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Nem a morte impede Stephen Hawking de estimular o debate científico

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Stephen Hawking foi um gênio que segue incentivando o debate científico Imagem: Divulgação

Dennis Overbye

2019-02-10T04:00:00

10/02/2019 04h00

Recentemente, o cosmólogo e ícone pop da ciência Stephen Hawking, que morreu em março no dia do aniversário de Albert Einstein, falou da sepultura, através de seu último trabalho científico. De modo bem apropriado para quem está no além, o trabalho é sobre como escapar de um buraco negro.

Excluindo-se sua matemática abstrata, o trabalho é uma ode à memória, à perda e ao mais antigo dos anseios humanos - o desejo de transcendência. Como diz a canção "Atlantic City" de Bruce Springsteen: "Everything dies, baby, that's a fact, but maybe everything that dies someday comes back." (Tudo morre, baby, isso é um fato, mas talvez tudo o que morre um dia volte).

Hawking era a manifestação da perseverança; sofrendo da mesma doença de Lou Gehrig, ele conseguiu conquistar o universo em uma cadeira de rodas. O destino da matéria ou da informação capturada por um buraco negro definiu sua carreira e se tornou uma das questões mais profundas da física.

Buracos negros são objetos tão densos que, de acordo com a lei da relatividade geral de Einstein, nem mesmo a luz consegue escapar. Em 1974, Hawking virou do avesso esses objetos - e toda a física. Ele descobriu, para sua surpresa, que os efeitos quânticos aleatórios que governam o mundo microscópico poderiam ocasionar vazamentos nos buracos negros e, por fim, sua explosão e desaparecimento.

Na totalidade do tempo, toda a massa e a energia que haviam caído no buraco acabariam saindo de novo. Mas, de acordo com equações clássicas de Einstein, buracos negros são perturbadoramente simples; suas únicas propriedades são massa, carga elétrica e momento angular. Todos os detalhes daquilo que cai em um deles desaparecem dos bancos de memória do universo. Um buraco negro não tem complicações, como diz o Teorema da Calvície.

Assim, a fonte de matéria e energia saindo de um buraco negro seria aleatório, enfatizou Hawking em um trabalho de 1975. Se você cair em um e conseguir sair, perderia todos os detalhes que o definem: masculino ou feminino, olhos azuis ou castanhos, torcedor do New York Yankees ou do Boston Red Sox. A equação que descreve esse fato está inscrita na lápide de Hawking, na Abadia de Westminster.

Isso é um tipo de reencarnação. Se a natureza pode esquecê-lo, poderia esquecer qualquer coisa - um golpe mortal para a capacidade da ciência de reconstruir o passado ou prever o futuro. "É o passado que nos diz quem somos. Sem ele, perdemos nossa identidade", afirmou Hawking uma vez.

Na verdade, Hawking registrou em seu trabalho de 1975, os efeitos quânticos paradoxais que Einstein havia descartado, dizendo que Deus não joga dados com o universo, acrescentavam um esquecimento extra à natureza. "Deus não só joga dados, como muitas vezes joga onde eles não podem ser vistos", escreveu Hawking.

Aquelas foram palavras desafiadoras para outros físicos; era um princípio básico de que o filme proverbial da história pode ser passado de trás para frente, para reconstruir o que aconteceu em, digamos, a colisão de partículas subatômicas em um colisor de alta energia.

Trinta anos depois, Hawking se retratou, mas a discussão continuou. O "paradoxo da informação", como é conhecido, permaneceu no centro da física porque ninguém, nem mesmo Hawking, conseguiu explicar como os buracos negros realmente processam a informação que entra ou sai deles. Mas os cientistas sempre gostaram de teorizar sobre a natureza do espaço-tempo, da informação e da memória. Alguns sugerem que não é mesmo possível entrar em um buraco negro sem ser vaporizado por um firewall de energia, quanto mais sair dele.

Os últimos anos trouxeram uma réstia de esperança. Andrew Strominger, de Harvard, descobriu que, quando visto a partir da perspectiva matemática correta - a de um raio de luz seguindo para o futuro infinito - os buracos negros são mais complicados do que pensávamos. Eles têm o que Strominger chamou de "cabelo macio", na forma de raios de luz imaginários, que podem ser tocados, acariciados, torcidos ou combinados com material que entra no buraco negro. A princípio, esse cabelo poderia codificar informações sobre a superfície do buraco negro, registrando todos os detalhes que as equações de Einstein supostamente deixam de fora.

Se isso é o suficiente para salvar a física, ou pelo menos alguém que caia em um buraco negro, era ao que Hawking se dedicava nos anos antes de sua morte.

"Quando escrevi meu artigo 40 anos atrás, achava que a informação passaria para outro universo", disse-me ele em uma conferência em Harvard. Agora, afirmou, ela está na superfície do buraco negro. "A informação será emitida novamente quando o buraco negro evapora."

Outros peritos foram mais comedidos, dizendo que, se o cabelo macio não resolve o paradoxo da informação, pode pelo menos ajudar.

Em seu trabalho póstumo, que chamou grande atenção da imprensa, Hawking e seus colegas se esforçaram para mostrar como essa ideia otimista poderia funcionar. Além de Hawking, os outros autores foram Strominger, Malcolm Perry e Sasha Haco, estes dois da Universidade de Cambridge.

Strominger espera que os físicos um dia sejam capazes de entender os buracos negros apenas lendo o que está escrito nesse cabelo macio. "Não provamos nada", disse ele em um e-mail. Mas mostraram como todas as peças poderiam se encaixar: "Se o nosso palpite estiver correto, esse trabalho será de grande importância. Se não, será uma nota de rodapé técnica".

Pouca gente, incluindo Hawking, esperava que a resolução do paradoxo da informação traria de volta nossos pais, os dinossauros ou Joe DiMaggio. Em algum ponto, todos nós, de algum modo, aceitamos a ideia de que chegaremos ao fim, mas gostamos de saber que seremos lembrados, e que nossos genes, livros e nomes vão continuar.

O filme de 2017 da Pixar/Disney, "Viva - A Vida é uma Festa", conta a história de um menino mexicano que visita a Terra dos Mortos para encontrar um ancestral que pode ajudá-lo em seu sonho de se tornar um músico. A Terra dos Mortos é um lugar animado, mas seus habitantes só podem ficar lá se alguém se lembrar deles. Quando as memórias desaparecem, o mesmo ocorre com os esqueletos animados.

Alguns astrônomos agora dizem que até essa pálida versão da salvação pode estar ameaçada. Uma força misteriosa chamada energia escura está acelerando a expansão do universo. Um dia, segundo esses especialistas, se a expansão continuar, fazendo com que as galáxias se afastem cada vez mais rapidamente, o resto do universo estará permanentemente fora de nosso campo de visão, e estaremos para sempre fora de sua vista. Seria como se estivéssemos cercados por um buraco negro, em que toda nossa informação e memória estariam desaparecendo.

Nossa pequena bolha na Via Láctea talvez sempre se lembre de Aretha e Cleópatra e Shakespeare e Hawking. Mas será que o resto do universo se lembrará de nós?

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