Por que o choro de um bebê é tão importante? A ciência explica

Natalie Angier

  • Getty Images/iStockphoto/kirza

De acordo com os psicólogos, os bebês humanos geralmente choram duas horas por dia.

Um bebê extremamente chorão, de acordo com os irmãos mais velhos, os pais e os vizinhos, chora sem parar, recusando-se a reconhecer qualquer distinção entre o choro e outras atividades básicas, como "estar acordado" e "respirar".

Mas os resmungões do passado e do presente podem se animar. Ao que tudo indica, o choro do bebê é tão natural e justificável quanto respirar. Na verdade, inicialmente as duas coisas estão física e neurologicamente interligadas. Os cientistas descobriram uma série de neurônios encarregados de causar uma respiração rápida e ativa, que também permite que os filhotes de animais chorem.

Em um artigo publicado na revista científica "Proceedings of the National Academy of Sciences", Carmen Birchmeier e Luis Hernandez-Miranda, do Centro Max Delbruck de Medicina Molecular, de Berlim, e seus colaboradores demonstraram que os filhotes de rato que não contam com esse nódulo neuronal --composto por apenas 17 mil células localizadas no rombencéfalo, uma parte evolutivamente antiga do cérebro-- são capazes de respirar lenta e passivamente, mas não de forma animada e vigorosa.

Quando eles abrem a boca para chorar, não sai nenhum som. Como resultado, suas mães os ignoram, e os filhotes que respiram baixo morrem logo.

"Essa foi uma descoberta surpreendente. A mãe via os filhotes, sentia seu cheiro, mas eles não reclamavam, então era como se simplesmente não estivessem lá", afirma Birchmeier.

O novo estudo é apenas um em uma série de pesquisas recentes que revelam a importância do choro para a sobrevivência do filhote, e como a gritaria do bebê irrompe em meio à paisagem sonora para exigir a atenção imediata do adulto.

O som do choro do bebê gera uma reação muito mais rápida e forte de partes do cérebro adulto voltadas para a ação, se comparadas a outros sons altos e emocionalmente carregados, como cachorros latindo ou vizinhos chorando.

Os cientistas também mostram que os choros de muitos filhotes de mamíferos compartilham uma série de propriedades sonoras.

Susan Lingle, bióloga da Universidade de Winnipeg, e seus colaboradores realizaram um estudo de campo no qual o choro de uma série de animais era reproduzido por meio de caixas de som, incluindo filhotes de morcego, de antílope, de leão marinho, de marmota, de cabra e de gato.

Às vezes, o choro era reproduzido em sua forma original. Às vezes, uma única característica --o tom do choro-- era alterada, enquanto todo o resto permanecia igual. Não importa qual era a fonte do pedido de socorro, a reação da mãe cervo que pastava no bosque era sempre a mesma: correr a toda velocidade até a caixa de som, como se o seu próprio filhote estivesse chamando.

Os cervos não foram os únicos animais enganados. Durante uma conferência sobre cuidados com os bebês realizada este ano na Itália, Lingle reproduziu áudios do choro de uma criança, de um filhote de cervo e de um bebê e perguntou ao público quais eram humanos.

"A maioria acertou. Mas muitas pessoas admitiram que não tinham certeza", afirma Lingle.

Nem todos os filhotes de mamíferos fazem parte do mesmo coral.

"Quando um filhote de guepardo se afasta da mãe, ele pia como um pássaro", conta Patrick Thomas, curador dos mamíferos no Zoológico do Bronx.

O choro do bebê canguru se parece com uma tosse.

Os pesquisadores estão à procura de variações nos choros da criança que possam ser usadas como ferramentas de diagnóstico para identificar condições como autismo muito antes do aparecimento de sintomas comportamentais.

Stephen Sheinkopf e Barry Lester da Universidade Brown e seus colaboradores demonstraram recentemente que fatores ambientais também podem moldar sutilmente o som do choro do bebê, ativando um gene envolvido na resposta da criança ao cortisol, um importante hormônio do estresse.

Como descobrir o que o choro quer dizer?

É possível que os pais atormentados prefiram que os cientistas se concentrem em criar um manual de tradução. O que meu anjo gritador está querendo me dizer?

Mariano Chóliz, psicólogo da Universidade de Valência, e seus colaboradores deram os primeiros

passos no sentido de categorizar o choro dos bebês. Na revista científica "The Spanish Journal of Psychology", os pesquisadores descreveram estudos laboratoriais nos quais os bebês eram objeto de uma série de procedimentos desagradáveis responsáveis por gerar vários estados emocionais distintos. O choro resultante era então gravado e analisado.

Para provocar raiva, os pesquisadores amarravam as mãos ou os pés do bebê, impedindo que eles se movessem. Para gerar medo, os pesquisadores batiam palmas bem alto ou derrubavam um livro no chão. O choro de dor foi resultado da vacinação obrigatória, segundo o estudo.

Chóliz revelou que os bebês irritados deixavam os olhos meio fechados, olhando para o lado enquanto choravam, aumentando gradativamente o volume do choro. Após a hesitação inicial e a tensão dos músculos faciais, os bebês assustados emitem um choro explosivo, mantendo os olhos abertos e olhando ao redor o tempo todo.

Bebês que sentiam a dor da agulha choravam imediatamente e com toda a força, fechando os olhos enquanto gritavam. Essa expressão e o volume do choro eram mantidos durante todo o tempo.

A mensagem para os pais: se você derrubar um objeto pesado no chão no mesmo momento em que o pediatra segura a perna do bebê para aplicar uma vacina, o bebê terá de ir ao psicólogo pelo resto da vida.

A terrível relação de dependência dos pais dos bebês humanos e de outros filhotes de mamíferos se reflete nos distintos contornos espectrográficos do choro. O choro de um bebê é caracterizado por um tom simples, claro, fundamental e relativamente longo, uma ininterrupta "estrutura melódica"  --como é perversamente chamada-- que sobe, desce e toma rumos imprevisíveis.

"Se um estímulo se mantém o mesmo, é fácil ignorá-lo. Mas uma coisa que muda o tempo todo é muito difícil de deixar para lá", explica Katherine S. Young, psicóloga da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

As sirenes de polícia e outros sons de alerta imitam o padrão de lento aumento e decréscimo de tom, afirma Young, já que ele prende nossa atenção.

Pela aparência do som, o cérebro adulto é feito para ficar ligado.

Ao estudar tanto imagens super-rápidas do cérebro de voluntários saudáveis, quanto medidas feitas por meio de eletrodos nos cérebros de pacientes submetidos a neurocirurgias por diversas razões, Young, Christine E. Parsons, da Universidade Aarhus, na Dinamarca, Morten L. Kringelbach, da Universidade de Oxford, e outros colaboradores acompanharam a reação do cérebro ao som do choro dos bebês.

Os pesquisadores revelaram que dentro de 49 milésimos de segundo da gravação de um choro de bebê, a substância cinzenta periaquedutal --uma área profunda no mesencéfalo conectada há bastante tempo com comportamentos urgentes e ações de vida ou morte-- foi ativada, reagindo duas vezes mais rápido do que o registrado em dezenas de outros trechos de áudio.

Os pesquisadores também detectaram reações imediatas em regiões do cérebro que respondem ao estímulo por seu destaque emocional e nas áreas motoras que controlam o movimento. Esse som é importante? Sim. Eu devo fazer alguma coisa em relação a ele? Absolutamente.

Isso dispara comportamentos de cuidado --aquele desejo subliminar de resolver um dilema apresentado por uma criança chorando--, o que poderia explicar porque o choro de uma criança no avião é um evento tão incômodo. Os passageiros querem ajudar, mas não têm como. E também não podem simplesmente ir embora.

Uma solução: jogos de videogame

Em outro estudo, voluntários jogavam uma versão do popular Whac-a-Mole pressionando um alvo móvel o mais rapidamente possível. Em seguida, os voluntários ouviam gravações de bebês e adultos chorando e de pássaros cantando, e jogavam o mesmo jogo.

"Os resultados eram melhores e mais cuidadosos quando os participantes ouviam o choro dos bebês", diz Young.

Candy Crush e um bebê chorão parecem ser um par perfeito.

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