Insetos zumbi: louva-a-deus se alimentam de cérebros de beija-flor

Natalie Angier

  • Newcastle University/The New York Times

    Pesquisadores descobrem uma gama de habilidades e preferências dos louva-a-deus que fazem deles aspirantes a vertebrados

    Pesquisadores descobrem uma gama de habilidades e preferências dos louva-a-deus que fazem deles aspirantes a vertebrados

Tom Vaughan, fotógrafo que vivia no Vale Mancos, Colorado, mantinha um alimentador de beija-flor do lado de fora da casa. Certa manhã, ele saiu pela porta e notou um beija-flor-de-garganta-preta pendurado no alimentador de plástico vermelho como um enfeite de Natal improvisado.

Em um primeiro momento, Vaughan achou que tinha entendido a cena: "Eu já tinha visto um beija-flor em um estado de torpor, pendurado pelas patas, recarregando as baterias antes de sair voando", contou ele.

Com uma inspeção mais minuciosa, Vaughan viu que a pequena ave estava pendurada não pelas patas, mas pela cabeça. Esqueça a recarga da bateria: o pássaro estava nas garras de um louva-a-deus que chegava a quase oito centímetros.

O inseto se agarrava com as costas das patas na borda do alimentador, segurando as penas pelas impositivas e aparentemente reverentes patas dianteiras. Metodicamente, mastigava o tecido cerebral nutritivo através do crânio do pássaro.

"Ele me encarava enquanto se alimentava. Claro que tirei uma foto". Assustado pelo disparo do obturador, o inseto deixou cair sua refeição parcialmente decapitada, rastejou para fora do comedor e começou a ameaçar dois beija-flores do outro lado.

"É a dissonância cognitiva, sempre pensei que os louva-a-deus eram maravilhosos para se ter no jardim contra pragas, mas agora vi que às vezes eles vão atrás de presas maiores também", contou Vaughan. 

Tom Vaughan/FeVa Photos /The New York Times
Louva-a-deus se alimenta de cérebro de beija-flor

"Ganhei um novo respeito por eles", acrescentou.

O sentimento de Vaughan é partilhado por um grupo de pesquisadores que coloca os insetos em uma classe própria entre a "Classe Insecta". Estão descobrindo também uma gama de habilidades e preferências que fazem deles aspirantes a vertebrados.

Os louva-a-deus são os únicos insetos capazes de girar a cabeça e encarar. Aqueles olhos penetrantes são bastante parecidos com os nossos: equipados com visão 3D e uma fóvea – concentração centralizada dos receptores de luz – que melhora o foco e a faixa de visão.

Esse inseto pode saltar tão bem quanto um gato, controlando sua trajetória através de uma série de voltas e reviravoltas distribuídas em suas patas e corpo, tudo para garantir uma aterrissagem impecável quando alcançam quase sempre um alvo ridiculamente duvidoso de se acertar.

O apetite do louva-a-deus, da mesma forma, parece dar saltos e pulos, com pouca consideração pelo decoro da cadeia alimentar.

Pela sequência alimentar lógica, os insetos se alimentam de plantas ou de algum outro inseto e, então, os pássaros os caçam. Mas, assim como existem plantas carnívoras como a Dioneia, os louva-a-deus predam beija-flores e outras aves de porte pequeno e médio mais do que as pessoas pensam.

James V. Remsen do Museu de Ciências Naturais da Universidade Estadual da Louisiana e seus colegas documentaram 147 casos de predação de pássaros por louva-a-deus em 13 países, representando todos os continentes, menos a Antártica --o que não o surpreende, Remsen disse em uma entrevista, uma vez que não há qualquer um deles na Antártica.

Beija-flores eram o alvo mais comum, mas os louva-a-deus também predaram várias outras espécies de pequenos pássaros. Grandes exemplares, como o louva-a-deus chinês, que cresce até 10 centímetros de comprimento, foram os mais ávidos comedores de aves. As fêmeas foram responsáveis por praticamente toda a matança de pássaros observada pelo mundo.

Em dois relatos, as louva-a-deus fêmeas se alimentavam de aves enquanto copulavam com os machos. Às vezes os insetos se ajeitavam no esterno do pássaro, mas mais frequentemente iam direto à cabeça, declarou Remsen.

"Eles mordem e comem o cérebro. Podem ser considerados profissionais nisso", acrescentou ele.

Alguns deles, na América do Norte, agora parecem enxergar no alimentador de pássaro um campo de caça afortunado. Kris Okamoto, enfermeira aposentada em San Juan Capistrano, na Califórnia, correu quando o filho do pintor de sua casa gritou que um louva-a-deus havia arrancado um beija-flor do alimentador.

Vendo que o pássaro já estava morto, seu crânio perfurado, Okamoto e o menino se acalmaram e assistiram ao inseto comendo o recheio do crânio do pássaro. Quando o ser recém-alimentado rastejou de volta para o alimentador, Okamoto suavemente o empurrou para fora com um graveto. Não foi o suficiente.

"Ele voltou a escalar o alimentador de pássaros. Então nós o tiramos e colocamos para fora da cerca", contou ela.

Os pesquisadores enfatizam que a predação de aves por louva-a-deus continua rara, praticamente insignificante se comparada à carnificina gerada, digamos, pelos gatos soltos. No entanto, o fato de que os insetos tenham aprendido a procurar alimentadores de pássaros para uma refeição significa "mais um passo cognitivo. Temos sorte que eles não tenham nosso tamanho", declarou Remsen.

Uma certa personalidade

A caça é uma marca profissional da ordem mantodea: as 2,5 mil espécies conhecidas são predadoras, geralmente de insetos e outros pequenos invertebrados. Alguns mantodeas perseguem suas presas, mas muitos são artistas das emboscadas. Esperam com uma tranquilidade zen na grama ou entre flores pelo momento certo de atacar. 

Newcastle University/The New York Times
Os parentes mais próximos do louva-a-deus são as baratas

Seus parentes mais próximos são as baratas, das quais se divergiram há cerca de 250 milhões de anos, afirmou Gavin J. Svenson, curador de zoologia dos invertebrados no Museu de História Natural de Cleveland e uma das maiores autoridades em louva-a-deus. A semelhança da família ainda pode ser vista nas antenas longas, delgadas e na forma triangular da cabeça, entre outras características.

Mas eles abandonaram a posição rasteira e achatada que fazem as baratas parecerem tanto... nojentas. Estes insetos "são extraordinariamente carismáticos", afirmou William D. Brown, que os estuda na Universidade Estadual de Nova York, em Fredonia. Aqueles olhos grandes, a maneira como se voltam para olhar para você, lhes dá "certa personalidade" que não existe na maioria dos insetos, acrescentou ele.

Estudos moleculares e evolutivos sugerem que os louva-a-deus se diversificaram em paralelo com as angiospermas – não que eles tivessem algo a ver diretamente com as plantas, mas em parte para serem mais eficazes na caça pelos insetos que se alimentam e polinizam essas plantas. Alguns louva-a-deus evoluíram até se parecerem com flores vistosas, um chamariz charmoso e mortal.

Todo esse exibicionismo não é para bancar o enfeite. Os louva-a-deus-orquídeas, da Ásia, por exemplo, geralmente evitam ficar ao redor das flores que imitam. Em vez disso, procuram manchas de vegetação verde. "Eles mesmos se tornam a flor. São um sinal visível para polinização", afirmou Svenson.

Quanto maior os polinizadores, mais robustos são os predadores em forma de louva-a-deus, que tem maior facilidade em capturar, controlar e até consumir vespas e abelhas muito bem armadas.

Outros se assemelham aos galhos torcidos, pedaços de casca de árvore ou folhas, misturando-se lindamente com a vegetação da floresta, com troncos de árvore ou folhagens. Uma abordagem enigmática para enganar possíveis presas e seus próprios predadores. Os menores louva-a-deus passeiam em torno de folhas secas caídas na Austrália e "não são muito maiores do que a unha do dedo mindinho", apontou Svenson. Por outro lado, há aqueles que imitam pedaços de galhos na África e podem ser quase do tamanho do antebraço humano.

Os louva-a-deus podem localizar suas presas visualmente. Sua visão excepcionalmente sofisticada tem chamado a atenção dos pesquisadores. Jenny Read do Instituto de Neurociência da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, e seus colegas recentemente demonstraram que os louva-a-deus têm visão estereoscópica, ou em 3D – a primeira evidência definitiva para tal talento em um invertebrado.

Um animal pode ter uma noção de profundidade e distância quando enxerga de forma binocular e estereoscópica – isto é, mentalmente triangulando as imagens ligeiramente diferentes, recebidas pelos dois olhos em uma única linha de visão.

"É uma habilidade complexa. Nós ainda estamos tentando entender os algoritmos, os cálculos, que nossos cérebros usam para fazê-lo", disse Read.

Mesmo assim, estão calculando a visão dos louva-a-deus. Em experimentos que trocaram o carisma do bicho por fofura: os pesquisadores colocaram pequenos óculos 3D caseiros nos insetos, filtros que efetivamente separavam as duas imagens que um louva-a-deus via quando olhasse para uma tela.

Eles ignoram uma caixa brilhante exibida em tela plana quando estão sem o benefício dos óculos 3D, os pesquisadores descobriram. Mas, uma vez que os filtros estavam no inseto, sua percepção era enganada pela ilusão de um objeto 3D pairando próximo a ele, a uma distância de 2,5 centímetros. Ele então começou a atacar o nada achando que a imagem era uma possível presa.

"Nosso cérebro é cinco vezes maior em magnitude que o deles. Portanto, ou nosso córtex visual faz coisas incrivelmente impressionantes que ainda desconhecemos, ou poderíamos eliminar a maior parte dele e substituí-lo por um cérebro de louva-a-deus", ironizou Read.

E que, no caso de uma louva-a-deus fêmea, certamente choraria de fome. Por trás do apetite sem fim da fêmea, está o extraordinário tamanho de sua coleção de ovos, ou ooteca, uma massa proteica e espumosa tomada por até 400 ovos, que pode chegar à metade do seu peso.

Ela secreta a cápsula avolumada em um galho ou outra superfície, onde endurece e protege os ovos enquanto se desenvolvem. A tarefa é tão intensa em termos energéticos que ela raramente consegue realizá-la mais uma vez.

A dificuldade em garantir calorias suficientes para fabricar uma ooteca pode ajudar a explicar por que as fêmeas de algumas espécies de louva-a-deus são famosas por se engajar no canibalismo sexual – alimentando-se de seus companheiros após, ou mesmo durante a cópula. Se um louva-a-deus macho ativamente se sacrifica para continuar sua espécie, ou se simplesmente falha ao tentar fugir da fêmea a tempo, ainda é um tópico ativo na pesquisa.

Brown, da SUNY Fredonia, e Katherine L. Barry da Universidade Macquarie, na Austrália, mostraram que os machos canibalizados fecundaram cerca de 60 ovos a mais do que os que não foram canibalizados. Um aumento de 20 por cento da ooteca padrão de 258 ovos.

A conclusão: se um macho, depois de passar três horas e meia no acasalamento típico dos louva-a-deus, tem pelo menos uma chance em cinco de encontrar uma segunda fêmea fértil antes do fim, a lógica reprodutiva dita que ele deve reunir toda sua energia e fugir.

Ou saltar – já que são bons nisso. Em outro conjunto de experimentos, Malcolm Burrows, da Universidade de Cambridge, e seus colegas mostraram que, quando seguravam um lápis na vertical na frente de um louva-a-deus na distância certa, que variou dependendo do tamanho do inseto, ele não conseguia se segurar e sempre saltava até o lápis.

"Dava para vê-lo examinando o lápis com a cabeça, calculando a distância e o sentido do alvo. Então, saltava e pousava com sucesso. E nos perguntávamos, como que conseguia manobrar seu corpo de uma superfície horizontal para uma vertical com tanta precisão toda vez", disse Burrows.

Para desconstruir os movimentos, os pesquisadores fizeram vídeos de alta velocidade dos saltos do inseto. Perceberam que os louva-a-deus curvavam seu abdômen articulado, giravam as patas dianteiras no sentido anti-horário e as traseiras no sentido horário, levantavam alternadamente e repetiam o processo – isto tudo em cerca de 70 milésimos de segundo.

A flexão do abdômen era a chave. Quando os pesquisadores colaram o abdômen para impedir a flexão, "o louva-a-deus batia a cabeça no alvo", Burrows disse.

Em algum lugar, um beija-flor está rindo.
 

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