Como a baixa estatura ajudou nossos ancestrais a sobreviver à Era do Gelo

Aneri Pattani

  • Getty Images

Baixa estatura, mobilidade reduzida e articulações inflamadas podem não vir à mente quando se pensa na sobrevivência do mais apto. Só que a evolução humana pode sugerir outra interpretação.

Em novo estudo, pesquisadores constataram que, à medida que os humanos primitivos migravam para os climas mais frios do norte, uma mutação genética que reduz a altura em cerca de um centímetro e eleva o risco de osteoartrite em 80% pode tê-los ajudado a sobreviver à mais recente era glacial.

Embora algumas características dessa mutação possam parecer desfavoráveis agora, elas eram vantajosas para os primeiros humanos a se aventurarem fora da África há cerca de 60 mil anos.

"Existem muitos casos assim, em que a evolução é uma troca", diz David Kingsley, autor do estudo, publicado em "Nature Genetics", em três de julho, e professor de biologia evolutiva da Universidade Stanford, Estados Unidos.

A estatura reduzida pode ter ajudado esses humanos pré-históricos a reter calor e impedir a queimadura do frio das extremidades, asseguram os autores. A mutação também pode ter reduzido o risco de fraturas ósseas mortais causadas por quedas nas superfícies geladas. Mas o mesmo gene eleva o risco de artrite na era moderna quando vivemos muito além da idade reprodutiva.

O estudo examinou variantes do gene GDF5, a princípio ligado ao crescimento do esqueleto no começo da década de 1990, e conhecido por estar envolvido no crescimento ósseo e na formação das articulações. Os pesquisadores queriam compreender como as sequências de DNA ao seu redor podem afetar a expressão do gene, concentrado na região que batizaram de GROW1.

Depois de analisar a sequência GROW1 no banco de dados do Projeto dos Mil Genomas, uma coleção de sequências de populações humanas do mundo inteiro, os pesquisadores identificaram uma mudança em um nucleotídeo, o material básico do DNA. A alteração predomina entre europeus e asiáticos, mas é rara em africanos. Para ver se a mutação era casual ou se realmente provocou baixa estatura, eles testaram a mudança no nucleotídeo em camundongos e viram que ela reduzia o tamanho dos ossos longos, da mesma forma como se acredita que ocorre em humanos.

A mutação da região reguladora analisada no estudo está presente em mais de 50% da população da Europa e da Ásia. Em algumas populações asiáticas, chega a 90%, afirma Kingsley. Mesmo que a variante desempenhe um papel pequeno no aumento do risco de artrite, o número de pessoas que a possue significa que ela pode ter um efeito importante.

"A própria abundância da mudança significa que ela poderia contribuir em vários casos de artrite", diz Kingsley.

Um paradoxo evolutivo similar pode ser visto na anemia falciforme, enfermidade em que um número baixo de glóbulos vermelhos dificulta o transporte adequado de oxigênio pelo organismo, explica Kingsley. Uma variante genética causa um índice elevado da doença em populações africanas, mas ela foi favorecida porque também confere proteção contra a malária.

"O genoma é complexo e nossa história evolutiva é complexa", diz Terence D. Capellini, um dos principais autores do estudo e professor adjunto do departamento de Biologia Evolutiva Humana da Universidade Harvard. "Por causa dessa complexidade, surgem relacionamentos entre aspectos diferentes da nossa biologia que podem parecer paradoxais. Conforme revelamos essa história do nosso genoma e de como ele afeta nossa biologia, começamos a compreender as conexões."

A exemplo de muitos aspectos da pesquisa evolutiva, é mais fácil descobrir quais características foram favorecidas do que explicar o por quê. Embora a estatura baixa possa ter sido uma proteção contra o frio e o terreno gelado, é difícil ter certeza, diz George Perry, professor adjunto de Antropologia e Biologia da Universidade Estadual da Pensilvânia, que não participou do estudo.

"Não vamos saber disso sem uma combinação de máquina do tempo e um experimento que não podemos fazer", declara.

Todavia, estudos detalhados como este pode ajudar a ampliar nosso conhecimento de processos evolutivos complexos e as consequências potenciais para a medicina moderna e a saúde humana, diz Perry.

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