Como a era do gelo moldou Nova York

William J. Broad

  • George Etheredge/The New York Times

    Há muito tempo, a região de Nova York ficava sob uma camada de gelo de milhares de metros de espessura que terminava abruptamente no que agora são os bairros, deixando a cidade com uma paisagem única

    Há muito tempo, a região de Nova York ficava sob uma camada de gelo de milhares de metros de espessura que terminava abruptamente no que agora são os bairros, deixando a cidade com uma paisagem única

No início da última era do gelo, há 2,6 milhões de anos, uma película de água congelada se formou sobre a América do Norte e se expandiu até atingir uma profundidade de aproximadamente 3 km.

Na extremidade sul da placa, foram depositadas toneladas de escombros rochosos, desde areia e cascalho até rochas do tamanho de um ônibus. Há cerca de 18 mil anos, o planeta começou a esquentar e a gigantesca placa de gelo começou a derreter e a se mover.

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Hoje, a extremidade sul daquela imensidão gelada é marcada por uma linha de entulho que se estende por milhares de quilômetros ao norte dos Estados Unidos. Os maiores depósitos formam o que os geólogos chamam de morena.

A cordilheira de pedras se estende de Puget Sound até o rio Missouri e Montauk Point, em Long Island, formando a península que abriga o antigo farol. A antiga placa também deixou sua marca em um fenômeno moderno: a cidade de Nova York.

O gelo sobre Manhattan teria enterrado os prédios mais altos, tão pesado que pressionava a base rochosa da ilha. Ao derreter, pedras gigantescas presas nele caíram pelas laterais da placa e se depositaram onde hoje é a cidade. Muitas ainda são visíveis no Central Park, marcadas pelo tempo.

A ilha foi a última a se formar, e a placa de gelo terminou imediatamente ao sul, no Brooklyn, Queens e Staten Island. Os montes de escombros deixados para trás formam grande parte dos pontos mais altos da região.

Enquanto a linha de detritos glaciais do norte dos Estados Unidos é, em geral, mal delineada, o cume montanhoso ao redor de Nova York tende a ser bastante proeminente, com uma altura máxima de aproximadamente 60 metros, o tamanho de um edifício residencial alto.

George Etheredge/The New York Times
Sidney Horenstein, geólogo e educador ambiental, na vitrine que contém um mapa da região da cidade de Nova York que retrata a morena, a massa de rochas e sedimentos deixados por uma geleira
Os escombros retardaram o desenvolvimento geográfico de outros bairros por séculos. Os primeiros a ocupar a área procuravam terras planas para construir casas e tipicamente ignoravam as placas de gelo, especialmente suas alturas. A terra lá era inacessível, pedregosa, e a ocupação, difícil.

Por fim, os terrenos esquecidos se tornaram parques, cemitérios, campos de golfe e, com o tempo, algumas das vizinhanças mais atraentes da região, com muitos jardins, florestas e bosques.

Hoje, o cume pedregoso e suas encostas adjacentes abrigam o parque florestal e o Highland Park, no Queens, e o Prospect Park, no Brooklyn. As terras vizinhas ao cemitério Green-Wood incluem Battle Hill, parte da placa glacial no ponto mais alto do município.

Muitos bairros da cidade receberam seus nomes a partir de elevações da placa, e de sua bela natureza: Glen Oaks, Hollis Hills, Jamaica Hills, Briarwood, Forest Hills, Ridgewood, Cypress Hills, Crown Heights, Prospect Heights, Boerum Hill, Cobble Hill, Park Slope, Greenwood, Bay Ridge, Lighthouse Hill e Arden Heights.

Por que os remanescentes da última era do gelo são tão proeminentes na cidade de Nova York?

Relíquias Glaciais

Tudo começou há muito tempo, com a placa de gelo continental desenvolvendo uma de suas regiões mais espessas sobre o que é agora o leste do Canadá. Os vastos campos de gelo são incrivelmente pesados; a gravidade pressiona com força. Qualquer inclinação no terreno sob a placa faz o gelo se mover lentamente colina abaixo.

George Etheredge/The New York Times
Uma aproximação do Umpire Rock, no Central Park, revela os sulcos formados por gelo glacial e escombros
Durante séculos, o gelo canadense fluiu por um longo vale ao sul que vai do lago Champlain até o desfiladeiro do rio Hudson, que era, na verdade, um canalizador. O rio de gelo e pedra continuou, implacável, em direção ao sul, até atingir uma região quente o suficiente para impedir seu lento avanço.

Durante as eras de gelo, as geleiras avançam e recuam em ciclos; os caminhos mudam, mas, no geral, o extremo sul de seus movimentos veem acúmulos maciços de pedras e escombros.

Recentemente, a morena resultante chamou a atenção dos cientistas por causa da proximidade com uma das primeiras grandes cidades do país. Assim como os primeiros mapas dos Estados Unidos muitas vezes focavam em Nova York, o mesmo aconteceu com as investigações geológicas, há quase dois séculos.

Apesar do tamanho e do fascínio dos cientistas, os amontoados rochosos não foram obstáculo para arranha-céus e o desenvolvimento urbano. As morenas que moldaram a cidade foram todas esquecidas.

"Claramente, não nos interessa. O sistema educacional aqui não dá atenção para a ciência da terra. Há muitas coisas a se fazer. Prefiro ir a um jogo dos Yankees em vez de estudar geologia", disse David E. Seidemann, professor de Geologia da Faculdade do Brooklyn.

Segundo Sidney Horenstein, geólogo e educador ambiental emérito do Museu Americano de História Natural, a primavera transforma as colinas glaciais em um verde frondoso, abrindo uma temporada favorável à sua redescoberta.

"Facilita muito a visão", disse, enquanto contemplava o monte rochoso da balsa de Staten Island.

Horenstein, de 81 anos, procurou aprofundar a observação geológica, compartilhando com a revista Times um grande apanhado de estudos científicos, relatórios oficiais, recortes de notícias, artigos de revistas e livros antigos que mencionam ou analisam as relíquias glaciais da cidade.

Sua pesquisa também mostra como o estudo de morenas ajudou os geólogos em Nova York e em outros lugares a descobrir que o planeta tinha passado por uma série de idades do gelo, descoberta essa que ocorreu em meados do século XIX.

Cordilheiras, montanhas e planícies normalmente se formam sobre camadas rochosas, como as que sustentam Manhattan e são ideais para a construção de arranha-céus, mas os primeiros pesquisadores descobriram que os cumes montanhosos eram compostos de argila, silte, areia, seixos, pedregulhos e rochas, todos misturados.

Uma pista foram as rochas encontradas, muitas vezes lisas, até mesmo polidas. Às vezes, sua superfície também exibia árvores e estrias em linhas paralelas.

Em 1843, um relatório oficial sobre a história natural do estado de Nova York citou grandes geleiras como uma possível explicação, atraindo muita atenção para o que os geólogos estavam descobrindo. Também listou uma dúzia de outras teorias, incluindo "o dilúvio de Noé", ou o dilúvio bíblico.

Na década de 1860, um crescente acúmulo de evidências convenceu a maioria dos cientistas de que a Terra havia resistido a eras nas quais rios de gelo transportavam rochas e sedimentos por longas distâncias, às vezes, centenas de quilômetros.

Na década de 1880, o termo "era do gelo" já era amplamente usado, e os especialistas começaram a pesquisar algumas de suas consequências práticas.

George Etheredge/The New York Times
Vista do Cemitério Green-Wood, o ponto mais alto do bairro do Brooklyn, em Nova York
Em 1902, a Pesquisa Geológica dos EUA publicou um grande trabalho no Museu Metropolitano de Nova York que detalhava suas fundações, incluindo a cordilheira rochosa. Mapas multicoloridos mostravam a placa glacial entre a rede de ruas e bairros da cidade.

O relatório que acompanhava o mapa dizia que a placa glacial exibia linhas de "morros e cavidades, ou cumes e valas interrompidos". E dizia que algumas depressões abrigavam lagoas, pântanos e pequenos lagos. O relatório estimou que a largura total da placa chegava a 3,2 quilômetros.

A princípio, a cidade usou o morro pedregoso para produzir madeira e fazer captação de água das chuvas. Lentamente, a utilização da área se expandiu para a criação reservatórios, locais de recreação e, com o tempo, bairros onde edifícios e casas foram construídos em fortes bases e alicerces para garantir a estabilidade.

Hoje, apesar do amplo desenvolvimento das extremidades inferiores da cordilheira, uma visão do Google Earth da cidade de Nova York, composta de imagens de abril, junho e setembro passados, mostra a relíquia glacial como uma intermitente faixa verde.

Um Guia Geológico

Falante e extrovertido, com a camisa amarrotada, Horenstein é um bom exemplo de geólogo amarfanhado, um nova-iorquino entusiasmado com as falhas da cidade, sua formação e antigos acidentes e catástrofes. ´E um compêndio de piadas geológicas e se refere a si mesmo não como um contador de histórias, mas um contador de pré-histórias.

Apesar de estar aposentado há muito tempo, trabalha regularmente como guia da geologia da cidade em passeios turísticos, alguns deles organizados pelo museu. Recentemente, a pedido de um repórter, voltou sua atenção à cordilheira glacial.

Na Umpire Rock, no Central Park, com vista para alguns campos de beisebol, o geólogo indicou lugares onde o gelo glacial esculpiu sulcos enormes, maiores que um corpo humano.

Porém, a superfície da pedra era mais suave. A razão disso, disse Horenstein, é que séculos de fricção da placa glacial agiram como uma lixa.

"As crianças podem escorregar pelas pedras", disse ele sobre muitos dos afloramentos rochosos do Central Park.

O parque possui diversos lugares onde o recuo do gelo derrubou pedras gigantes, que os geólogos chamam de erráticas, palavra derivada do latim "errare", ou "vagar". A composição dessas pedras gigantescas é diferente daquela das formações rochosas ao seu redor: algumas repousam sobre estruturas planas, muitas vezes se parecendo com monumentos alienígenas.

"Elas são arredondadas porque foram arrastadas por rios de gelo", explicou Horenstein.

Mais tarde, em uma visita a Staten Island, ele apontou para a célebre vista dos prédios de Lower Manhattan. Estimativas atuais dizem que a espessura do gelo na região era o dobro dos primeiros cálculos – não 300 metros, mas algo em torno de 600, e possivelmente ainda mais que isso.

"Era mais alto do que qualquer edifício, mesmo a Freedom Tower", comentou Horenstein, o arranha-céu de 540 metros de altura.

As bordas frontais das geleiras podem ser inclinadas ou perpendiculares, como um penhasco. Horenstein disse que, para os geólogos, a face dessa geleira era perpendicular; de sua borda não caíram somente rochas, mas também gigantescos blocos de gelo.

O peso era tão grande que pressionava o alicerce da região da cidade de Nova York – tanto que, após o recuo da geleira, as profundezas rochosas se reergueram lentamente. Horenstein diz que subiram cerca de 45 metros.

Em Fort Wadsworth, uma muralha histórica ao lado da Ponte Verrazano-Narrows, ficamos no topo da morena e olhamos para o outro lado do Narrows, o estreito entre Staten Island e o Brooklyn. A região que se transformaria nos dois bairros era originalmente conectada pela cordilheira glacial.

George Etheredge/The New York Times
Umpire Rock, no Central Park, cujos sulcos foram formados por gelo glacial e escombros
Há 13 mil anos, um grande corpo de água de geleiras derretidas subitamente inundou o norte do estado, com uma onda destruidora desabando pelo desfiladeiro de Hudson, começando a destruir o extremo sul da morena local.

"Foi bíblico", disse Horenstein. E a onda criou o Narrows, que agora conecta o Oceano Atlântico a um dos maiores portos naturais do mundo.

Na área metropolitana, a ponta sul de Staten Island tem vista para Arthur Kill e Raritan Bay, e é o extremo sul da placa glacial. O local hospeda o Conference House Park, que ganhou esse nome por causa de uma conferência de paz mal-sucedida, realizada em 1776, durante a guerra da independência.

Enquanto caminhávamos pela mansão de pedra onde ocorreu a reunião, Horenstein apontou para as rochas arredondadas em suas paredes e, com base na cor e textura, começou listar seus prováveis locais de origem: alguns do norte do estado de Nova York, alguns de Nova Jersey, e assim por diante.

Quais são originárias da cordilheira glacial?

"Todas. Era o material de construção local", respondeu.

Caminhamos até a praia vizinha e vagamos por alguns metros até um monte de areia, onde tivemos um raro vislumbre do coração da cordilheira: um emaranhado de barro, sedimentos, seixos e pedregulhos em uma frágil matriz revelada pela ação de marés, furacões e ondas.

"De toda a cidade, este é o único lugar de onde dá para ver a morena claramente. Aqui, no extremo sul", disse Horenstein.

Horenstein pegou uma pedra arredondada que, de alguma forma, acabou na mochila do repórter como lembrança daquele dia.

Incrivelmente, milhões de pessoas vivem sobre ou perto da cordilheira glacial, que se estende por cerca de 50 quilômetros além de Nova York. Invisível, liga três distritos, oferecendo um testemunho silencioso do poder do gelo desaparecido.

Se a cordilheira é uma história perdida para a maioria dos habitantes da cidade, pelo menos um deles sabe algo sobre a arte de trazê-la de volta à vida.

"É uma coisa que me rejuvenesce. Há sempre algo para ver, algo que você perdeu, algo novo", afirmou Horenstein.

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