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Como a capacidade de se alimentar de outro animal mudou a história da Terra

Simon Darroch, paleontologista da Universidade Vanderbilt, examina fósseis na Namíbia Imagem: NYT

Asher Elbein

11/12/2018 04h01

Há cerca de 635 milhões de anos, enquanto a Terra sacudia enormes camadas de gelo glacial, um mundo alienígena florescia no fundo do oceano.

Nenhum animal complexo percorria os mares do período Ediacarano. Em vez disso, as profundezas eram ocupadas por tapetes microbianos e criaturas estranhas que não se assemelhavam a nada que existe hoje. Os paleontólogos sugerem que se tratava de uma espécie de Jardim do Éden, um ecossistema simples que foi substituído pela fauna mais vibrante do período seguinte, o Cambriano.

Mas pesquisas têm modificado a visão de tal cenário, sugerindo que os ecossistemas ediacaranos eram mais complexos. Os fósseis também indicam o início de uma enorme mudança: a coleta de carcaças que evoluiu para a predação.

Foi o início de uma grande mudança no ecossistema da terra, uma mudança irreversível. A capacidade de se alimentar de outro animal é uma grande inovação ecológica e biológica

Mary Droser, paleobióloga da Universidade da Califórnia, em Riverside.

Os fósseis do Ediacarano, encontrados em locais como a Namíbia e o sul da Austrália, são notoriamente controversos e difíceis de interpretar. Incluem bolhas estranhas, filtro-alimentadores e organismos que se assemelham a samambaias enormes, alguns com quase três metros de comprimento.

"No início, todos eram considerados como águas-vivas", disse Simon A. F. Darroch, paleontólogo da Universidade Vanderbilt. "Mais tarde, outros argumentaram que eram animais-tronco ou líquens." (Os animais-tronco eram protoanimais: não eram plantas, mas também não eram criaturas.)

Os cientistas também debateram quão sofisticadas eram essas ecologias do fundo do mar, acrescentou Darroch. Um ecossistema complexo contém várias espécies com uma infinidade de estratégias alimentares, como uma floresta moderna ou um recife. Um ecossistema simples compreende apenas algumas espécies com as mesmas estratégias básicas.

Olhando para os organismos aparentemente simples do período Ediacarano – sem pernas ou entranhas aparentes –, a maioria dos pesquisadores supôs que esse ecossistema era do tipo simples. Mas, em um estudo recentemente publicado na "Nature Ecology & Evolution", Darroch e seus colegas analisaram fósseis do fundo do mar de várias partes do Ediacarano e concluíram que as fases iniciais do período caracterizaram-se pela existência de comunidades interdependentes.

Se você mergulhasse nos mares do Ediacarano, veria sedimentos cobertos por grossas camadas de micróbios verdes ou brancos. Não havia criaturas que escavassem as profundezas por lá; a lama do oceano tinha a solidez e a viscosidade de um piso de cerâmica depois de uma festa de faculdade.

Os poucos organismos multicelulares pastavam lentamente em tapetes congelados ou acomodavam-se em cima deles. Águas-vivas, ou algo que se assemelhava a elas, podem ter flutuado pelas águas abertas – mas ninguém tem certeza.

Muitos desses organismos tinham uma arquitetura diferente de qualquer organismo moderno conhecido, disse Martin Smith, paleontólogo da Universidade de Durham, na Inglaterra. Embora se parecessem com plantas, viviam em águas profundas demais para que a luz solar penetrasse.

Mesmo suas formas são desconhecidas. Alguns podem ter tido padrões complexos; outros podem ter sido inchados como um colchão de água.

"Provavelmente, cresceram com muita lentidão, chegando como esporos em um fundo virgem após um deslizamento de terra. Em seguida, teriam se reproduzido de maneira assexuada para formar colônias interligadas que gradualmente povoaram o fundo do mar", disse Smith.

Darroch e seus colegas sugerem que diferentes estratégias de alimentação estão na raiz dessa diversidade inesperada, porém Smith acha difícil imaginar tais organismos alimentando-se de maneiras radicalmente diferentes.

Em vez disso, ele sugeriu que os organismos podem ter competido uns com os outros com estratégias reprodutivas variadas. Alguns foram capazes de alterar suas formas de acordo com seu entorno e, em seguida, espalhar seus esporos por distâncias maiores.

Mesmo com tal diversidade inesperada, o Ediacarano era um mundo imóvel, sem muita ação predatória. Mas os organismos mortos eram um recurso fácil, disse Droser, e alguns animais começaram a se aproveitar deles.

De acordo com um artigo recente que Droser coescreveu na revista "Emerging Topics in Life Sciences", um novo conjunto de fósseis descoberto mostra os vestígios mais antigos dessa coleta de carcaças. Recuperadas no sul da Austrália, as rochas possuem fósseis preservados de organismos do Ediacarano, com passagens minúsculas esculpidas neles.

Droser e James Gehling, paleontólogo do Museu do Sul da Austrália, sugerem que essas tocas foram feitas por animais que mordiscavam esses tapetes microbianos e assim devoravam organismos mortos.

Em um mundo onde nada ia muito fundo, a escavação de tocas teria sido uma inovação biológica e ecológica.

"Essa coleta ocorreu depois que os organismos foram enterrados, por isso sabemos que eles estavam mortos. Comer um animal morto requer mais oxigênio e também um metabolismo que seja capaz de digeri-lo", disse Droser.

Mas Smith discorda, ressaltando que esses sinais de coleta após o período Ediacarano não teriam ocorrido assim. Os cientistas tendem a encontrar padrões elaborados em fósseis deixados por animais que exploraram cada centímetro de matéria em deterioração.

"Esses saprófagos do Ediacarano pareciam não se importar com o fato de passarem por uma refeição em potencial", disse Smith. "Isso não soa como uma grande estratégia para um saprófago, menos ainda para um predador", acrescentou. "Mas talvez esses primeiros organismos estivessem aprendendo."

De qualquer forma, o advento da simples coleta de organismos mortos e da escavação de tocas anunciou grandes mudanças por vir. A coleta pode ter sido um degrau para predação ativa, e a evolução dos primeiros predadores deu o pontapé inicial para a corrida por patas. Uma vez que as presas passaram a tentar escapar, defendendo-se ou resistindo, a competição e a seleção natural começaram a se fortalecer.

Há indícios de que algo estava mudando ao final do Ediacarano, disse Darroch: sinais de movimento na lama caem drasticamente, assim como o número de espécies registradas – sintomas de um ecossistema sob estresse.

À medida que os tapetes microbianos desapareceram em um mundo de saprófagos, as espécies mais frágeis também se extinguiram. A aparição de animais mais reconhecíveis – móveis e poderosos, capazes de perfurar os tapetes e devorar outros organismos vivos – pode ter causado uma extinção em massa.

A explosão cambriana deu origem a muitos grupos de animais reconhecíveis e, durante algum tempo, estes ofuscaram os estranhos e silenciosos jardins do Ediacarano.

"A vida impactou nosso mundo hoje desde a produção de oxigênio até a movimentação do solo. Podemos ver no Ediacarano os primeiros de uma série de processos biológicos e ecológicos que mais tarde se tornaram essenciais para o nosso planeta", disse Droser.

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