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EUA criaram Vale da Morte para desenvolver armas macabras durante a 1ª Guerra Mundial

Washington

25/11/2018 04h00

Sob as copas de choupos e carvalhos, uma equipe de geofísicos examina o chão da floresta em busca de relíquias centenárias de guerra. No chão coberto de folhas, posicionam um detector eletromagnético para que o delicado instrumento colete dados sobre objetos no solo abaixo.

Em 1918, morteiros e granadas de artilharia foram lançados exatamente para esse ponto próximo ao reservatório de Dalecarlia, uma das principais fontes de água na capital do país. Só que ali não lutou nenhum Exército e não houve ofensiva subindo o talude. Na realidade, o bombardeio veio do campus de pesquisa bélica da American University, a leste dali, onde cientistas desenvolviam armas químicas, explosivos, bombas e máscaras de gás para uso nos campos de batalha da 1ª Guerra Mundial.

No centenário do término da guerra, o trabalho nesse bosque faz lembrar que ela já teve outro nome: "A guerra dos químicos", um apelido revelador do papel crucial que a ciência teve no conflito. Alex Zahl, gerente de projetos da Unidade de Engenharia do Exército e apaixonado confesso pela 1ª Guerra, reflete sobre o fato de a ciência avançada estar buscando restos de testes feitos em 1918.

No trailer com ar-condicionado que serve de central de comando do saneamento, Zahl, 62, diz que, "cem anos atrás, o desenvolvimento de armas químicas era tecnologia de ponta, o que havia de mais avançado". "E aqui estamos cem anos depois usando alta tecnologia para remediar os resíduos que eles deixaram."

A 1ª Guerra Mundial, que terminou com o armistício em 11 de novembro de 1918, é execrada pelas horrendas condições de suas batalhas, seus cruentos confrontos --em Somme, Verdun, Passchendaele etc.-- e o resultante massacre humano. Houve cerca de 8,5 milhões de soldados mortos e 21 milhões de feridos.

Pouco se lembra do papel da ciência. A guerra acelerou o progresso tecnológico em ótica, radiologia e ecolocalização. Os alemães tinham o temido Canhão de Paris, que lançava até a estratosfera bombas gigantescas que voltavam ao solo atacando a capital francesa, a 120 quilômetros de distância. Havia ágeis submarinos alemães de tocaia sob as ondas. No início da guerra, a aviação estava na infância e chegou à maturidade ao fim do conflito. O inventor Thomas Edison ajudou a Marinha dos EUA com suas façanhas científicas.

Soldados com roupas protetivas na estação de experimentos da American University Imagem: National Archives and Records Administration

Mesmo antes de os EUA entrarem na guerra, a Academia Nacional de Ciências já previra a necessidade de colaboração entre cientistas, universidades, indústria e Exército. O presidente Woodrow Wilson instituiu o Conselho Nacional de Pesquisa em 1916 e, depois de o presidente declarar guerra em 6 de abril de 1917, o secretário de Eelações Exteriores da Academia Nacional, George Hale, disparou um telegrama para colegas na Inglaterra, França, Itália e Rússia: "A entrada dos Estados Unidos na guerra une nossos cientistas e os vossos por uma mesma causa".

Os cientistas americanos se entregaram ao esforço de guerra. Embora poucos sejam conhecidos hoje, houve contribuições voluntárias dos maiores físicos, químicos e engenheiros da época. Muitos deles vieram de universidades prestigiosas e eram chamados de "dólar anual", por receberem pagamento simbólico por sua ajuda.

"Os militares tinham problemas que não conseguiriam resolver sem ajuda", explica Daniel Kevles, professor emérito de história em Yale e autor de "Os Físicos".

De várias maneiras, o Serviço Americano de Guerra Química sintetizou essas iniciativas. Os americanos estavam mal preparados para fazer frente ao programa alemão de guerra química, idealizado por seus químicos mais conceituados. Ao entrar no conflito dois anos depois de os alemães usarem gás cloro durante um ataque surpresa em Flandres, na Bélgica, desencadeando a corrida armamentista química, o Exército americano não tinha nem máscaras de gás nem equipamento de proteção, nem capacidade de produzir ou utilizar armas químicas. Os médicos não sabiam como tratar soldados gaseados ou quimicamente queimados. E pouco tempo restava para se equiparar aos alemães.

Para corrigir essas deficiências, o Ministério da Guerra montou um laboratório chamado de Estação Experimental da American University, inicialmente vinculado à Secretaria de Minas. Começou modestamente com um edifício e menos de cem pesquisadores.

Ao fim da guerra, quase 2.000 soldados, cientistas e civis trabalhavam no campus, que os soldados chamavam de "Monte Mostarda", em referência à mostarda de enxofre, um agente vesicante (substância química que em contato com a pele e a mucosa produz irritação e bolhas cutâneas).

Para testes, o Exército alugou terras adjacentes, que os soldados batizaram de "Vale da Morte". O serviço tinha vários laboratórios e postos remotos distribuídos em campi e fábricas no país todo, uma iniciativa que alguns historiadores comparam ao Projeto Manhattan da Segunda Guerra Mundial.

Terminada a guerra, os cientistas revelaram que haviam desenvolvido uma nova arma chamada lewisite, um agente vesicante à base de arsênico, produzido perto de Cleveland por uma fábrica secreta apelidada de "ratoeira", por seu complexo procedimento de segurança. Embora nunca usado, diz-se que o "gás supervenenoso" teria sido jogado nos alemães em 1919, caso a guerra não tivesse terminado.

Aparato para testar a visão periférica com máscara de gás Imagem: National Archives and Records Administration

"Embora muitos de seus sucessos não tenham sido perfeitos, eu diria que o crescimento do armamento químico nas forças armadas americanas durante a Primeira Guerra Mundial foi sem paralelo", comenta o historiador Thomas Faith, que em 2014 publicou um livro sobre guerra química, "Atrás da Máscara de Gás".

Após a guerra, a estação experimental foi vinculada à American University. Nas décadas seguintes, imobiliárias transformaram as terras vizinhas em bairro residencial nobre, e o "Vale da Morte" virou "Vale Primavera" (Spring Valley), ao norte do Distrito de Columbia.

Grande parte do legado da Primeira Guerra foi esquecido até 1993, ano em que as construtoras descobriram um esconderijo de morteiros, o que provocou um estado de emergência, evacuações e um longo processo de saneamento. Ao todo, encontraram-se 141 munições no local.

Anos depois, a Unidade de Engenharia reiniciou o exame da área após admitir que fora precipitada ao finalizar o saneamento. Descobriu-se que a contaminação e a disseminação de resíduos eram mais extensas do que se pensava. Os moradores protestaram, e o Exército prometeu mais transparência e participação da comunidade.

Desde então, a Unidade tem sido presença constante em Spring Valley. Centenas de munições já foram retiradas, a maioria de apenas alguns buracos enterrados. O arsênico é o contaminante mais disseminado. O Exército já retirou milhares de toneladas de solo contaminado, substituindo-o por terra impoluta. Já foram detectados e removidos vários compostos químicos bélicos, tais como mostarda de enxofre e lewisite, assim como vestígios dos elementos químicos que persistem após a paulatina decomposição dos agentes.

Muito tempo após o saneamento, perdura entre os cerca de 25 mil moradores de Spring Valley a inquietação com os efeitos da contaminação química sobre a saúde, especialmente depois que um jornal da região, após longa investigação, relatou que alguns residentes sofriam de doenças e problemas de saúde inusitados.

Uma pesquisa de saúde realizada em 2007 pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins revelou que os residentes da região são em geral mais saudáveis do que a média americana. No entanto, em comparação com a vizinha Chevy Chase, é um pouco maior sua incidência de câncer, incluindo alguns tipos associados ao arsênico. Uma pesquisa seguinte em 2013 também revelou que a saúde da comunidade ia muito bem. Ao não encontrar ligações conclusivas entre os restos da guerra e as doenças presentes, a Johns Hopkins recomendou o cessamento das pesquisas epidemiológicas, mas aconselhou que se prosseguisse o monitoramento da saúde na região.

A residência desocupada do presidente da American University fica ao lado de terreno vazio, após casa ser derrubada em 2012 devido à contaminação Imagem: Andrew Mangum/NYT

O processo de saneamento ambiental também é um tipo de ação arqueológica, uma caçada histórica em busca de evidências das iniciativas científicas em guerra química.

Um local importante é um terreno contaminado onde a Unidade demoliu uma casa em 2012. O local persiste como um símbolo das complexidades do saneamento. No verão de 2017, durante o que se esperava ser uma fase de baixo risco, três trabalhadores tiveram enjoo causado por um agente químico não identificado no solo, interrompendo a escavação.

Indícios de produtos químicos foram encontrados em amostras de ar coletadas abaixo da casa adjacente, cujo último residente havia sido o reitor da universidade. A escavação foi retomada mês passado. A atual reitora, Sylvia Burwell, ex-secretária de Serviços de Saúde e Humanitários, não reside ali. A universidade não aceitou uma solicitação de entrevista com Burnwell.

Na mais recente fase do saneamento, o exército começa a examinar o solo de aproximadamente 90 propriedades dentro do alcance da artilharia. O esquadrinhamento próximo ao reservatório está em seu estágio inicial, usando uma nova tecnologia que localiza objetos metálicos enterrados e coteja seus perfis digitalizados com a base de dados de munições militares, tais como bombas de morteiro ou cartuchos de artilharia. Caso o item seja inofensivo --"detrito cultural" no jargão militar; uma lata de refrigerante, por exemplo--, não será removido.

"Deixaremos no solo itens que todo esse equipamento classifica como detrito cultural sem nada a ver com as atividades da Primeira Guerra", diz Zahl.

Numa das propriedades em Spring Valley, algumas relíquias provavelmente jamais serão removidas. No ano passado, Elliot Gerson e sua mulher, Jessica Herzstein, compraram a mansão em que os pais dela residiram durante décadas. Apesar de a Unidade já ter investigado exaustivamente e saneado a propriedade, declarando não haver riscos à saúde, conservam-se ali três construções originais da Estação Experimental.

Na encosta arborizada acima da entrada, há uma laje de concreto coberta de mato, cortada por uma calha chanfrada: a plataforma de lançamento dos morteiros. Atrás da casa, encravados na mata, há dois paióis envoltos em hera, com samambaias saindo pelas rachaduras.

Uma tarde, Elliot, 66, subindo por um atalho de ardósias até uma das construções, parou para refletir. Disse que era "um sítio arqueológico secreto na floresta", evidência de atividade científica já centenária.

Dentro, mostrou nas paredes os buracos por onde os cientistas talvez bombeassem gás para dentro do recinto. Segundo ele, embora seja hoje inofensiva, a construção lembra que ali se testaram armas macabras, tiradas da obsolescência na Síria e em outros locais, um século após o fim da Primeira Guerra.

"Ainda são um lembrete impressionante de um capítulo excepcionalmente pouco conhecido, porém muito importante, da história dos EUA. Alguns de nossos melhores químicos se uniram num esforço urgente para salvar os Aliados depois que a Alemanha começou a usar armas químicas", disse ele.

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