O que fazer com os chimpanzés (que não são poucos) usados em pesquisas?

James Gorman

  • Peter Dejong/AP

Faylene é uma chimpanzé de 35 anos de idade vivendo agora na Instalação de Primatas Alamogordo, no Novo México. Ela é propriedade do NIH (Instituto Nacional de Saúde), junto com quase 50 outros espécimes, a maioria usada na pesquisa biomédica.

O NIH decidiu em 2015 que todos os chimpanzés do governo federal seriam levados para santuários, o que, aparentemente, seria o futuro de cerca de 270 (número de março) daqueles que ainda viviam fora dessas instituições.

Mas a situação não é nada simples desde que o governo começou a questionar seriamente o valor de pesquisas nos símios, em 2011. Gradualmente, em uma série de etapas, novas pesquisas biomédicas foram proibidas e, então, todas foram interrompidas em 2015. Nesse mesmo ano, o Serviço de Peixes e Vida Selvagem declarou que todos os chimpanzés, mesmo aqueles em cativeiro, estavam em perigo de extinção, efetivamente banindo as pesquisas invasivas em todos eles, independentemente de seus proprietários.

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Os números mudam conforme os chimpanzés são levados para santuários e morrem, mas o censo do NIH de primeiro de janeiro contou 130 animais do governo federal e ainda abrigados no Centro de Medicina Comparativa e Pesquisa Michael E. Keeling, em Bastrop, Texas, e 79 ainda no Centro Nacional de Pesquisa Primata do Sudoeste em San Antonio. Havia 79 em Alamogordo, mas pelo menos 23 deles se mudaram para um santuário.

A última reviravolta na saga de sete anos para mudar a abordagem federal em relação aos chimpanzés utilizados em pesquisas é o que fazer se os que macacos adoecerem: transferi-los ou deixá-los onde estão e aposentá-los?

No início deste mês, o Conselho dos Conselhos do NIH --título que merece algum tipo de prêmio pela nomeação enigmática-- aprovou um relatório do grupo de trabalho sobre a questão.

AFP
Cerca de 7,5% dos chimpanzés do NIH morrem anualmente
James Anderson, diretor para a coordenação, planejamento e iniciativas estratégicas do programa, disse que o grupo de trabalho foi estabelecido primeiramente por causa da necessidade de um padrão para lidar com a transferência de chimpanzés velhos e enfermos. Cada laboratório ou instalação tinha seu próprio método para avaliar a saúde do animal, mas o relatório estabelece critérios comuns.

O problema que o NIH enfrenta, segundo ele, é a definição da transferência de todos os símios, mas sem matá-los no processo. Os macacos sofrem de doenças relacionadas à idade, como diabetes e problemas cardíacos, e também dos efeitos das experiências das quais participavam, por exemplo, a infecção por um vírus, embora os efeitos duradouros dessas infecções sejam de difícil determinação. Cerca de 7,5% dos chimpanzés do NIH morrem anualmente, disse ele.

O relatório exige, mais uma vez, que todos os animais sejam transferidos para santuários, a menos que a mudança possa encurtar a vida dos animais. O conselho transmitiu o relatório ao diretor do NIH. Haverá um período de comentário público de 60 dias e Francis Collins, diretor do instituto, provavelmente tomará uma decisão final sobre as recomendações em setembro.

Essa notícia pode nem parecer ser notícia, no sentido em que a mudança dos chimpanzés para santuários vai continuar como sempre foi, com, ao que parece, raras exceções.

Mas há detalhes a serem resolvidos, e o fato de que o grupo de trabalho foi estabelecido indica uma profunda diferença na opinião sobre o que é um bom fim de vida para os chimpanzés em cativeiro.

Simplificando, um lado acredita que seria melhor para muitos ficar onde estão, principalmente por causa do cuidado veterinário de alta qualidade, e o potencial estresse dos exames e do transporte envolvido na mudança.

O outro lado afirma que a liberdade relativa de um santuário como o Chimp Haven, com espaços ao ar livre para que a maioria passeie e com grupos sociais mais naturais, é melhor, mesmo para os que têm pouco tempo de vida.

A diferença é filosófica e prática. 

Julian Stratenschulte/EFE

Ativistas do bem-estar animal, como Laura Bonar, da Proteção Animal do Novo México, vê o problema semelhante aos cuidados do fim da vida para os seres humanos. Ela é uma das líderes dos esforços que querem parar a experimentação em chimpanzés e lavá-los para santuários.

Bonar argumenta que, a menos que um chimpanzé esteja para morrer, deveria passar seus últimos dias em um santuário.

"Não vejo nada que impeça que qualquer um desses chimpanzés seja transferido. O relatório do grupo de trabalho só vê o risco. E os benefícios?".

Veterinários de laboratórios de pesquisa veem as coisas de forma diferente. Os Laboratórios Charles River, empresa responsável pelo Alamogordo e com um contrato com o NIH, indicou o instituto para a obtenção de respostas.

Mas, em uma visita recente ao Centro Nacional Yerkes de Pesquisa Primata, conversei com Joyce Cohen, veterinária e diretora associada de recursos animais de lá, que não está envolvida no processo do NIH porque o Yerkes é dono de seus chimpanzés. Ela argumentou que o cuidado dos animais em instituições de pesquisa oferece muitos benefícios.

David J. Phillip/AP
Em um e-mail recente, ela acrescentou outros comentários. "Com base no meu conhecimento de centros de pesquisa e santuários que cuidam de chimpanzés, as diferenças na habitação entre as duas configurações são limitadas."

E enfatizou a qualidade do cuidado veterinário em instituições de pesquisa, incluindo acesso fácil a especialistas. Ela escreveu: "A decisão de transferir um chimpanzé para um santuário ou de aposentá-lo no local de pesquisa deve ser baseada em suas necessidades veterinárias sociais e comportamentais individuais".

Os laboratórios que já trabalharam com chimpanzés não o fazem mais, e as instalações em Alamogordo são mantidas há anos para os chimpanzés que estão essencialmente aposentados.

Mas faltam os espaços exteriores de Chimp Haven e, segundo Bonar, há aspectos importantes do santuário, como materiais para criar ninhos todos os dias, grupos sociais, e um compromisso fundamental com o bem-estar dos animais.

Ela afirma ver um imperativo ético em levar até mesmo chimpanzés doentes para um santuário, o que não foi abordado pelo grupo de trabalho, que precisou apenas analisar os efeitos da transferência dos enfermos.

"Todos esses chimpanzés foram criados, torturados e atormentados por seres humanos. Quero saber onde está dito o que é devido a esses indivíduos que nunca tiveram a chance de saber o que é uma vida normal?", disse ela.

Bonar procurou documentos sobre os chimpanzés de Alamogordo sob a lei da Liberdade de Informação. Ela me enviou uma cópia de um e-mail de seis de julho de 2017, para Sheri Hild, administradora do NIH, escrito por um funcionário do laboratório Charles River (seu nome havia sido excluído), que listou 57 chimpanzés como inelegíveis para transferência por motivo de saúde.

Faylene estava entre eles, por causa de sua idade e pressão arterial elevada e de uma massa uterina.

Talvez as novas diretrizes permitissem que ela fosse transferida, mas, como observou um dos participantes na recente reunião do conselho do NIH em um comentário sobre o relatório, os critérios não são exatos.

Paul Johnson, diretor do Centro de Primatas Yerkes, chamou a atenção para a frase "é muito provável que suas vidas sejam encurtadas".

Ele achou que "não estava claro o que 'muito provável' significa", e sugeriu que o termo fosse substituído por algo como, "risco significativamente aumentado pela transferência com base em critérios padronizados de avaliação de risco".

O que isso significaria para Faylene ainda é uma questão sem resposta.

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