores são encorajados a utilizar sua capacidade olfativa e são premiados por isso, afirmou Alexandra, os cachorros de estimação são desestimulados. "Eles aprendem que é falta de educação cheirar o bumbum, porque as pessoas não fazem isso. Tentamos impor nossas regras aos cães."

Por consequência, eles farejam menos e contam mais com sinais visuais.

Alexandra conta sobre como levou Finn para participar de aulas de "treinamento do faro". Em pouco tempo ela notou que o cachorro adorava encontrar objetos usando odores como pista.

Para exibir suas habilidades, ela escondeu um frasco contendo um cotonete com cheio de anis dentro do tronco de uma árvore no caminho do passeio. Quando nos aproximamos do tronco, ela coçou as orelhas de Finn, soltou a coleira e deu o comando: "Encontre!" Ele saiu correndo, farejando como louco. Ao final, em pé sobre as patas de trás, ele encontrou o frasco.
"Ele fica muito contente. Embora seja um cão de meia-idade, ele não tem dificuldades na hora de contar com o olfato", afirmou a pesquisadora.

Como os cachorros de estimação podem treinar o focinho?

"É bom fazer passeios olfativos com eles. Deixe o cachorro no comando, cheirando e parando por quanto tempo quiser. Deixe que se cheirem. Os donos também encontram prazer em permitir que os cães sejam cães, em reconhecer seu espírito canino. Afinal de contas, eles já têm que aguentar nossa humanidade todos os dias."

E como nós humanos podemos exercitar nosso faro?

No livro, Alexandra escreve sobre suas experiências com o próprio sistema olfativo e seu conselho para nós é relativamente simples.

"Aprenda com o cachorro. Coloque o nariz nas coisas e as cheire deliberadamente. Dê nome aos odores. Todas as pessoas especializadas em cheiros que conheci praticavam milhares de vezes. Pegue um frasco de perfume. Amasse folhas de hortelã entre os dedos."

"Agora aprecio mais os odores. Não os considero apenas bons ou ruins. Eles me contam sobre o mundo. Isso é o mais perto que posso chegar de ser um cachorro."

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