Plantas não falam, mas algumas frutas dizem "coma-me" para os animais

  • Liran Samuni/NYT

Enquanto o sol se levanta no Parque Nacional de Kibale em Uganda, o dossel da floresta tropical está salpicado de frutas vermelhas e figos alaranjados, que aguardam que macacos, primatas ou pássaros adentrem suas folhagens, comam a fruta madura e cuspam ou defequem as sementes longe de suas fontes, espalhando sua próxima geração para um novo local.

A quase 3,2 mil quilômetros de distância, nas florestas tropicais montanhosas do Parque Nacional Ranomafana, em Madagascar, frutinhas amarelas e figos verdes esperam pelos lêmures, os frugívoros desta selva. Eles revistam a floresta todas as noites para encontrar seu banquete, e mais tarde irão espalhar as sementes.

Novas pesquisas sugerem que, ao longo de milhões de anos de seleção natural, essas plantas desenvolveram maneiras de se comunicar com os animais através de seus frutos, dizendo algo como "escolha-me". Com traços evoluídos para corresponder às capacidades sensoriais ou habilidades físicas de cada animal, os frutos podem sinalizar a hora do jantar na selva – e mais ainda, a sobrevivência da planta enquanto espécie.

Quando descobri que as plantas, de certa forma, têm um comportamento – que elas estavam realmente comunicando informações aos animais – minha mente explodiu 

Kim Valenta, ecologista evolutiva da Universidade Duke

Valenta é coautora de um estudo publicado recentemente na Biology Letters que investiga a relação entre a cor do fruto e a visão dos animais; junto com seu colega Omer Nevo, ecologista evolutivo na Universidade de Ulm, na Alemanha, que publicou outro artigo sobre os cheiros na Science Advances, estão trabalhando para compreender como as plantas se adaptaram e se tornaram apetitosas para os animais que espalham suas sementes. Os dois revelaram que as plantas merecem mais crédito – e que as relações intricadas entre elas e os animais podem ser críticas para compreender e preservar seu habitat compartilhados.

Por mais de um século, os biólogos se perguntam por que os frutos que são intimamente relacionados às plantas têm aparências tão diferentes, e como os animais sabem quais comer.

A hipótese prevalecente foi que os animais poderiam ter influenciado as características dos frutos – como sua forma, localização em uma árvore, apresentação no galho ou cor e odor – através da seleção natural. Quanto mais fácil for para os frugívoros identificar frutas maduras, melhor a chance de sobrevivência para ambos. O animal se alimenta e a planta-mãe se reproduz – usando os animais como jardineiros.

De maneira semelhante, muitas flores produzem a forma, cor, textura e aroma de suas pétalas, assim como o sabor do néctar, para atrair uma única espécie polinizadora. Os cientistas aceitam que as características das flores podem resultar da coevolução, por conta da especificidade dessas relações.

Mas eles se questionaram sobre plantas se reproduzindo através de dispersão de sementes. Como você pode fixar traços particulares de um fruto para um animal quando muitos animais diferentes, com suas próprias adaptações evolutivas, alimentam-se e interagem com os mesmos frutos?

Embora algumas características, como a forma, sejam mais fáceis de estudar, sem ferramentas adequadas para medir a cor e o odor, muitas pesquisas têm invocado percepções humanas e podem ter esquecido de que modo outros animais experimentam o mundo.

Para os pesquisadores, esses parques de Uganda e de Madagascar ofereceram as experiências naturais perfeitas. Com paisagens e plantas semelhantes, mas com frutos de aparência diferente que alimentam animais com habilidades sensoriais muito diversas, os pesquisadores poderiam revelar como os sentidos da fauna podem ter influenciado as cores contrastantes de frutos maduros contra a folhagem.

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Lêmures correm sobre um galho em Madagáscar

Os macacos e primatas em Uganda têm visão tricolor como os seres humanos e os pássaros têm uma visão ainda melhor que a deles. Mas a maioria dos lêmures em Madagascar só pode ver o espectro azul-amarelo – eles não distinguem o vermelho e o verde e dependem mais de seu olfato poderoso para muitos comportamentos.

Assim, os pesquisadores recolheram frutos maduros, verdes e a folhagem e analisaram suas cores com um espectrômetro. Com um modelo baseado na capacidade visual dos animais que dispersam sementes, determinaram também que era mais provável detectar cores de frutas diferentes contrastando contra uma variedade de fundos.

Descobriram que as cores de cada fruto foram otimizadas contra o pano de fundo natural para atender às demandas dos sistemas visuais de seus dispersores de sementes primários. Em Uganda, frutas que contrastam com folhagem em cores no espectro do vermelho-verde se sobressaem para aves e macacos cujos olhos podem vê-los.

Mas em Madagascar, frutas com contrastes azul-amarelos podem ser melhor detectadas por lêmures (e por alguns pássaros, também).

Os pesquisadores também sabem que os lêmures dedicam grandes áreas do cérebro ao olfato, ajudando-os na comunicação entre si e na escolha de companheiros – muitas vezes no escuro. Para esses bichos com olfato excelente, um figo marrom perfumado pode ter maior destaque.

No estudo sobre os cheiros de Nevo, sua equipe coletou centenas de frutos maduros e não maduros de Ranomafana – cerca de um terço disperso por lêmures e pelos poucos pássaros que têm boa visão do parque. Ele suspeitou que os frutos comidos por lêmures teriam uma diferença maior no odor depois de amadurecidos do que os frutos comidos pelas aves.

Para descobrir isto, ele extraiu seus odores usando a "técnica de headspace semiestática". Selados em sacos para forno, os odores químicos das frutas se fortaleceram e, em seguida, foram liberados e analisados.

Eles confirmaram que os frutos dispersos unicamente por lêmures produziram mais produtos químicos e uma maior variedade de compostos no amadurecimento. E na selva, os lêmures passaram mais tempo cheirando esses mesmos frutos com grandes diferenças entre os odores da fruta madura ou não. Para os pesquisadores, isso sugeriu que as diferenças poderiam estar dizendo "Estou aqui. Coma-me" às criaturas que não têm capacidade de enxergá-las.

Esses resultados podem ser considerados extremos, casos localizados que apoiam a hipótese de que as plantas e os dispersores de semente evoluem juntos. Mas os pesquisadores encontraram pistas adicionais em uma relação entre os elefantes florestais no parque de Uganda e a Balanites wilsoniana, uma árvore que talvez não sobrevivesse sem eles.

Quando maduros, Valenta disse que conseguia detectar o odor "meio fermentado" dos grandes frutos da árvore por quilômetros. Elefantes – com nariz e genes olfativos enormes, maiores do que qualquer outro animal conhecido na terra – devoram os frutos caídos (que podem deixá-los um pouco bêbados também).

Somente os elefantes conseguem engolir as frutas e defecar as sementes igualmente grandes. E essa planta não se reproduz a menos que passe pelo intestino de um elefante, disse Valenta. Esse tipo de dependência mútua é visto em relacionamentos bem conhecidos de polinizadores de flores, mas é raro encontrar na relação fruto-semente-dispersor. Mais pesquisas podem oferecer mais evidências de que os sentidos dos animais influenciam as características do fruto.

A árvore-do-viajante em Madagascar destaca outra estratégia de propaganda vegetal direcionada aos animais.

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Os misteriosos aie-aie, asism como os lêmures, são importantes polinizadores

Em outras partes do mundo, aves relacionadas a outras plantas produzem sementes revestidas de vermelho ou amarelo que são facilmente detectáveis pelas aves. Mas em Madagascar, onde a árvore-do-viajante é nativa, as sementes têm um azul brilhante e são particularmente detectáveis pelos aie-aie, uma espécie de lêmure parecida com um rato-gato-morcego e com uma capacidade melhorada para detectar a luz ultravioleta, de acordo com Valenta.

As sementes de muitas plantas – a árvore-do-viajante entre elas – também contêm um laxante, incitando aqueles que as comem a não digeri-las, expulsando-as apressadamente, "com uma pilha agradável de fertilizante", disse Jonathan Drori, autor de "Around the World in 80 Trees".

Os aie-aie e outros lêmures também são polinizadores, usando sua força para abrir os receptáculos robustos de néctar, garantindo que a planta produza sementes.

"Se algo acontecesse com os lêmures, aquelas árvores, pelo menos em estado selvagem, seriam extintas", disse Drori.

Interações como essas nos lembram que as plantas são membros ativos de um ecossistema complicado e frágil – não apenas paisagem.

"Estamos apenas começando a entender o quanto as plantas e os animais significam um para o outro. Para mim é apenas um sinal de que é imprescindível que se conserve a coisa toda intacta", disse Valenta.

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